Category: Espaço Parlatório

Dia Nacional do Livro com a campanha Leia.Seja.

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Hoje é o Dia Nacional do Livro! E tem uma campanha bem incrível rolando que é o #leiaseja.

Para quem não sabe, a Leia.Seja. é uma campanha realizada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros para difundir a mensagem do valor do livro e seu papel transformador na sociedade através de um time de personalidades fantasiadas de personagens clássicos da literatura brasileira e mundial.

Vamos participar? Convidamos vocês a postarem em seus perfis com a #leiaseja, uma foto sua com o seu livro favorito. Difícil escolher apenas um? Então posta uma foto sua com seus vários livros favoritos. Participem! Contamos com vocês!

Lorena Moura- Jornalista

lorenamoura87@gmail.com

Se a vida começa a partir dos quarenta, a arte muito mais

Por Clodoaldo Turcato

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Qualquer artista vive na dúvida e no limite do desconhecido. Um iniciante sente dúvidas sobre si mesmo. É um motorista no meio de um caminho desconhecido dando apalpadelas para rumar corretamente. Quando se posiciona, precisa decidir entre um trabalho “normal” ou ser artista, afinal, o estômago não costuma esperar muito.

Na juventude temos o tempo e oportunidade de quebrar regras, arriscar e plantar nossa identidade pessoal e artística. Ser artista depois dos quarenta anos é sinal claro de insanidade mental, embora não seja tão incomum assim. Não trato aqui de quem trabalha a vida toda para reconhecimento póstumo ou tardio.  A obra que é encontrada e elevada. Tantos foram assim. Trato de quem resolve se entregar para arte depois de adulto, o homem ou mulher que larga sua vida cotidiana para dedicar-se a arte. Além da dificuldade natural dada a falta de técnica, o pintor vai sofrer a consequência do tempo, da estrada que não percorreu e da falta de experiência. Terá que aprender, trabalhar mais, experimentar mais e errar mais. Errar na fase adulta não é como errar quando se é jovem: Sabemos que estamos errando. Não é um ato inconsequente. É uma demonstração de nossa dificuldade.

Coragem!

Pessoas conhecidas dirão que escrevo de mim. Não exatamente. Escrevo de um outro grande artista que tem uma história bem mais original.

Um pintor extremamente incomum, Henri Rousseau , nasceu em Laval, 21 de maio de 1844 e faleceu em  Paris, em 2 de setembro de 1910. É uma figura única na história da arte europeia. Suas pinturas, como sua carreira artística, são altamente individuais. Nascido em uma família modesta, Rousseau era um artista autodidata, descrito como um “pintor amador” por seus primeiros biógrafos. Ele trabalhou por muitos anos no pedágio da cidade de Paris e foi, portanto, imprecisamente apelidado Le Douanier. Começou a pintar com cerca de quarenta anos de idade. Ele dizia que seu único professor era a natureza, embora tenha admitido que houvesse recebido “alguns conselhos” de dois pintores acadêmicos estabelecidos, Félix Auguste Clément e Jean-Léon Gérôme. Essencialmente, ele era autodidata e é considerado um pintor naif ou primitivo.

Em 1884, ele obteve uma licença de copista do Louvre. Ele também visitou o Musée du Luxembourg e Versailles. No entanto, Rousseau não seguia regras, além de suas próprias, transformando a pintura refinada de artistas acadêmicos em uma linguagem única, impregnada de elementos oníricos. Suas pinturas mais conhecidas retratam cenas da selva, embora ele nunca tenha saído da França ou visto uma selva. Sua inspiração vinha de ilustrações em livros infantis e dos jardins botânicos em Paris, bem como de quadros de taxidermia de animais selvagens. Além de suas cenas exóticas houve também imagens menores topográficas da cidade e seus subúrbios. Ele dizia ter inventado um novo gênero de retrato de paisagem, iniciando uma pintura com uma visão específica, como uma parte favorita da cidade, e depois retratando uma pessoa em primeiro plano.

 O Estilo simples, aparentemente infantil de Rousseau foi desacreditado por muitos críticos. As pessoas ficavam chocadas com o seu trabalho ou o ridicularizavam. Sua ingenuidade era extrema, mas seu trabalho mostra sofisticação com a sua técnica particular. A partir de 1886, ele exibiu regularmente no Salon des Indépendants, e, embora seu trabalho não fosse colocado de forma destacada, ele foi sendo valorizado ao longo dos anos. A pintura “Tigre em uma Tempestade Tropical (Surpreendido!) ”, foi exibido em 1891, e Rousseau recebeu sua primeira avaliação séria.

