Gustave Coubert, um libertador

Por Clodoaldo Turcato

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Em toda a história da arte, tantos foram os artistas que se posicionaram contra os padrões sociais. Já escrevemos aqui várias vezes a importância que tem estas rupturas para o desenvolvimento da arte e da sociedade – o comodismo engessa. A priori, algumas obras foram tidas como aberrações para depois tornarem-se representantes de guinadas vibrantes rumo ao desenvolvimento humano. As ousadias de Duchamp, Da Vinci, Cèzzane, Picasso, etc. são celebradas constantemente. Agora estamos diante das artes participativa, da tecnologia, das performances. Tudo nos espanta, no entanto são necessárias. O que é bom ou ruim o tempo vai definir.

De todos os desbravadores, um dos mais ousados em termos de estilística foi Gustave Coubert. Estávamos em 1866 e Courbet era já um pintor conhecido em França pela sua destreza técnica, mas sobretudo pela sua atitude crítica e corrosiva em relação à sociedade e moral burguesas, que não perdia ocasião de afrontar. Courbet era um socialista convicto, arrogante e autoconfiante, é preciso dizer. No entanto talvez isso não baste para justificar a obra que realizou nesse ano e que havia de o celebrizar mais do que todas as outras. Ao representar frontalmente as coxas e o sexo de uma mulher, A Origem do Mundo abalou profundamente o meio artístico da época. E não só!

A tela tem um percurso atribulado. Reza a História que um diplomata turco, de nome Khalil-Bey, de passagem por Paris encomendou a Courbet para a sua coleção um quadro, que viria a ser este. Khalil-Bey era um colecionador de arte erótica e tinha já adquirido ao artista uma pintura denominada O Sono ou Adormecidas, representando duas mulheres nuas deitadas sobre a cama em poses sensuais. Possuía também o famoso O Banho Turco, de Ingres, entre outras obras.Pouco tempo depois Khalil-Bey viu-se obrigado a vender diversas peças da sua coleção para pagar dívidas de jogo. Escondida debaixo de uma outra tela de aspecto mais pacífico, A Origem do Mundo foi então comprada por um antiquário, passando de mão em mão até ao seu último dono, o célebre psicanalista francês Jacques Lacan. Após a sua morte, a família doou-o ao Museu d’Orsay, onde se encontra presentemente.

O quadro é profundamente perturbador ou mesmo chocante. O incómodo sentido pelo observador ao olhar de modo tão direto para o sexo que ali se exibe ostensivamente é enorme. Há uma espécie de pudor, de vergonha quase instintiva que se revela em nós ao observá-lo. Mais do que violentar a intimidade do objeto retratado, o artista violenta o público. De resto, Courbet adorava fazê-lo embora nunca tivesse ousado ir tão longe. Porque se atreveu desta vez?À época, na Academia, os estudantes exercitavam-se desenhando as estátuas clássicas de corpo idealizado. Essas estátuas, Apolos e Afrodites, não eram de modo algum assexuadas, mas a representação do sexo era estereotipada, camuflada ou deturpada. Os homens frequentemente tinham uma parra a tapar os órgãos genitais enquanto que nas mulheres nada se via para além da continuidade da pele lisa da barriga. Courbet detestava os académicos e as suas fórmulas – ele que dizia que só podia pintar aquilo que via.Esta tela surge assim como um manifesto contra o academismo, mas também contra a falsidade vigente na Arte e na Sociedade oitocentista. Representa a libertação definitiva do artista de todos os estereótipos! Significativo é o facto da polémica se ficar a dever ao tema e à forma como foi abordado e não às qualidades pictóricas do quadro – se estava bem pintado ou não. A Origem do Mundo foi uma obra inspirada, visionária talvez, um ato estético da maior importância e uma obra de arte de primeira grandeza. A Pintura Moderna talvez tenha começado aqui, com origem no sexo de uma mulher.

Coubert saiu da zona de conforto sem reinventar a arte ou criar uma escola. Com a origem do mundo ele expressou toda a crueza da vida e a beleza de um corpo (que poderia ter sido de um homem, enfim) ao mesmo tempo que alertava a todos que não se poderia ficar somente no expressionismo, e que este deveria ousar mais, chacoalhar o meio para não cair no conformismo comum a todos os movimentos. Courbet liderou o movimento do Realismo na pintura francesa do século XIX, comprometendo-se a pintar apenas o que via. Quando lhe pediram que pintasse anjos ele respondeu que os pintaria se os visse.Rejeitou a convenção académica e o romantismo da anterior geração de artistas plásticos e a sua independência foi um exemplo importante para artistas posteriores, como os impressionistas e os cubistas. Courbet ocupa um lugar de destaque na pintura francesa do século XIX, seja como um inovador seja como artista disposto a fazer declarações socialmente ousadas, através de seu trabalho.

Courbet sempre foi um pintor que criou alguma controvérsia à sua volta, primeiramente pela lacuna criada entre as escolas Impressionistas e Romanticistas. Nenhuma destas escolas definia a pintura de Courbet. Courbet era um pintor realista e não adereçava qualquer tipo de pintura vinda da imaginação, dos sonhos ou mesmo vinda da literatura. Ele retratava com as suas pinturas a vida que estava à sua volta.  Principalmente as questões da vida camponesa, questões relacionadas com a pobreza e com as condições de trabalho.A sua pintura é uma pintura marcada com pinceladas fortes com textura, com forma e eram baseadas no dia a dia que observava. Com o passar dos anos tornou-se cada vez mais polémico.

Para muitos o artista era demasiadamente realista e até desavergonhado. Para outros libertador. Para o público há uma espécie de libertação do olho, dos estereótipos. E esta libertação volta ao artista que se expressa com total emancipação.

 Em 1871, esteve envolvido na Comuna de Paris, chegando a participar de seu breve governo. Logo após, foi preso e recebeu várias multas pela participação no movimento revolucionário socialista. Para escapar das elevadas multas do governo, fugiu para a Suíça, onde foi morar numa velha estalagem na zona rural. Viveu ai até seus últimos dias de forma pobre e quase anônima. Gustave Courbet faleceu em La-Tour-de-Peliz,Suíça em 31 de dezembro de 1877, de cirrose.

Outras obras do artista são Bonjour, Monsier Coubert, Os quebradores de pedras , Um funeral em Ornans,  As banhistas, O ateliê do artista e o Sono.

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