Espaços limítrofes do silêncio

12179634_853742658057335_1012765367_n“…o poeta para existir de verdade, deve exilar-se com a linguagem, para a beira do silêncio, posto avançado de uma autenticidade possível”

[Modesto Carone]

Por Danuza Lima

Há espaços prenhes de significação no silêncio. Uma lâmina aponta numa extremidade deste espaço e na outra ponta,  o olhar firme de um criador de enigmas, o poeta. Não há lugar melhor para recifrar a própria palavra-veneno,  a linguagem e o mundo do que nos espaços limítrofes do silêncio. É ele o fio de Ariadne a percorrer as sendas oníricas do poema, é o silêncio do verbo escasso e duro que prolifera sentidos.

A releitura de uma carta-resposta enviada a um amigo poeta sobre nossa relação com o silêncio e a composição lírica veio em momento providencial, tenho em mãos, “Sob silêncio” do paraense Vasco Cavalcante.  Lançado pela Patuá editora em março deste ano, o livro não se trata de uma mera coletânea arquetipicamente organizada sob o signo do silêncio, trata-se, sobretudo de um convite ao reduto íntimo da palavra e do seu sedutor trabalho de feitiços e amavios. 

Uma poesia de exacerbado silêncio íntimo de si mesmo, como hipótese e poderoso instrumento para recifrar o mundo.

Uma conjectura para trazer a primeira impressão do livro de Vasco. Este que parece entregar parte de si em cada verso, esgueirando-se nos espaços significantes tanto da palavra quanto do silêncio, nutrido por uma subjetividade absurda, Vasco bebe esta sensibilidade aguçada que se revela em seus versos de uma tradução romântica com a palavra, palavra na obra do paraense está próxima, muito próxima ao seu uso mágico, romântico porque alimenta-se de uma pureza composicional, que se nutre da escolha no campo semântico da palavra para nos terrenos pragmáticos, instaurar a verdade deste poesia e o retrato deste eu-lírico:

no mais,

ardo em brisas

estanco estrelas

perco trilhas

               aldeias, minhas ilhas

enquanto,

um sopro rege a mansidão

   luas, o verbo ancora

  

                                             e cala o rio

                                             

                                            a verve

                 

                                            serpenteia o peixe

                     

                                 o aço, a rede

 

no mais,

 

               adormeço

 

                                               o mundo vira

 

(CAVALCANTE, 2015. p. 23)

 

Como se nu neste silêncio significante, os poemas revelam-se neste absurdo íntimo que os ronda, proliferam-se significativas imagens e personificações do silêncio na obra. Uma delas, das mais belas, “o rio do silêncio”, este rio, tão presente quanto as águas que movem os sonhos e os desejos é a metáfora do fluir da vida. Assim como deste silêncio que se verte em um “eu-espaço”:

 

Quando olho um rio,

rio inteiro olha

 

híbrido,

transcendo-me

(CAVALCANTE, 2015, p. 43)

 

Se o silêncio ocupa este lugar primordial na poesia fluídica e íntima de Vasco é tão somente como válvula básica para interpretação desta poesia ligada às ações do sentir. A presença constante de imagens regidas pelo regime diurno da imagem – ao gosto de Gilbert Durand – confere uma unidade imagética ao livro consonante à atmosfera de uma descida – o que é paradoxal – ao núcleo íntimo deste eu, arrefecido pelo conhecimento e descoberta do mundo. Cada verso emoldura a certeza de que a cada descida ao núcleo do poema, adentramos o núcleo de nós mesmos, diante das faces do tempo, promovendo nesta ação, uma proliferação de signos  e talismãs, como se Cronos a nós traçasse a caminhada rumo a este mergulho. As águas, simbolicamnte separatistas e se doces, unificadoras e transcendentes firmam-se neste jogo íntimo proposto pelo silêncio significante de Vasco Cavalcante, que soube exilar-se na linguagem para existir em silêncio.

Danuza Lima é escritora, professora e mestranda em Teoria da Literatura (UFPE).

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CAVALCANTE, Vasco. Sob o silêncio. São Paulo: Editora Patuá, 2015

Crédito da foto: Francesca Woodman, Itália, 1978. 

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