Gullar e a metáfora da presença

 

Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.

[Ferreira Gullar, No corpo]           

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Capa da revista Serafina de 2010 / Foto: Murillo Meireles

Por Danuza Lima

Esta semana, palavras saíram dos claustros e ganharam a erraticidade, poeta, autor célebre de “Dentro da noite veloz”, morre Ferreira Gullar, pseudônimo para José Ribamar Ferreira e  eis que sua morte, nos permite refletir que as coisas notificam a nós, escreventes, o vosso segredo. Palavra e ação coadunam-se perante a natureza excêntrica do mundo. A metáfora enquanto, recurso plástico desta excentricidade, figura o rol infinito das possibilidades de feitio da composição poética. Mas para além do seu poder representativo de figura estética, a metáfora ganha em poesia a capacidade de redirecionar o mundo prático e útil a partir de sua própria (des)automatização, planejando sua produção de presença por meio da linguagem.

Movido por três funções anímicas que o tornam homem de seu tempo, escreve o poeta sob a égide dessas forças: afetividade, inteligência e vontade[1]. Sob a ordem da afetividade, é ele tocado por este barro que se faz verbo, a cargo da inteligência, vai o poeta como “escultor na depuração da forma até encontrar o seu núcleo” (Carlos Nejar, 2008) e com a vontade, se inscreve num dado momento histórico e sua atividade escrita culmina como desafio. Afetividade, inteligência e vontade fundamentam a obra da mesma forma que comprovam: A poesia é mudança, “junção harmoniosa de arquitetura, escultura, pintura, música – com as palavras” (Carlos Nejar, 2009). Gullar, um dos últimos poetas de uma geração inaugural da poesia brasileira, soube, nutrido desta tríade, produzir com os recursos que dispunha, no qual a palavra era navalha, a presença da mesma tríade que o funda: afetividade, inteligência e vontade, por meio do uso cirúrgico do procedimento metafórico. Desta forma, sua composição lírica está ligada diretamente a sua erudição e ao fértil diálogo que sua obra mantém com o leitor, levando-o ao trabalho não só de decifração, mas sobretudo, de refração para com o texto.

À guisa de morteiro, seguem ainda as palavras de Ferreira Gullar a ecoar sobre nossas cabeças. E mesmo poema tão decantado e lido, “Traduzir-se” é sem dúvida, exemplo básico para o dito:

Uma parte de mim

é permanente;

outra parte

se sabe de repente.

 

Uma parte de mim

é só vertigem;

outra parte,

linguagem.

 

Traduzir-se uma parte

na outra parte

— que é uma questão

de vida ou morte —

será arte?

O uso deste procedimento na obra de Gullar não é visível se pensarmos na fórmula de composição da metáfora enquanto figura estética, é neste ponto que reside um dos diferenciais da obra do poeta maranhense. A metáfora em Gullar surge a partir do que Gumbrecht[2] denomina de “produção de presença” e não somente pela equiparação de termos “A”, “B”, “C”. por isso, não vemos “matematicamente”, termos equivalentes entre si, mas sim, a nítida impressão da presença potencial da palavra enquanto universo que fraciona outro universo.


[1] A “experiência de vida”, segundo Dilthey, revisitado por Benedito Nunes, está centrada na existência de três funções anímicas: afetividade, inteligência e vontade. É sobre estes pilares que o homem cria e imprime a sua criação seu conhecimento. “Afetividade, inteligência e vontade condicionam a nossa relação com o mundo, imprimindo direção ao conhecimento teórico e à atividade prática” in: NUNES, Benedito. Hermenêutica e poesia: o pensamento poético, Belo Horizonte: UFMG, 2011, p. 44.

[2] A noção de presença é apresentada e desenvolvida por Hans Ulrich Gumbrecht em: GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença – o que o sentido não consegue transmitir, Rio de Janeiro: Contraponto, PUC-RIO, 2010. Para o filósofo alemão, presença “refere-se a uma relação espacial entre o mundo e seus objetos. Uma coisa “presente” deve ser tangível por mãos humanas – o que implica, inversamente, que pode ter impacto imediato em corpos humanos” (p.13).

 

 

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