Quando Pablo Picasso viu uma pintura de Rousseau sendo vendida na rua como uma tela de segunda mão para ser pintada, o artista mais jovem instantaneamente reconheceu o gênio de Rousseau e foi ao seu encontro. Em 1908, Picasso realizou um banquete meio sério, meio burlesco em seu estúdio em Le Bateau-Lavoir em honra de Rousseau. Os convidados do banquete Rousseau incluíam: Guillaume Apollinaire, Jean Metzinger, Juan Gris, Max Jacob, Leo Stein, e Gertrude Stein, entre outros. Picasso, Delaunay, Léger e artistas italianos e alemães avant-garde, inclusive Kandinsky, não só admiravam a obra de Rousseau, que inspirou os seus próprios trabalhos, mas também a colecionavam. 

Considerado o pai da arte naïf, Rousseau goza desse prestígio não apenas por ser autodidata, não seguir as normas acadêmicas e se utilizar da desproporção e de cores vivas muitas vezes irreais; mas também pela forma ingênua com que encarou a própria vida.

Mesmo tendo tido um bom reconhecimento artístico entre vários pintores e admiradores, os que criticavam a obra de Henri Rousseau estavam em maior quantidade, fazendo assim com que suas pinturas nunca fossem expostas no salão oficial de Paris.

Henri Rousseau teve suas obras expostas em alguns salões de pintores amadores e obras rejeitadas, e foi dessa forma que alcançou a sua fama na sua carreira artística. Este genial autodidata, foi o único pintor de estilo naïf que conseguiu exercer influência sobre estilos posteriores, como o surrealismo e o simbolismo.

Rousseau morreu em 2 de setembro de 1910, sendo enterrado numa vala comum do cemitério de Bagneaux, em Paris. Somente um mês depois, os obituários dos jornais noticiaram a morte, comparando sua obra com a de Uccello, um dos mestres da Renascença. Em 1947, seus restos mortais foram removidos para Laval.

O que mais me chamou atenção logo que conheci a obra de Rousseau foi sua despreocupação. Talvez ele não tivesse interesse em ser reconhecido e sua pintura não passasse de terapia para esperar a morte. Ignorou as convenções, tomou os materiais de pinturas e começou a criar, sem nenhum objetivo claro. Certamente não estaria imaginando a proporção que seu trabalho tomaria, sem medo, ingênuo como uma criança que brinca à beira do precipício.

Li muitas críticas a respeito do trabalho de Rousseau. A estória repetida inúmeras vezes com Picasso é uma meia verdade. Não acredito piamente que Picasso, Matisse e Kandinsky fossem levar a sério um pintor sem talento. E olhando as obras dele, percebe-se que talento é o que não faltava a Rousseau.  Basta olhar obras como Os macacos, um óleo sobre tela medindo 145,5 X 113 cm que se encontra no Philadelphia Museum or Art. Nele, três macacos espiam por de trás de uma densa folhagem na selva, enquanto um pássaro incomum se empoleira num ramo delicado, carregado de folhas pesadas. A criatividade sem entraves desta cena é típica da visão de mundo de Rousseau. As cores intensas, as formas nitidamente pintadas, e a meticulosa atenção aos detalhes , demonstram seu estilo ingênuo, porém magnífico. Estas qualificações, para mim, é mais uma busca em colocar o pintor dentro de um estilo ou escola – classificar – do que uma verdade. Quem falha são os experts. Rousseau só queria pintar, paciência.

Ontem estive com uma pintora pernambucana e quando vi seu estilo disse “ Você é clássica.” Ela me respondeu quase em surdina que sim, como se ser clássica fosse algo horroroso. Refleti sobre isso depois e conclui que os artistas estão se preocupando demais em se classificar e de menos em ousar. A crítica é importante, porém não pode engessar. Releiam quando escrevi que começar a pintar com quarenta era uma insanidade? Ironia, meu caro. A vida artística pode começar a qualquer hora, apenas as condições às vezes não proporcionam um começo imediato. Chutemos o baldo da hipocrisia e sigamos. A vida e a arte começam quando quisermos, muito melhor depois dos quarenta.

