Manifestare – Crônica

Manifestare

Do latim, tornar manifesto, público, patente. É assim que encontramos, nos mais diversos dicionários da nossa língua portuguesa, o significado da palavra “manifestar”, cujo derivado “manifestação” está num absoluto modismo. Assim como a moda, que dá voltas e se altera a cada instante, a arte chega a trilhar um caminho parecido.

Em vez de google, wikipédia e outras ferramentas de conhecimento online, vamos retomar às páginas, hoje amareladas, das antigas enciclopédias. Na minha biblioteca guardo uma relíquia escrita um pouco depois do golpe de 64 e um período antes do conturbado ano de 1968, a Enciclopédia de Moral e Cívica publicada pela Companhia Nacional de Material de Ensino. Lá, encontro que o termo “arte”, no passado, tinha uma acepção muito mais ampla do que a já empregada na década de 60. Falava-se em arte a respeito de qualquer atividade na qual se dava valor, também ao modo pelo qual ela se explicitava, por exemplo, a arte de bem viver, a arte mecânica, a poesia. Hoje, muitos estudiosos a tem como um prazer estético, uma busca do belo em si; o artista é o criador da beleza. Mas até quando esses argumentos vão permanecer intactos?

Antes, livro era livro, poesia era poesia, cinema era cinema. Será mesmo? Nos dias atuais tudo se mistura e traz um resultado. Somente na atualidade?

Pensemos

Vamos pelo ponto de vista de que tudo vem da escrita; ela serve de subsídio para a palavra supracitada no início do texto: manifestação, a mesma que entrou para o mundo do modismo. A escrita se manifesta, ou melhor, é manifestada pelos artistas. O escritor domina a arte da comunicação mediante símbolos, o livro torna esses símbolos imortais, a literatura forma um conjunto de obras escritas de uma época, e o artista busca metamorfosear produtos desse conjunto, assim como fez Kafka com Gregor Samsa.

Quantos livros já foram transformados em filmes? Quantos contos viraram séries de TV? Quantas peças teatrais ganharam adaptações e mais adaptações? E o autor, quantos analisam uns aos outros? Esta é a verdadeira manifestação da arte, um processo que, sem percebermos, já existe há muitos e muitos séculos.

Não devemos enxergar a escrita como o início de tudo, ela por si só já é uma manifestação dos desenhos pré-históricos, que não passa de uma manifestação do pensamento do homem, por fim tudo sempre existiu no interior do ser humano.

Analisemos

“A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, é exemplo de uma metamorfose numa só obra. No livro – uma aula de ficção -, a autora cria Rodrigo, Rodrigo explica como escreve a obra a partir de um sentimento exposto no rosto de uma moça nordestina, Macabéa, e daí segue o enredo. O livro poderia ter morrido como livro, o “percurso natural”, mas a ânsia pela cultura é tanta que houve o “mais além”, páginas foram transformadas em película em 1985, dirigida por Suzana Amaral. No filme encontramos uma nova leitura, um procedimento natural na expansão de qualquer trabalho artístico.

Em “Orgia Perpétua”, Mário Vargas Llosa faz um estudo completo das técnicas usadas em Madame Bovary, de Flaubert. O peruano procura entender a infatigável luta do francês pela busca da palavra certa. O próprio Thomas Mann escreve um livro para explicar outro. “A gênese de Doutor Fausto” detalha como foi o processo de criação do seu “Doutor Fausto”, um romance cheio de técnicas sofisticadas e com múltiplos pontos de vista, onde Sereneus conta a biografia do músico Adrian Leverkuhn e, ao mesmo tempo, descreve a própria história: uma biografia e autobiografia.

Nelson Rodrigues até hoje é um dos dramaturgos mais montados. Constantemente nos deparamos com Vestido de Noiva, A Falecida, Doroteia… entre palcos e coxias. Na TV a produção mais recente é o remake de Gabriela Cravo e Canela – confesso que a interpretação de Juliana Paes não me agrada, a atriz ainda não mostrou a suavidade aliada à sensualidade jovial que pede a personagem de Amado. A minissérie deixa de ser uma simples releitura e passa a valer como um incremento artístico; a equipe de produção ousa com inclusão de personagens e situações não vividas nas páginas do livro, algo perigoso, inovador, mas perigoso.

Essa manifestação da arte tem um objetivo primordial, ela nos proporciona o censo crítico e nos deixa mais antenados com o mundo. E a dica para a continuação desse processo é aguardar a adaptação da obra do ilustre escritor pernambucano Ronaldo Correia de Brito. Em breve “Galileia” – o livro conta a história de três primos que atravessam o sertão cearense para visitar o avô doente -, romance vencedor do prêmio São Paulo de Literatura, na categoria Livro do ano (2008) e que estará nas telas do cinema. Os direitos foram comprados pela RT Features. É nesse ar misterioso, de desejo por mais cultura, que se encerra este artigo, um também experimento deste “modismo necessário”, o “Manifestare”.

Por: Adriano Portela

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