Não cabe ao crítico ser dono da verdade em arte

Por Clodoaldo Turcato

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Ao escrever sobre artes plásticas é preciso despir-se de conceitos, caso contrário criamos um estilo pessoal que vá influenciar sobre o que se escreve e isso é perigoso, destilando  uma critica direcionada que vá dizer o que é bom ou ruim, pontuando como a uma garrafa de vinho. A meu ver, o crítico não deve misturar seu gosto pessoal com seu trabalho. Cada obra é preciso estar aberto, pronto para compreender e depois repassar isso ao seu público. Outro erro é pensar que o crítico de arte tem o poder de definir o certo do errado, o bom do medíocre, criar os deuses da pintura renegando milhares de grandes talentos. Este engodo sobre o crítico de arte é milenar. Somos apenas estudiosos, gente que vai aos livros, aos museus, à rua para compreender o mundo com a visão da arte. Eu tenho reservas quanto às pichações e intervenções, bem como alguns estilos abstratos, no entanto me dedico com afinco para formar uma opinião mais técnica que pessoal. Evidente que vou dizer “não gosto disso ou daquilo”. Tudo bem. Isso é pessoal. Dai a dizer que a pichação ou as intervenções não fazem sentido, são outros quinhentos.

Introduzo desta maneira para que o leitor desta coluna compreenda por que passeio pelas escolas artísticas, tentando dar uma oportunidade para que se conheça a arte com os olhos isentos, saltitando dentro de vários estilos. Assim, penso, se faz critica de arte.

Há quem diga que Giovanni Bellini tenha sido um pintor menor, ou menos destacado, o que eu discordo. Bellini teve a sorte de nascer no mesmo período de Leonardo da Vinci, Rafael, Michelangelo, Boticelli, Ticiano e Titoretto, ícones renascentista. Seria o mesmo que um grande jogador de futebol ser contratado pelo Barcelona ou Real Madrid. Vai jogar muito, podendo ser ofuscado pelos craques da equipe. Bellini é considerado o gênio inaugural da pintura renascentista, em particular a veneziana. Cunhado e amigo de Mategna, teve Ticiano entre seus aprendizes.

Giovanni e seu irmão Gentile começaram a desenhar na casa de seu pai, Jacopo, de quem foram assistentes até quase os 30 anos. Os primeiros trabalhos de Giovanni têm forte influência da escola de Pádua, especialmente de Mantegna. Em suas obras iniciais, Bellini combina a severidade e a rigidez da escola de Pádua com sua própria sensibilidade e com novos efeitos de cores. Seu estilo se revela em duas pinturas com o tema “Cristo Morto Carregado por Anjos”. Na década de 1470, Bellini fez uma “Transfiguração”, de estilo veneziano, e “A Coroação da Virgem” para o altar da igreja de Pesaro. Não muito depois, pintou um quadro para um altar da capela da igreja de São Pedro e São Paulo, destruído por um incêndio em 1867. Perto de 1480, Giovanni se concentrou nas suas obrigações como conservador das pinturas do grande salão do Palácio Ducal, que ele assumiu por um alto pagamento e a concessão de privilégios comerciais. 

Bellini passou a ser um pintor requerido pela grande sociedade veneziana da época, tendo muitas vezes que recusar trabalhos, tornando-se um dos pintores mais caros da época. Seu estilo é de época e suas atividades eram voltadas à elite política e religiosa, como a maioria dos renascentistas. Por isso que criticar Bellini seria um erro, dado que é necessário compreender a época e o que cada uma representa.

Umas das obras mais representativas do pintor é o quadro Jovem no toucador, um óleo sobre madeira medindo 62×79 cm, que se encontrar no Museu Kunsthistorisches, Viena, Áustria. O rosto idealizado e a paisagem distante faz esse quadro lembrar algumas pinturas de Bellini da Virgem Maria. O objetivo da obra, no entanto, certamente não era criar um objeto de devoção religiosa; este nu nos oferece um ideal secular de beleza feminina.

Giovanni foi o membro mais famoso da família Bellini e contribuiu muito para popularizar a nova técnica de pintura a óleo. A transformação de Veneza em importante centro do renascimento deve muito a ele. Apesar da influencia inicial que recebeu do cunhado Andréa Mantegna, seus quadros tendem a ser românticos e imaginativos, enquanto os de Mantegna são diretos e precisos. Bellini chefiou uma oficina ativa, com Tiziano e Giorgione entre seus alunos. Como era comum então, o Mestre assinava os quadros da oficina como se fossem seus.  Hoje as pinturas próprias de Bellini são consideradas superiores, mas na época qualquer obra da oficina tinha o mesmo valor das do Mestre.

A crítica superficial adora desprezar Bellini por achar que o mesmo era mais comerciante que pintor, já que relegava seus trabalhos aos aprendizes. Isso não é todo verdadeiro,  já que o costume da época era esse. Porém, Bellini não chegou a Mestre por acaso, ele foi um grandioso pintor, genial para muitos e não se resumia a assinar as telas, como alguns insistem. Se fosse assim, Michelangelo e Rubens seriam incluídos nessa visão pequena.

Então, caro leitor, ao ver um Bellini a sua frente esteja certo que vislumbras um magistral trabalho. Gostar ou não é de seu foro íntimo, já que ninguém, por mais estudioso que seja, poderia definir o bom e ruim. Bellini é ótimo, lhes asseguro.

Outras obras do pintor são A Transfiguração, Pietà, Brera,  Poliptico de São Vicente Ferreri e A Coroação da Virgem.

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