A última ceia é uma quadro espetacular e fim

Por Cldoaldo Turcato

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Durante o domínio de Napoleão em Milão, no século XIX, o refeitório foi usado como estábulo e como se não bastasse, em agosto de 1943, durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial, o complexo de Santa Maria Delle Grazie foi quase que completamente destruído. As paredes laterais e o telhado do refeitório não resistiram; a Santa Ceia, protegida por poucos sacos de areia, ficou em pé. Coberta posteriormente por um telão, ainda passará alguns anos a céu aberto, exposta ao sol, chuva e poluição, antes que a cidade e seus monumentos sejam reconstruídos.
Depois de toda essa história, se pode dizer que visitar essa maravilha do Renascimento Italiano é uma das melhores coisas que você pode fazer em Milão e requer uma boa dose de organização na reserva dos bilhetes com pelo menos três meses de antecedência.
A obra não foi a única que Leonardo deixou na cidade. Durante a sua estadia em Milão, que durou cerca de 20 anos, o gênio projetou as comportas e eclusas para o sistema de canais de Milão (realizadas posteriormente a partir de seus desenhos), afrescou uma sala no Castelo Sforzesco, ainda existente (Sala delle Assis), pintou o quadro Retrato de Músico, exposto na Pinacoteca Ambrosiana e escreveu muitos dos famosos Códigos Vincianos. Milão hospeda hoje dois deles: o Código Trivulziano, hospedado no Castelo Sforzesco e o Código Atlântico, exposto por partes na Biblioteca Ambrosiana.
Um livro lançado recentemente no Brasil, best-seller em 43 países, levanta novas controvérsias em relação às supostas intenções de Da Vinci. Para o jornalista e pesquisador espanhol Javier Sierra, autor de “A ceia secreta”, o quadro é uma agressão explícita à Igreja Católica, comandada à época pelo Papa Alexandre VI.
O artista faz eco à visão do Duque de Milão, Ludovico Sforza, que encomendou a obra para ser a peça central do mausoléu de sua família. Sforza estava prestes a entrar em guerra com o Papa, que pretendia expandir seus domínios até a cidade. Para o nobre, a obra-prima de Da Vinci deveria atacar o líder da Igreja, que subornou os cardeais para conquistar o Pontificado. Tradicionalmente, a ceia é retratada como um momento em que Jesus consagra a Eucaristia. Da Vinci, no entanto, esquivou-se de qualquer visão doutrinal. O cálice do Santo Graal, um símbolo da aliança entre Deus e os homens, não está sobre a mesa. Não existem auréolas, que representavam os apóstolos como santos.
A inspiração do artista foi um versículo do livro de João, na Bíblia Sagrada, quando Cristo anuncia: “um de vós me trairá”. Judas seria a resposta óbvia. Mas não para Da Vinci. No contexto religioso, Judas é realmente o traidor. No entanto, como esta é uma obra política, a resposta é diferente. A única arma que aparece na cena, uma adaga, está na mão de Pedro. Ele, como fundador da Igreja, na época, simboliza o Papa. Então, para Da Vinci, o Pontífice é o verdadeiro traidor de Cristo.
O afresco de Da Vinci foi o primeiro a dispor todos os personagens lado a lado. Até então, configurações diferentes da mesa deixavam alguns discípulos de costas para o espectador. A visão de todos os personagens contribuiu para que o artista imprimisse suas convicções particulares, além dos simbolismos que agradavam Sforza. Algumas destas explicações estariam entre as mais de oito mil páginas de relatos escritos pelo artista e ainda preservados.
Ao contrário dos outros discípulos, três apóstolos à esquerda de Jesus estão de costas para Ele, como se estivessem confabulando. O trio é, originalmente, formado por Mateus, Judas Tadeu e Simão. Da Vinci, no entanto, muda os personagens. Ele põe seu próprio rosto no lugar de Judas Tadeu, o segundo a partir do fim da mesa. Da Vinci aparece quase identicamente em seu autorretrato, pintado cerca de três anos depois.
A razão para Da Vinci dar seu rosto a São Judas Tadeu é um mistério não explicado em seus esboços e notas . Uma hipótese é de que Judas Tadeu sempre foi o santo das causas perdidas ou difíceis, aquele a quem recorremos quanto tudo já falhou. Da Vinci tinha esta sensação sobre o seu trabalho. Todos o procuravam para resolver problemas. Sua fama de inventor capaz de resolver qualquer questão o acompanhou até a morte. Então, quem sabe?
À direita de Da Vinci, em vez de Mateus, estaria Marsílio Ficino, amigo íntimo do artista e tradutor dos textos do filósofo grego Platão para o latim. O artista e Ficino olham atentamente para o homem na extremidade da mesa, que parece conversar com a dupla. Na interpretação bíblica, seria o apóstolo Simão. Da Vinci, no entanto, retratou-o como Platão. O rosto do filósofo, no afresco, é semelhante ao visto em seu busto, exibido em Florença.
Antes dele, em 2003, Dan Brown irritou a Igreja com o livro “O Código da Vinci”, em que conta que, ao lado direito de Jesus, está Maria Madalena. Segundo o escritor, eles teriam se casado e tido filhos. O Vaticano chegou a encarregar um arcebispo italiano para desmascarar as teorias levantadas pelo best-seller, que a Igreja definiu como “um saco cheio de mentiras” e pediu para que os cristãos não o comprassem ou lessem. Sierra também acredita que a figura à direita de Jesus é feminina. Trata-se, porém, de João, o apóstolo puro. Ele teria sido retratado desta forma porque, segundo os renascentistas, a pureza está ligada à forma de uma mulher.

