O artista das luzes

939197_925589067539193_654135313_o (1)Por Clodoaldo Turcato

Quando falamos em artes plásticas, mesmo nós com veia modernista, temos um artista em comum. Um pintor que superou a maioria de seu tempo e conseguiu levar para as telas um estilo único, inconfundível e inclassificável. Alguns dirão que se trata de um realista, outros que é simbolista. Não sei! O que sei que suas telas e gravuras me fascinam e o encantamento vai além de mero espectador, mas um apaixonado, que por vezes precisa ser crítico. E nessa estrada espinhosa da crítica, tentarei ser isento e escrever sobre Rembrandt.

Rembrandt Hermanszoon van Rijn! nasceu em Leiden, Holanda, em 15 de julho de 1606. Filho do rico proprietário de um moinho, aos 14 anos entrou para a universidade. No entanto, devido à sua grande vocação para as artes plásticas, ele abandonou os estudos para se tornar um dos maiores nomes da história da arte. Ao contrário de outros mestres da pintura, como seu conterrâneo Van Gogh, que viveu dois séculos depois, Rembrandt teve seu talento reconhecido ainda em vida.Nos três primeiros anos de sua carreira, Rembrandt foi aprendiz de Jacob Swanenburgh, um pintor de Leiden. Aos 18 anos, mudou-se para Amsterdã, capital do país, para estudar com o mestre PieterLastman, um influente artista holandês da época. Lastman havia estudado na Itália e foi ele que apresentou o jovem Rembrandt ao chiaroscuro (claro-escuro em italiano). Essa técnica, inventada pelo pintor italiano Caravaggio e usada por Rembrandt em toda a sua obra, usa a luz e a sombra para criar um efeito dramático.

Após uma breve volta à terra natal, onde trabalhou em pinturas com temas bíblicos e mitológicos, em 1632 o pintor mudou-se em definitivo para Amsterdã e passou a receber muitas encomendas. Naquela época, era comum que nobres e ricos comerciantes mandassem pintar seus retratos. Rembrandt era diferente de outros pintores porque conseguia perceber a emoção das pessoas. É só olhar para um quadro dele para notar a alegria ou a tristeza no olhar do personagem!

A Lição de Anatomia do Doutor Tulp, um óleo sobre tela medindo 169,5×217,5 cm, é uma das mais conhecidas obras-primas do pintor Rembrandt. Foi-lhe encomendada pela corporação dos cirurgiões de Amsterdã. Em sua composição, o artista representa oito personagens e um cadáver. Existem suposições de que duas das figuras, a da esquerda e a que se situa num plano mais alto, foram acrescidas depois da obra pronta, assim como a lista, onde se encontram os nomes dos participantes, vista na mão de uma das figuras.Durante uma aula de anatomia, o doutor NicolaesTulp, principal professor de anatomia da guilda, responsável por convidar Rembrandt para pintar sua aula anual de anatomia, mostra a dissecação anatômica de um antebraço, mostrando os tendões da mão. O médico, enquanto pinça o músculo e os tendões com a mão direita, usa a esquerda para demonstrar a seus observadores a flexão e a pressão dos dedos.

A história revela que o cadáver era de um homem de nome Adriaan que, após agredir gravemente um guarda da penitenciária de Utrecht, fugiu para Amsterdã, onde golpeou um transeunte para roubá-lo. Uma vez preso, foi morto por enforcamento, sendo seu corpo cedido para autópsia pública, oportunidade em que serviu de modelo para o pintor, que parece também convidar o observador para assistir à aula.Antes de pintar os modelos presentes na composição, Rembrandt convidou-os, individualmente, para serem retratados em seu ateliê, mas o braço dissecado do corpo foi pintado durante a autópsia, sendo, portanto, a obra uma montagem, já que foi feita em duas partes isoladas. Talvez, por isso, alguns olhares se mostrem desfocados do corpo em estudo.A composição está centrada na ação, de modo que o ambiente em derredor não tem a menor importância, desaparecendo quase que totalmente. Rembrandt eliminou qualquer tipo de excesso, para deixar somente aquilo que era essencial à cena. As figuras estão de perfil e meio perfil, excetuando o médico, que se encontra de frente para o observador.Os sete espectadores vestem roupas escuras, com volumosas golas brancas e possuem barba.  O doutor Tulp é o único a usar chapéu, pois o uso de tal apetrecho no interior de um estabelecimento, naquela época, era privilégio apenas das pessoas mais importantes. Suas vestes também diferem das demais. A posição mais afastada do médico, enquanto os demais personagens encontram-se amontoados, formando uma pirâmide, reforça a importância de sua presença.O modo como o pintor representa o corpo morto, que ocupa grande parte da tela, quase numa diagonal, chama a atenção do observador. A sua nudez e posição rígida contrastam com o corpo dos demais. Os olhos estão parcialmente encobertos por uma sombra. Ele tem apenas a parte do baixo ventre coberta com um tecido branco, e jaz sobre uma mesa de madeira. Próximo a seus pés está aberto o tratado de anatomia, cuja presença denota o caráter científico da aula. A maior parte da luz recai sobre o corpo, figura central da cena.

Embora no gênero dos retratos de grupo normalmente fosse usado o alinhamento dos retratados, ou seja, todos alinhados no mesmo plano, os personagens de Rembrandt estão aglomerados em torno da cabeça do morto, numa composição piramidal. Os olhares de alguns não acompanham o doutor Tulp, enquanto dois deles, inclinados sobre o corpo, parecem acompanhar as explicações com interesse extremado. Como o pintor tivesse especial pendor para com as expressões fisionômicas, os olhos dos participantes foram trabalhados com perfeição.

Além de pintor, Rembrandt foi um genial gravurista. Estudou os efeitos da gravação feita com diferentes objetos, como a ponta seca (agulha de ponta afiada que faz traços de textura áspera) e o buril, (instrumento de aço em forma de V que entalha traços finos). Além disso, o mestre fez experiências com diferentes tipos de papel, vindos até do Japão! Além de papéis como o europeu, o chinês e o japonês, Rembrandt também usou o pergaminho (feito de pele de animais, coitadinhos!). As cores e texturas dos materiais criam efeitos diferentes na impressão das gravuras.

Quando a esposa de Rembrandt morreu, ela lhe deixou uma herança polpuda que, juntamente ao seu sucesso como pintor, fez dele um homem rico. Além de artista, Rembrandt foi um grande colecionador de obras de arte e antiguidades. Mas a má administração de seus bens levou Rembrandt à falência. Um de seus últimos quadros mostra um quarto miserável com uma cama e uma cadeira quebrada. O maior pintor holandês do século 17 morreu na pobreza em 4 de outubro de 1669. Em seu testamento deixou apenas algumas roupas, instrumentos de trabalho e dois quadros. Ao contrário de tantos, Rembrandt viveu intensamente a arte e tudo que ela lhe ofereceu, e no final entregou-se para a vida. Mas seu final não ofusca sua genialidade, apenas enaltece.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem.

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