O guerreiro nordestino

Reisado_Juazeiro_do_NorteO folguedo símbolo das Alagoas resiste e atrai jovens, mesmo com o “bombardeio” da massificação cultural.

 Por Tiago Eloy Zaidan

 Alagoas, como os demais Estados do nordeste, é rica em manifestações culturais. São diversas. Mas é o auto do guerreiro, ou simplesmente o guerreiro, que representa com mais brilho a cultura local. Segundo o folclorista José Maria Tenório, trata-se de um “grupo multicolorido de dançadores e cantadores, semelhantes aos reisados, com um maior número de figurantes e episódios, maior riqueza nos trajes e enfeites e maior beleza nas músicas”.

O folguedo surgiu na segunda metade da década de 1920, como conseqüência da união dos antigos reisados locais e do extinto auto dos cabocolinhos, além das cheganças e dos pastoris. A presença do sincretismo religioso é marcante. Não por acaso, seu principal adorno – os populares chapéus em formato de catedrais – homenageiam com fulgor os santos católicos. Tais peças podem pesar até 20 quilos.

 A estrutura do guerreiro é composta por uma sequência de cantigas dançadas por executores bem ornamentados e representações, fazendo alusões a temas históricos e religiosos. O acompanhamento é feito por sanfona, tambor e pandeiros. Geograficamente, a tradição se espalha por diversos pontos do Estado, contemplando litoral, zona da mata, agreste e sertão. “Como o folclore é o retrato da sociedade pelo povo, algo vivo, é feita uma reestruturação dos folguedos, fazendo surgir o guerreiro”, explica o presidente da Comissão Alagoana de Folclore e professor universitário, Ranilson França de Souza, falecido em 2006.

Com o passar dos anos, a brincadeira passou por algumas metamorfoses. A vestimenta, por exemplo, que antes fazia alusão a fardas de soldados, em nada parece com as roupas chamativas e coloridas de hoje. Essa mutação ocorre em função da incorporação de elementos do reisado, do pastoril, dos quilombos, das baianas e das cheganças, dentre outros. Certamente, tal mistura eficiente de elementos captados por todo o território alagoano, contribuiu decisivamente para a sua aceitação em praticamente todas as regiões do Estado. Apenas no sertão, onde os reisados são mantidos originalmente, o guerreiro enfrenta alguma resistência.

Em Maceió, mais precisamente no popular bairro de Chã da Jaqueira, reside um dos últimos mestres de Guerreiro. Benon Pinto da Silva, vulgo Mestre Benon, é pernambucano de Cabo de Santo Agostinho, região metropolitana do Recife. Nasceu em 13 de julho de 1934, porém mora desde os dois meses em Alagoas, terra do guerreiro. E foram nas cidades interioranas de Viçosa e Cajueiro que aprendeu a gostar de folclore. Nas míticas festas nordestinas, em meio aos singelos parques de diversões, o menino Benon, assistia impressionado a beleza e a riqueza do guerreiro. “Passei a sonhar em ter um chapéu daquele”, fala, referindo-se a um dos principais ornamentos do dançador desse folguedo. Aos 10 anos, influenciado por Joana Cajuru – lendária dançadora da região – passou a praticar o guerreiro, e não parou mais.

Em 1957, criou o seu famoso grupo de guerreiro, Treme Terra das Alagoas, o qual se orgulha de manter registrado na Secretária de Cultura do Estado. Hoje, a equipe do Mestre conta com 35 integrantes – no início eram oito – dos quais fazem parte uma criança com cinco e um senhor com 85 anos de idade. O exemplo ilustra a sua frase, “O guerreiro é como o amor, não tem idade”.

 São muitos os jovens que dançam o guerreiro. Adolescentes e crianças compartilham do mesmo grupo para louvar o folclore local. Claudevan Mendonça de Amorim, 13 anos, dança o folguedo desde os oito anos de idade. Aprendeu com o pai. Já Alexandro da Silva, 12, participa de grupos desde os sete anos. Sequer sabe explicar como aprendeu os passos, certamente em função da naturalidade da fixação cultural. “É da vida”, afirmou. Maria Daniela dos Santos, 14 anos, diz ter aprendido a dançar o guerreiro sozinha. “Via o pessoal dançando e ficava olhando, aprendendo”, e completa, “eu amo o guerreiro, nunca vou deixar de dançá-lo”.

 BOX complementar:

 O guerreiro em Alagoas hoje

Apesar da criticada atuação massificadora das emissoras de televisão comerciais e da cultura “enlatada”; para o folclorista Ranilson França, em uma de suas últimas entrevistas antes de sua morte em 2006, o panorama local ainda era animador. “Alagoas nunca foi tão povoado de guerreiros como agora. Só no bairro de Chã da Jaqueira são oito”, informou entusiasmado. Segundo pesquisa realizada à cerca de nove anos, existem aproximadamente 80 grupos de guerreiro em atividade por todo o Estado. Muitos dos quais, completamente desamparados. Apesar de admitir a falta de incentivo, França afirmava não acreditar na virtualização desse folguedo.

 Tiago Eloy Zaidan – jornalista e professor da ESM FAMA

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