É muito pouco provável que Da Vinci se curve ao Duque de Milão para fazer alusões críticas ao Papa. Parece um pouco inverossímil, vendo o conjunto da obra. Naquele momento, ele estava desinteressado por pintura, chegou a dizer que tinha nojo de pincéis. Se a intenção de Sforza fosse difundir críticas no afresco, ele seria exposto em um local mais acessível ao público e não no refeitório da Igreja Santa Maria delle Grazie.
Discussões à parte, o que se sabe é que tudo que temos até então são teorias, e são tanta que alguns até duvidam da existência de Da Vinci. De qualquer maneira, A última ceia é uma obra monumental e sobreviveu ao tempo e espaço para nos encantar.

O que é arte? Essa pergunta precisa realmente ser respondida?

Por Cldoaldo Turcato

22359497_1428919090539519_1564207174_nA nobre arte da escultura tem representatividade em todos os tempos. Não se pode esquecer que cada artista expressa, geralmente, o presente ou o passado. O futuro não aconteceu e assim, salvo os futuristas de plantão ou economistas medianos, o artista vai trabalhar naquilo que viu e vê.

Parece-nos lógico. A escultura é um processo tão trabalhoso quanto qualquer atividade artística. Exige acima de tudo empenho, esforço, persistência e treino. E o talento? Talento sem esforço leva a lugar nenhum. Não acredite no folclore de que a arte surge do nada, de coisa nenhuma. Todos os artistas praticam e muito. No final da vida, qualquer artista terá milhares de desenhos, esboços, estudos e tentativas para ser reconhecido por uma dezena de trabalhos. O jogador de futebol joga vinte anos, porém quantos grandes títulos ele conseguirá durante a carreira? Depende de talento, empenho, sorte e dedicação – treino.

Ao cruzar dados para compor este texto, me deparei com o escultor Emile-Antoine Bourdelle, um trabalhador insano que durante sua longa vida, nos presenteou com grandes obras, monumentos e evocação ao estilo próprio, elevando a escultura ao patamar de obra prima.

Emile-Antoine Bourdelle nasceu em Montauban em 30 de outubro de 1861. Ele era o único filho de Emilie Reille, filha de um tecelão, e Antoine Bourdelle, carpinteiro e armário que esculpiam os móveis que ele projetou. Na escola, a criança mostrou um tal presente para o desenho de que seu professor, o Sr. Rousset, permitiu-lhe expressar-se livremente, “sentado em uma espécie de salão, longe do resto da aula”. Aos 13 anos, Bourdelle juntou-se ao estúdio de seu pai como aprendiz. À noite, ele tomou aulas de desenho em Montauban, onde aprendeu técnicas de modelagem com base no estudo de cópias de moldes de gesso antigos. A habilidade do jovem construtor de gabinete logo lhe valeu o reconhecimento dos amantes da arte em Montauban. Em 1876, recebeu bolsa de estudos e passou no exame de admissão para a Escola de Belas Artes de Toulouse.Bourdelle experimentou oito anos de solidão e trabalho febril durante seus estudos em Toulouse, temperada pela disciplina da instituição acadêmica.Em 1885, ele se mudou para o estúdio em 16, impasse du Maine – que agora é o museu. Nesse mesmo ano, seu elenco paster da La Première victoire d’Hannibal  ganhou uma medalha no Salão de Artistas Franceses. Isso trouxe reconhecimento, mas Bourdelle ainda teve que ganhar a vida. Em 1893, Rodin contratou-o como um assistente do escultor. Os dois homens se respeitaram e a colaboração provou ser decisiva.  

