Nos ladrilhos

A obra nos atravessa para então atravessarmos a obra. Somos convocados a fazer o caminho surgir de nossos pés, mas sempre deixando-o aparecer sobre eles. O fazer surgir é o deixar aparecer: o fazer se torna aqui o deixar, uma ação que tem como firmamento a não ação. Não criamos a obra, no entanto, nos empenhamos na criação – essa que nos conduz ao realizar, sem que seja nossa realização.

  

[Ronaldo Ferrito]

12274555_864560480308886_1569249704171324419_nQuando criança, numa velha cantiga, ouvia as vozes serenas dos da minha idade ou da minha mãe dizerem que “se essa rua fosse minha/ eu mandava ladrilhar”… Hoje, tirando a ingenuidade absurda e por vezes esquisita da lembrança, ladrilho não as ruas, mas como leitora, costumo ladrilhar os textos que leio. A cada livro aberto, um novo terreno a desvendar, perder-se para encontrar a mim mesma no fim-começo da estória. Uma estrada se lança a frente no campo da leitura. Na verdade, creio que eles – os textos – são meticulosamente ladrilhados quando caem nas nossas mãos, contudo, aos poucos, somos arremessados num chão brilhante que nos convoca ao garimpo, é preciso deixar mais “pedras brilhantes” nos textos que lemos. Necessária troca de brilhos: da obra e das pedras do leitor. Mas para além dessa troca, há uma travessia sedutora que se abre no caminho cada vez que abrimos um livro e permitimos, humildes que somos como leitores, perder-se em suas ruas e vias, porque cada página virada revela em nós, o outro oculto, o outro em seus mistérios. O exercício da leitura é nosso cartão da alteridade e nesse ínterim, somos sempre o outro que nos espreita e que por sinal, encontramos. Empenhamo-nos em conhecê-lo, mas dele nos distanciamos, se na tarefa de ladrilhar os caminhos, coisa que não é fácil, uma pedra é posta fora do lugar, a arrogância diante do texto torna o caminho íngreme.

A epígrafe, belo texto de Ronaldo Ferrito, uma poesia à própria poesia, desnuda os limites entre o leitor e o texto. O primeiro, mero peregrino nesta estrada – o que convém lembrar tratar-se de mais uma bela metáfora – , molda com as próprias mãos, cuja essência é do mesmo barro que gerou o texto, as pedras brilhantes que depositará nessa “via excêntrica”[1]. Essa ação de ladrilhar é co-criação, porque somos indubitavelmente pertencentes e vítimas desse caminho, a obra nos põe à prova, em contrapartida, lançamos sobre ela o nosso eu mais puro, porque nos despimos dos noticiários, das etiquetas e somos somente nós, andantes desta estrada a caminho de nós mesmos no espelho do outro que lá se encontra. É por isso que a leitura nos atravessa, posto ser a moção do ser viandante que só no difuso firmamento encontra consolo e sabe que mesmo lá, haverá ainda espaços a serem ladrilhados, que o texto nunca se esgota.



[1] Título da obra de Ferrito: FERRITO, Ronaldo. A via excêntrica. Rio de Janeiro: Confraria do vento, 2010.

Danuza Lima é escritora, professora e mestranda em Teoria da Literatura pela UFPE. 

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