Guerra de coxinhas e Marieta Severo no Cine-PE

coxinhaVinte horas e eu ainda tentando estacionar; “a entrada é pelo Chevrolet Hall”, dizia o guarda. Pronto, ia me atrasar ainda mais, deixei o carro pela rua mesmo. Corri, encontrei uns amigos que me esperavam. Entramos. O filme Vendo ou alugo, de Betse de Paula, já havia começado. Naquela escuridão do cinema, aproveitando um pouco do vazio – alias nunca vi o dia de sábado do Cine-PE com tão pouca gente, geralmente é lotado, daí o título de Maracanã do cinema -, chegamos mais para perto da tela, quando sentamos é que percebemos que os atores da obra estavam uma fileira antes da nossa. Eram eles: Marcos Palmeira, Nathalia Timberg, Marieta Severo e Silvia Buarque de Holanda. Resultado, só de ver esse povo todo bateu a fome.

Saí e fui procurar algo para saciar o desejo. Eu e Carlos compramos coxinhas, quatro, todas com catupiry. Esquecemos que não nos deixariam entrar com a comida. Que fizemos? Escondemos as coxinhas dentro da calça e fomos embora rumo ao telão. Passando despercebidos, nos acomodamos novamente em meio aos Vips e aos mortais. Mas o pior estava por vir. Raquel, uma das nossas amigas, estava louca de fome; num frêmito tomou a coxinha da minha mão, num ato de instinto tentei impedir, resultado, a pequena massa quente repleta de frango e muito queijo pulou das nossas mãos e caiu bem em cima da cabeça de Marieta Severo. A coxa se esbagaçou e o catupiry espirrou no colo do Marcos Palmeira. Uma doida da fileira ao lado gritou “terroristas brasileiros, acudam, acudam”, a atriz levantou, não perdeu a elegância e limpou a gordura da cabeça. Já o Palmeira ficou chateado, “isso é um absurdo, que falta de educação”. Com vergonha comecei a escorregar da cadeira, já estava quase no chão, quando acenderam as luzes. O público não parava de protestar. O cenário do crime gastronômico foi interrompido pela apresentadora do evento.

“Tivemos um problema técnico e pedimos, gentilmente, aos senhores que se acalmem que o filme será exibido normalmente, assim que os atores estejam recompostos”. Do fundo do cinema gritou um revolucionário. “Isso é para aprender a deixar o povo comer… O Brasil precisa vencer a fome, e quer saber, também estou com coxinha escondida e vou mandar brasa”. De repente o homem jogou a coxinha na plateia, outro revidou arremessando biscoitos, com pouco tempo salgadinhos, bolachas, chicletes e ainda mais coxinhas eram traduzidos como artefatos de guerra. Foi um desastre. Até que Marieta subiu ao palco, pegou o microfone e adiantou. “Gente – tom áspero -, sabe o que vocês são?”, o povo já preparava uma vaia quando ela concluiu “Felizes demais da conta. Viva a liberdade alimentícia, viva o cinema, viva os enlatados, viva a gordura, a coxinha e tudo que engorda. Viva o Recife, essa panelada de Cultura”. O público foi ao delírio. A atriz fora ovacionada. O filme, ninguém nem lembrara mais, depois o povo assistiria em outra sessão.

Voltamos para casa satisfeitíssimos, apenas um pouco tristes porque não chegamos a comer a coxinha, mas enfim, tudo tem um preço. Resta esperar para saber se hoje poderemos entrar com alimento!
CORTA. Fim da cena.

OBS. A obra é pura ficção.
Adriano Portela – jornalista

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One comment on “Guerra de coxinhas e Marieta Severo no Cine-PE

  1. Anne Barretto disse:

    Rindo muito! kkkkkkkkkkkk

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