Este período foi fundamental para sua ascensão. Trabalhar, aprender, ousar e manter disciplina e até mesmo se dignar a servir, calcificaram Bourdelle, dando-lhe lastro para ter sua personalidade, desassociada da produção de Rodin. Em 1909, Bourdelle começou a ensinar na Academia Grande Chaumière, onde seus alunos incluíram Alberto Giacometti, Germaine Richier, Vieira da Silva e Otto Gutfreund. Exposto em 1910 no Salão da Sociedade Nacional de Belas Artes, O arqueiro Héraklès de Bourdelle foi aclamado pelo público e pelos críticos. Muitos museus pediram para exibir a obra-prima e foi reproduzido em todos os lugares, mesmo em livros escolares infantis. Gabriel Thomas deu a Bourdelle outra comissão, desta vez para o Théâtre des Champs-Elysées , por turnos arquitetos, escultor e pintor, Bourdelle mais uma vez provou sua capacidade de “conceber tudo como um monumento”. A década de 1919-1929 provou uma época de grandes comissões oficiais:La Vierge à l’offrande  erguido em Alsácia e La France em frente ao Grand Palais para a Exposição de Artes Decorativas. O Monumento ao Geral Alvéar foi inaugurado em Buenos Aires em 1926, e o Monumento a Adam Mickiewic em Paris, em 28 de abril de 1929.

Mas escultura não é tudo igual? Como saber se a diferença de um para outro? A resposta virá com estudo, muito estudo. Não se aprende olhando nos museus apenas. Diferenciar Rodin de Michelangelo depende de muita percepção e compreensão de uma obra de arte. O Pensador ou Davi, bem como Hércules são monumentos da arte. Cada qual tem características próprias, uma pegada, um gesto, um movimento que diferencia. Ao olhar a obra de Bourdelle nota-se o esforço, a gana, o empenho para chegar a perfeição absoluta. O talhar de Bourdelle nos angústia, enche nossos olhos de cacos e cada movimento harmoniza com traços sujos, incompletos às vezes e factuais.  O escultor nos revela o feio, o comum, o mundano sem querer a grandeza dos céus de Davi. Não reflexiona sobre a vida como Rodin, apenas atira as pedras a nossa frente e nos revela que arte é feita para refletir, além de embelezar.

Em grosso modo, se formos analisar uma obra de Michelangelo, por exemplo, encontraremos a superfície primorosamente lisa, enquanto as produções de Bourdelle são marcadas. Isso é raso demais, apenas escrevo para fazer o leigo perceber que há diferenças. Nada disso teria valor pictórico se essas diferenças fossem apenas de suporte e técnica. E não se deve apenas quantificar ou qualificar por diferenças, mas por força de expressão, conjunto de causa e efeito e o que para mim é fundamental: a arte precisa incomodar você.

Mas como devo me incomodar? Bom, não tem fórmula. Arte mexe com cada um de uma maneira. O que vejo muito é fingimentos diante de obras que não se compreende, principalmente arte moderna. Uma escultura como Monument aux morts de Capoulet-Lunac certamente causará impressão no expectador. Ninguém fica ileso. Além da dificuldade técnica da peça, que mede 220×320 cm, as curvas do entalhe e a agonia dos corpos nos obrigam a respirar fundo, olhar várias vezes e de novo, de novo… Parece fácil, no entanto somente um trabalhado com afinco faria isso. Quando comemos uma saborosa maçã, poucas vezes perguntamos como ela chegou até nossa mesa. Existe o plantio, a colheita, a embalagem, o transporte, etc. Tudo com esmero e cuidado para que chegue diferenciada. Vamos perceber isso. O mesmo se diga de uma escultura. Eu me pergunto sempre como fora a concepção das obras-primas. Como uma fruta me surpreende, uma obra muito mais. E cá pra nós, é preciso ter muita dedicação para aprender a plantar maças. O mesmo se diga para uma obra de arte, como uma escultura.

