Frida Kahlo e os três grandes

12467801_888058051292295_1055199236_nPor: Clodoaldo Turcato

Falar de cores e dor, sofreguidão, angústia, revolta e engajamento político em arte é falar da arte mexicana. Frida Kahlo, José Orozco, David Siqueiros e Diego Rivera refletem o que de melhor se produziu no México em arte plástica. A mulher, diva de várias gerações pela sua liberdade pessoal, atrevimento e volúpia, contracenam com Os três grandes muralistas Orozco, Siqueiros e Rivera. Cada qual com seu estilo, no entanto carregando as raízes de seus país em suas obras como poucos artistas.

Embora a política e a questão da identidade nacional tivessem lugar em sua obra, Frida adotou como tema, na maioria das vezes, sua realidade pessoal. Gravemente ferida num acidente de carro quando criança, Frida aprendeu a pintar sozinha por conta própria enquanto se recuperava. Na obra Autorretrato com vestido de veludo, um óleo sobre tela medindo 31×23 cm, foi o primeiro dentre muitos retratos que pintou durante sua vida. Em todos os seus trabalhos nunca esqueceu sua origem, seu povo e as manifestações de sua população. O estilo cuidadoso de Frida, suas estranhas justaposições e sua capacidade de tornar comum o extraordinário levaram muitos críticos a classifica-la como surrealista, qualificativo que ela rejeitava. Frida é inclassificável.

O muralismo já se estabelecera no México como forma de arte muito antes da revolução de 1910. Pinturas em parede fizeram parte da cultura maia decoraram igrejas barrocas espanholas e foram usadas como arte folclórica nas pousadas e hospedagens mexicanas. O termo “muralismo mexicano” se refere ao renascimento da pintura em larga escala suscitado pela Revolução de 1910 e fomentada pela ascensão do governo revolucionário de Álvaro Obregón. O auge se deu entre 1920 e 1930 quando foi encomendada um grande quantidade de murais de inspiração política para lugares públicos. Este período se tornou conhecido como a Renascença Mural mexicana.

Os artistas mais comumente associados à arte muralista mexicana são José Orozco, David Siqueiros e Diego Rivera, coletivamente conhecidos como Os Três Grandes. Diretamente envolvidos neste que foi o mais extenso programa estatal de pintura mural desde a renascença italiana, eles refletira em suas obras seus compromisso com a politica de esquerda oficial, fortalecendo a arte mural abordando o cotidiano dos oprimidos e reforçando a importância para o novo México dos povos indígenas colonizados.

Orozco teve experiência direta com as guerras revolucionárias que sacudiram o México entre 1910 e 1920. Boa parte de sua arte , focada no sofrimento de seu povo, tem um tom melancólico. Seu mais ambicioso mural, O épico da civilização mexicana, tem 24 painéis concebidos como uma representação de um continente caracterizado por uma dualidade de experiências históricas – indígena europeia., sendo cada painel com medidas de 300×400 cm, mostra o vigor de sua arte e o medo da intolerância política, realçando o revolucionário Emiliano Zapata e seus feitos.

Estabelecido na Europa entre 1907 a 1921, Rivera passou uma temporada em Paris onde desenvolveu uma ousada e vivida forma de cubismo sintético. Em meados da década de 20, Rivera era conhecido como o principal muralista mexicano, apresentando a vida e as lutas do povo mexicano. Suas extrema perícia e domínio de técnicas clássicas e modernas, tornam seus murais variados e ambiciosos, diferenciando-se dos criados pelos Três Grandes. Em A vendedora de flores, um óleo sobre masonite medindo 122 x 122 cm, os copos-de-leite se irradiam da cesta  em vivido esplendor, acentuado pelo fundo escuro. Longe de ser oprimida pelo peso das flores, a vendedora rende tributo ao povo indígena do México, acentuado em comicidade pelo aparecimento das mãos, dos pés e da calva do marido da vendedora.

A maior parte do muralismo mexicano é realista para assegurar que as pinturas sejam acessíveis ao público mais amplo possível. Em 1921  Siqueiros lançou a revista  Vida americana, cuja única edição tornou-se um marco por reivindicar um novo tipo arte mexicana monumental que não fosse nem pitoresca nem demasiada nostálgica. No ano seguinte, o ferrenho marxista Siqueiros formalizou a “Declaração de Princípios Sociais, Políticos e Estéticos”, em que proclamava “Nosso objetivo estético fundamental deve ser socializar a expressão artística e acaba com o individualismo burguês”. Os murais de Siqueiros se distinguem pelo grande dinamismo, cores fortemente contratantes e expressivochiaroscuro. Sua técnica característica é a piroxilina aplicada com pistola. Em Trabalhador ferido, mural grandioso, ele aplica sua técnica com maestria, elevando a noção de volume e cores, característica de Michelangelo e Boccioni, que fomentou seu entusiasmo pela era da máquina.

Os Três Grandes criaram uma arte original que fosse ao mesmo tempo mexicana e universal, combinando influências clássicas e modernistas com o legado pré-colombiano e indígena do país.

De todas as obras da arte mexicana, a que mais me impressionou foi um pequeno desenho, na verdade uma água forte sobre zinco de 11×15,5 cm produzida por José Guadalupe Posada, chamada A caveira da Catrina. A obra é singular, uma socialite esquelética com um ostentoso chapéu, uma imagem bizarra que aparece com frequência nas comemorações de finados – Linda!

A arte mexicana tem o pulso de seu povo, as cores do folclore, a dimensão de uma cultura milenar – tem vida.

Semana que vem vamos falar de Vincent Van Gogh e o Neo-Expressionimo.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem

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