Nelson Rodrigues em “A desconhecida”, de “A vida como ela é”

capa a vida como ela é 2Por: Adriano Portela

O filme e a literatura

Em meio a essa indústria cultural imagética que vivemos, diversos são os debates em torno da adaptação livro-filme. Não vou entrar na discussão sobre a fidelidade ao original, até porque esse é um tema já bem analisado pelos pesquisadores. Prefiro ficar na condição de “ganho’’, mantendo viva a obra de Nelson, numa crescente: texto, cinema, TV e internet. Gosto de lembrar a definição do poeta John Keats, quando diz que a obra de arte é uma alegria eterna.

Nelson Rodrigues e o audiovisual

O professor e pesquisador Ismail Xavier ressalta que Nelson é um dos autores mais transcodificados para o audiovisual. Antes das adaptações para a televisão e para o cinema, Nelson, em 1963, já escrevia direto para a mídia TV. Sua primeira telenovela foi encomendada pela TV Tupi e chamava-se ‘’A morta sem espelho’’. Um ano depois ele escreveu ‘’Sonho de amor’’, com Fernanda Torres no elenco, e ‘’O Desconhecido’’, estrelado pela atriz Nathalia Timberg. Em seguida vieram às adaptações para as telas. As novelas “Meu destino é pecar” e as duas versões de “Engraçadinha” – a última com atuação de Alessandra Negrini. As telenovelas foram exibidas na Rede Globo de Televisão.

O cinema serviu como grande divulgador da obra do pernambucano. Até agora mais de 20 filmes foram baseados nos textos de Nelson, e alguns com mais de uma versão, como, por exemplo, “Bonitinha, mas ordinária”.

A vida como ela é – Jornalismo, Literatura e TV

“A vida como ela é” foi uma coluna, a princípio, publicada no jornal “Última Hora”, de Samuel Wainer. Nelson, que já havia passado pelos periódicos A Manhã, Crítica, Jornal dos Sportes e O Globo, aceitou a proposta do editor e começou a entrar no ramo do jornalismo policial literário. 

A coluna, inaugurada em 1951, foi um sucesso e durou dez anos no Última Hora, em seguida ela passou a fazer parte do jornal Diário da Noite, de Assis Chateaubriand. “A vida como ela é” trazia como tema principal, retratado nas quase duas mil histórias, o adultério. O cenário era o Rio de Janeiro e os personagens integravam a sociedade carioca dos anos 50. Nelson tornou-se um dos jornalistas mais famosos do Rio de Janeiro e a coluna começou a deixar o papel, partindo para outras mídias. Foi de “A vida como ela” que “A dama do Lotação” (um dos contos) ganhou adaptação para o cinema e teve um sucesso esplendoroso.

Em 1996, o Fantástico, programa de jornalismo e entretenimento da Rede Globo, levou o universo rodriguiano para a TV. Euclydes Marinho, autor de séries de televisão e também diretor de fotografia, foi o responsável pela adaptação e criação dos roteiros; a série homônima teve 40 episódios, cada um com aproximadamente nove minutos, e foi filmada em película, o que deu um tom cinematográfico ao trabalho.  A direção ficou por conta de Daniel Filho e Denise Saraceni; no elenco nomes como Tony Ramos, Malu Mader, Marcos Palmeira, Laura Cardoso, Gabriela Duarte, Maitê Proença e outros. Os narradores foram Hugo Carvana e José Wilker.

A desconhecida – do texto ao filme

Na reedição de “A vida como ela é” (2006), da editora Agir, o conto “A desconhecida”, é o último das cem narrativas publicadas no livro e um dos primeiros episódios da série homônima exibida no fantástico; se formos tomar por base a gravação em DVD, o episódio é o primeiro do segundo volume. Na adaptação para a TV, a história ganhou novo nome, passou a chamar-se “Para sempre desconhecida’’. Para tentar entender o porquê de esse título ter mais palavras do que o título literário, poderíamos levar em conta as seguintes hipóteses: primeiro, a televisão precisa vender, anunciar o seu produto, é uma mídia que, na realidade, vive de chamar o público para assistir a sua produção, essa seria uma alternativa; segundo, podemos levar em consideração a questão pessoal, sabendo que o adaptador, Euclydes Marinho, gosta de títulos grandes. O seu primeiro trabalho no cinema levou o nome de “A Estrela Sobe (1974)’’, de Bruno Barreto; na TV, integrou a equipe de autores da série ‘’Ciranda Cirandinha’’ (1978), e a sua, até agora, produção mais recente, a minissérie, cujo título é: “Felizes para sempre?’’ (2015), de Fernando Meirelles. Em entrevista ao site Memória Globo, Euclydes define seu modo de produzir: “O jeito como eu trabalho é muito curioso. Detesto pensar antes, detesto fazer escaleta. Gosto de sentar e escrever. Quando paro de escrever e me levanto da cadeira, esqueço o que estava escrevendo’’.

A desconhecida traz a história do namorador Andrezinho (Marcos Palmeira), que recebe um desafio de conquistar uma mulher belíssima, o problema é que Peixoto (Tony Ramos), o mesmo que lançou a proposta, implica em não dizer o nome da donzela. Andrezinho acaba se apaixonando por uma dona cujo rosto ele nunca tinha visto. A trama se passa, em grande parte, em um boteco no Rio de Janeiro.