Em resumo, vamos ter a eterna discussão sobre o que é arte. Já escrevi aqui a diferença  entre expressão artística e arte. Porém a pergunta segue: o que é arte? Quando reflito sobre isso caiu numa devassidão tremenda de argumentos  e questiono se isso tem resposta ou se existe necessidade de se responder isso. Temo que não! Porém de uma coisa fique certo, caro leitor, arte de primeira não é algo atirado ao vento. Arte exige muito trabalho mesmo.

Um Recife de Amores e Sombras na Bienal de Pernambuco

Por Ernandes Tavares

CAPA FOTO

Escritores e amantes da literatura (e do Recife) resolveram juntar forças e expressar no papel todas as suas angústias e paixões por essa cidade, que é tão personagem dela própria: o livro de contos “Recife de Amores e Sombras”, que será lançado no próximo dia 11 de outubro, às 14 horas, na Bienal de Pernambuco, reúne contos de Adriano Portela, Alexandre Furtado, Dielson Vilela, Geórgia Alves, Pedro Irineu Neto e Sidney Nicéas.

Segundo o escritor pernambucano radicado em São Paulo Marcelino Freire, Recife de Amores e Sombras é um livro com seis contos afiados, prontos para o ataque. “É um livro agitado. Em cada ponto, parágrafo. Grito e respiração. Todo escritor é um mau-elemento. A palavra vira arma. Temos um livro quente nas mãos”, revela no prefácio que escreveu para a obra.

 Os contos dão luz a personagens marginalizados de uma cidade marginal. A violência, o preconceito e os assombros do Recife se mesclam com o olhar minucioso para o estado atual da cidade e da sua gente. Estilos diferentes tornam o livro ainda mais interessante, revelando um extrato do que anda sendo feito na Literatura da terra das pontes.

 A publicação é uma edição independente, a primeira do Coletivo de Autores Pernambucanos Atuantes – CAPA, formado pelos seis escritores citados e ainda por Mirela Paes e Caio Viana. “Adriano Portela fez um grupo seleto no whatsapp, com apenas sete autores. Com a ideia de escrevermos o livro, convidamos Geórgia Alves para o time, já que Mirela e Caio não puderam participar dessa obra. Daí decidimos criar o coletivo, que nada mais é do que uma entidade assombrada para escritores cansados da solidão literária nas bandas de cá. O CAPA, assim, é por si só um espaço para projetos coletivos mais ousados. Sentimos que era preciso fazer mais. E isso é só o começo”, explica Sidney Nicéas.

 Os autores estarão na próxima quarta na Bienal com o painel Recife de Amores e Sombras, onde conversarão mais sobre o livro, o processo de escrita, o coletivo e o Recife. “Queremos ampliar esse olhar crítico e de amor ao nosso Recife juntamente com o público. Está todo mundo convidado!”, emenda Nicéas.

Minibiografias dos autores:

 Adriano Portela é jornalista, autor do romance “A Última Volta do Ponteiro”, prêmio internacional José de Alencar, pela UBE/RJ. Coautor da coletânea de contos “Enquanto a Noite Durar”, pela Aped. Mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Leciona cinema e publicidade em universidades particulares e em projetos sociais do Recife. Editor do Portal de Cultura parlatorio.com, diretor de cinema da Portela Produções, roteirista e diretor de oito curtas, vários deles premiados em festivais de cinema. Atualmente dirige seu primeiro longa “Recife Assombrado”.

Alexandre Furtado, nascido no Recife, é professor de literatura na UPE, membro do GPL e do IAHGP, crítico e escritor. Publicou o livro de poesia De ruas e itinerários (2010) e o de contos Os mortos não comem açúcar (2015). 

 Dielson Vilela tem 29 anos e é natural do Recife. É formado em letras – português/inglês. Autor do livro “O meu melhor amigo é gay”, que vem tocando muitos leitores em todo o Brasil com a sua literatura LGBT. Leitor voraz, ele é apaixonado pelos mais diversos gêneros da literatura brasileira e internacional. Ávido pela escrita, iniciou seu trabalho como autor na web, publicando trechos do seu livro em uma plataforma digital de autopublicação.

 Geórgia Alves é escritora, jornalista com especialização em Literatura. Participa das coletâneas: I Volume da Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea: “Além da Terra Além do Céu”, pela Chiado Editora, (2015) e “Cronistas de Pernambuco”, pela Carpe Diem Editorações, (2010). Autora da novela “Reflexo dos Górgias”, da Editora Paes (2012) e “Filosofia da Sede”, também pela Chiado (2014). Fez duas adaptações, de curta duração, de obras literárias para o audiovisual: “O Triunfo” – inspirado no primeiro conto de Clarice Lispector, publicado no semanário carioca Pan, em 25 de maio de 1940 – e “Grace” – baseado em um dos vinte e seis poemas de Cida Pedrosa, no livro “As filhas de Lilith”. Dois filhos: Lorena e Enrico. Muitas árvores e pesquisas no cinema e literatura. Estuda Teoria da Literatura do Programa de Pós-Graduação de Letras da Universidade Federal de Pernambuco.

 Pedro Irineu Neto nasceu em Recife, em 21 de Setembro de 1988. É advogado, formado em Direito pela UFPE em 2012. Estreou na cena literária com o romance Pelas Mãos das Suas Amadas, pelo qual concorreu ao Prêmio Machado de Assis de Literatura, no ano de 2013, além de obter boa crítica por parte do público pernambucano. Das Überheil é o seu terceiro livro publicado, e o primeiro pela Editora Arwen.

 Sidney Nicéas é escritor. Tem formação acadêmica na área de Comunicação (RRPP) e é especialista em Gestão de Pessoas. Romancista, possui cinco obras publicadas: “O Que Importa é o Caminho” (2004); “O Rei, a Sombra e a Máscara” (2010); “A Grande Ilusão” (Giostri, 2012); “Vic e o Homem Feito de Nuvens” (Giostri, 2013); e “Noite em Clara – um Romance (e uma Mulher) em Fragmentos” (Scortecci, 2016). Realiza palestras em empresas e eventos literários e ministra oficinas e workshops de Criatividade e Escrita. É sócio da SoulCriativO – Inteligência Criativa; Diretor Geral da Ideação, co-realizadora da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco; mentor do Porto Social; e integra projetos sociais relevantes em Pernambuco, como o Pré-Eném Solidário e o Sertânia Sem Fome. Nicéas ainda assina a coluna literária do site Na Geral e comanda a coluna “A Literatura é Massa!” no programa UPE Negócios, da Rádio Web da Universidade de Pernambuco. Apresenta também o seu programa “Tesão Literário”, na TV Pimenta (webtv).

 

Sou artista, logo escandalizo

22193009_1422671614497600_1556969610_n (1)Qualquer sujeito que for visitar museus, em qualquer parte do mundo vai se defrontar com o que se chama barbárie artística. Nem sempre é − quase sempre existe exagero −, e vale muito da nossa percepção e gosto pessoal.

O escândalo em si permeia a arte. Ao se por para dançar, por exemplo, um sujeito comum escandaliza. Rodar pelo salão ou se balançar feito macacos pode ser motivo de chacota. A dança, a priori, é destinada para seres belos, em espaços especializados, rodando com elegância como sobre patins numa pista de gelo. Esta é a ideia geral. O que aparece em nosso imaginário quando a palavra dança é pronunciada. Em cinema o espanto é muito fácil de se encontrar. Vários filmes foram execrados dos cinemas por tocar nas feridas do ser humano, bem como o teatro.

Não iria ser diferente em artes plásticas. O quadro ou escultura idealizada não cabe mais neste mundinho. A arte precisa transgredir para avançar. Não tem como fazer um omelete sem quebrar ovos. Ditado comum, muito próprio. Nesta quebra de ovos, certamente alguns podem estar podres e causar asco. No entanto, expressões artísticas usando ovos podres já foram realizadas, como estrume humano e de animais. Cada obra tem seu valor, de acordo com tempo e espaço. Imagine se os impressionistas não tivessem escandalizado em seu tempo. Ou então se Picasso ficasse pintando retratos e quadros realistas! Caso Pollock não ousasse respingar nas telas suas tintas criando suas telas maravilhosas. Mesmo o mictório de Duchamp foi necessário para que o modo de pensar arte evoluísse. Há quem diga que tudo piorou depois de Duchamp. Eu não concordo. Porém…