O conto possui apenas cinco páginas, na TV a narrativa ganha nove minutos. A série tem uma abertura padrão e uma trilha sonora temática. Quase todos os episódios são iniciados com a imagem de uma máquina de escrever (poucos são os que começam com alguma cena e um pequeno trecho de diálogo). Em primeiríssimo plano[1], o telespectador vê o título do episódio sendo escrito, escuta o som da máquina de escrever, e em seguida se depara com a inesquecível trilha sonora, a música “This Gun For Hire”, de Jazz at the Movie Band, e a voz do narrador (José Wilker) iniciando a trama. Outras músicas que estão em quase todos os casos narrados são: Me deixas louca, de Elis Regina; Ouça, de Maysa; Segredo, Dalva de Oliveira; Se Queres saber, Nana Caymmi e Ilusão a toa, de Jonny Alf.

Devemos observar que os narradores – conto e TV – são diferentes, cada um tem uma característica própria, mesmo que, em alguns trechos do filme, a narração do texto apareça na íntegra. Como distinguir essas diferenças? Basta analisar ambos, o narrador do texto preza por mais detalhes, o do audiovisual é mais objetivo. No livro, por exemplo, ele traz informações do tipo: “Aproximava-se segurando um pedaço de pão e ainda mastigando’’; na telessérie o personagem Peixoto já entra em cena dialogando e sem o pão. O narrador fílmico só é um pouco mais detalhista na abertura do episódio, já que ele precisa apresentar o protagonista ao telespectador e fazer com que ele se interesse pela história. A finalidade: audiência. ‘’A princípio Andrezinho fazia por brincadeira, mas com a repetição aquilo tornou-se um vício, o fato é que perguntava por toda parte’’. No papel, a narrativa é iniciada justamente com essa pergunta de Andrezinho “Sou ou não sou bonito?’’.

Na TV alguns elementos podem resolver as passagens de tempo, desde o próprio narrador, como imagens de apoio, ou transição entre cenários. No livro, a troca de cenários fora resolvida com o simples intertítulo: “o bonito’’. No vídeo, precisou-se do narrador, da trilha e da imagem para cobrir o texto falado. A transição foi do bar para a praia, da praia para o quarto, e lá se desenvolveu uma sequência de flashbacks das mulheres que frequentavam o local. Mas isso não significa ser um padrão, no segundo intertítulo, “misteriosa”, ocorre o contrário, o filme utiliza um simples efeito de corte, saindo da imagem de Andrezinho no carro com duas mulheres para o bar. No texto temos a introdução do narrador: “Até que, numa conversa de café, o Peixoto, que não gostava do Andrezinho, diz que conhecia uma fulana. Andrezinho saltou. Já com seu instinto de sedutor nato em polvorosa, pôs a mão no ombro do outro: – Pra mim, não existe a mulher inconquistável.”

Alguns elementos textuais, na TV são resolvidos apenas com imagens. A narrativa traz que Peixoto saía com sua perna mais curta do que a outra; na série basta mostrar o movimento da personagem. É como se a câmera fosse o nosso olhar, o telespectador acompanhando cada passo; no cinema e na TV chamamos essa técnica de câmera subjetiva.

“Nessa noite, Andrezinho custou a dormir. Estava acostumado à mulher bonita, à conquista fácil, mas o fato é que Peixoto soubera criar uma sugestão diabólica. Quem seria? Como Seria?’’. Neste terceiro intertítulo os narradores – texto e filme – iniciam com as mesmas palavras. Na TV se ganha o acréscimo da bela voz de Elis Regina, interpretando a canção ‘’Me deixas louca’’. E a frase ‘’Que mágica besta’’ fecha as duas partes, a textual e a fílmica.

Os dois últimos intertítulos (conto) e as cenas finais (filme) são marcadas por pequenas trocas de palavras. O texto traz “edifícios”, a TV vem com “Catedrais”; Nelson escreve que Andrezinho estava em pânico por estar apaixonado por uma mulher que não sabia qual era o rosto; Euclydes Marinho e Daniel Filho mostram esse desespero. Na cena vária mulheres nuas, sem aparecer o rosto, permeiam os pensamentos do galanteador. A trilha principal (This Gun For Hire) volta no anúncio da morte de Peixoto.

[...] ao atravessar uma rua, Peixoto morrera imprensado entre um bond e um ônibus. Andrezinho uivou: ‘Morto?’ E soluçava: ‘Não é possível! Não pode ser!’ Uns quinze minutos depois entrava no necrotério. Ao ver o outro, na mesa, definitivamente silencioso, sentiu-se condenado a amar uma mulher, que jamais conheceria. Enfureceu-se. Atirou-se ao cadáver, sacudia-o, gritando:

-Diz o nome! Quero o nome! Fala!…

Foi agarrado, dominado. Então, caiu de joelhos, no ladrilho. Seu choro era grosso como um mugido.

Cena final. Plano fechado. Close no rosto de Peixoto. Imagem fica num tom cinza, dando a ideia de uma página de livro já desgastado.

Podemos ultimar que as duas obras “A vida como ela é” (literatura) e “A vida como ela é” (TV) somam na divulgação do nome Nelson Rodrigues. Seu texto grita por ser lido, grita por outras mídias. O teatro rodriguiano é o nosso cotidiano, a TV e o cinema estão arraigados em nossa vida. O próprio Nelson dizia que o mais importante que ler é reler; podemos levar esse pensamento para o campo intersemiótico e transformar essa releitura em outras mídias. Nelson Rodrigues, Daniel Filho e Euclydes Marinho, no fim das contas, estão trazendo a tona a nossa realidade e fingindo que ela é uma ficção.

Adriano Portela é jornalista, escritor, cineasta e mestrando em Teoria da Literatura pela UFPE. Portela é autor do romance A última volta do ponteiro (prêmio internacional José de Alencar de Literatura, pela UBE-RJ).

[1] Imagem bem fechada em algum objeto ou pessoa.  

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