Das obras primas que encontram-se no museu Louvre, em Paris estão A “Vênus de Milo”, atribuída a Alexandros de Antióquia, é outro símbolo do Louvre. A estátua de 2,02 metros de altura tem cerca de 2.300 anos e foi encontrada em 1820 na Ilha de Milo, na Grécia. A obra está no museu francês desde 1821; A Liberdade Guiando o Povo foi pintada por Eugéne Delacroix em comemoração à Revolução de Julho de 1830, que derrubou o rei francês Carlos 10º. A pintura, exposta no Louvre desde 1874, serviu de inspiração para a Estátua da Liberdade, presente da França aos Estados Unidos; “A Balsa da Medusa”, pintura a óleo de Théodore Géricault, foi pintada entre 1818 e 1819, baseada numa história de naufrágio e canibalismo; “Psique Revivida Pelo Beijo de Eros”, estátua em mármore de Antonio Canova, esculpida em 1793, A Morte de Sardanapalo”, de Delacroix, foi inspirada no conto de um rei assírio que mandou destruir todos os seus bens e matar suas concubinas depois de uma derrota militar. O quadro é de 1827; “Hermafrodita Dormindo”, ou o “Hermafrodita de Borghese”, é uma escultura de data e autor desconhecidos. O colchão realista foi produzido em 1620 por Gian Lorenzo Bernini; A Grande Odalisca”, de Jean-Auguste Dominique Ingres, foi encomendada pela rainha Carolina de Nápoles, irmã de Napoleão Bonaparte, para formar par com outro nu a ser pintado por Ingres, mas Napoleão foi deposto em 1814, e o segundo quadro não chegou a ser produzido; “Gabrielle d’ Estrées e Uma de Suas Irmãs” é um possível retrato da duquesa que era amante do rei Henrique IV da França. O toque no mamilo representaria a gravidez de Gabrielle de um filho do rei. A obra é de cerca de 1594, de autor desconhecido.


O que estas obras têm em comum? O escândalo. Qualquer visitante que for ao Louvre vai se defrontar com estes trabalhos e outros como a Galeria Táctil, onde corpo são expostos e o visitante é convidado a tocá-los e não tem restrição de idade. Crianças abaixo de doze anos só entram com os pais. Sim, a maioria dos corpos são nus. A exposição do MAM não é 
novidade nenhuma. Estamos tratando aqui do Museu mais famoso do mundo, num dos países mais civilizados do mundo. Logo, resta a lógica e o bom senso. Os genitores que vão definir se as crianças devem ver e tocar. A televisão e a internet estão cheia de porcarias. Cabe aos pais desligar os botões. Cabe aos pais dizer se a criança deve ou não ir a um filme, peça de teatro, ler um livro, etc. Os artistas não têm que se preocupar com o falso pudor quando criam suas obras. Se fosse assim não se criaria nada.

Outro quadro que está no Louvre é Odalisca, de François Boucher, um óleo sobre tela medindo 53×64 cm. Uma jovem está deitada nua na cama, envolta por uma profusão de tecidos drapejados. Ostensivamente provocante, ela flerta como o observador, olhando para fora de seu quarto intimo. Este quadro é belo justamente pelo nu. Se Boucher tivesse pintado ela vestida perderia toda a graça. Os lençóis amarotados podem significar várias coisas, como uma noitada de sexo ou que a menina dormiu mal, também pode ser que ela esteja desajustada e não goste de arrumar a cama. É, mas tem aquele olhar. Ainda assim pode significar mais que apenas sexo. Qualquer pai poderia dizer ao seu filhinho de dez anos que Odalisca pode ser vista de várias maneiras.

Em resumo, a maiorias das polêmicas que se cria em torno de arte geralmente carece de melhor informação e principalmente de bom senso. O fanatismo e a forma rasa como se tratam estes assuntos é que enoja. Com texto genéricos e mal fadados, pessoas mais interessadas em se expor do que avaliar a obra, vomitam palavras sem senso. São tempestades que maculam, mas não destroem a força expressiva. É claro que muitas exposições pelo mundo afora são feitas todos os dias, intervenções de cunho erótico, etc. Também é evidente que uma obra de arte não vai mudar a cabeça de uma criança, tão acostumada com a banalização da violência. São exageros que precisamos pontuar e corrigir.