Category: Espaço Parlatório

Arte urbana, a mais antiga das artes

Por Clodoaldo Turcato

Shiko

Shiko

Quem vive numa cidade enorme como Recife, se depara todos os dias com expressões artísticas espalhadas pelas ruas. Prédios, muros, pilastras, viadutos, veículos, construções, etc, servem de suporte para que pessoas se manifestem com imagens, escritos, cores e toda forma de atividades que formam a arte urbana.

O streetart, ou arte urbana, são intervenções urbanas artísticas com temáticas que contornam desde a política até religião, passando por problemas sociais e etc. Esta arte pode ser feita por meio da pintura, esculturas ou instalações. Seja de que forma for, a arte urbana é uma arte marginal, e não está atrelada a nenhum padrão estético. Sendo assim, considera-se a arte urbana uma arte livre.

A arte urbana ou de rua não é novidade. Só para citar, Rafael e Michelangelo criaram suas maiores obras em afresco, que nada mais é do que arte criada sobre suporte em céu aberto.  E com o passar dos anos, a criatividade da pessoa humana nunca cessou.

Como se cunhou arte urbana como uma arte livre, temos de tudo pelas ruas das cidades. Como tudo em arte, cabe ao espectador se emocionar ou simplesmente odiar estas manifestações. Já escrevemos sobre arte e expressão artística, logo não vamos nos alongar.

]No Brasil e no mundo, a arte de rua tem estado presente nas maiores e mais importantes cidades, geralmente, em muros e de grande escala, esta arte – além de embelezar a cidade de um jeito econômico e muito original, fazendo cada cidade ser única e ter seu próprio estilo – ela também faz o papel da denúncia e do protesto. E há também uma outra importante característica desta arte, o papel da inclusão social.

Vários artistas do estilo promovem a arte por meio de suas intervenções, estimulando a criatividade em jovens e crianças de partes mais remotas da cidade. Muitas comunidades mais pobres são convidadas a se juntarem aos artistas para, juntos, transmitirem uma ideia, conceito ou mensagem política, ou apenas para criar arte e beleza.

Com cerca de 20.000 anos de evolução cultural por trás disso, o grafite, a pichação ou streeturbanart ainda é arte e nada parece capaz de deter a sua popularidade fenomenal. A ideia simples de desenhar em uma parede tornou-se algo verdadeiramente extraordinário em um mundo cada vez mais emparedado e murado. Percorremos um longo caminho desde as pinturas nas cavernas. Era inevitável que o roteiro fosse substituído por imagens e se destacassem com contrastes excepcionais. O advento do grafite ilustrado foi, sem dúvida, responsável pelo impulso maior de seguidores entre a população em geral. Como o estilo da escrita é quase completamente ilegível para o olho destreinado, fotos em grafite permitem uma mensagem mais clara, mais pungente.

De tudo, algumas manifestações não passam de tinta atirada a suporte sem significado, diminuindo a força deste tipo de expressão. Pichações em prédios e sem autorização são muito comuns, transpondo apenas revolta pessoal e tirando a beleza que um desenho como de Shiko, Bozó Bacamarte, Derlon e tantos comungam nas ruas e vielas das suas cidades.

Diversas técnicas são utilizadas pelos artistas de rua, embora a intervenção “grafite” seja a mais associada ao tema de arte de rua. Segue abaixo alguns exemplos de arte urbana.

 

  • Grafite: desenhos estilizados geralmente feitos com sprays nas paredes de edifícios, túneis, ruas. Há muitas técnicas de grafite e atualmente os trabalhos em 3d chamam a atenção dos críticos.
  • Estêncil: parecido com o grafite, esse tipo de técnica utiliza o papel recortado como molde e o spray para fixar as ilustrações e desenhos nas ruas, postes, paredes.
  • Poemas: qualquer tipo de manifestação literária que surge no ambiente urbano, seja nos bancos, paredes, postes.
  • Autocolantes e Colagem: chamado de “sticker art” (arte em adesivo), esse tipo de arte utiliza a aplicação de adesivos pela cidade.
  • Cartazes: Muito comum esse tipo de intervenção urbana, também chamada de “cartazes lambe-lambe”, donde se fixam cartazes (papel e cola) pela cidade, sejam em postes, praças, edifícios, feitos manualmente ou impressos.
  • Estátuas Vivas: muito encontrado nas grandes cidades como forma de entretenimento turístico, as estátuas vivas realizam um importante trabalho com o corpo, os quais permanecem estáticos durante longo tempo, realizando pequenos movimentos. Geralmente estão pintados e caracterizados.
  • Apresentações: essas apresentações de rua podem ser de caráter teatral, musical, circense (malabaristas, palhaços, etc.), sendo trabalhos solos ou em grupos.
  • Instalações: são inúmeros tipos de instalações artísticas como exemplos de arte de rua, sejam objetos, materiais distintos, com o intuito de provocar uma mudança no cenário já existente.

 

De todas as manifestações, as cidades sem arte de rua ficariam mais tristes. As cores elevam nosso espírito e nos faz entrar em contato com toda uma gama de gente sensível e competente, ouum grito que vem das comunidades menos favorecidas que encontram nestes manifestos uma maneira de serem ouvidos. A arte é um caminho que não pode ser impedido. Mesmo o que eu ache ruim e descabido precisa existir, para que a beleza floresça e haja paramêtros.  Quando você cruzar com um murro pintado, lembre-se que por trás daquele desenho ou inscrição existe uma alma, um grito, uma verdade.

 

Arte da Ásia Oriental

 

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Por Clodoaldo Turcato

Já escrevi algumas vezes que nosso conhecimento de arte, em sua maioria, é de arte ocidental. Muito pouco, principalmente do pós-guerra, se conhece da Ásia Oriental, que abrange civilizações milenares como a chinesa, japonesa e coreana.  Seria débil questionar se existe arte no outro lado do mundo. Bem, a resposta foi dada aqui em outras oportunidades, mas tudo tem a ver com modo, interesse e comércio. Sim, meu caro, arte é comércio em primeiro lugar.

Quando Execução, um óleo sobre tela medindo 150×300 cm, de Yue Minjun, foi vendida por US$ 5,9 milhões na casa de leilões Sotheby, de Londres, em 2007, ela setornou a obra mais valiosa da arte contemporânea chinesa. O valor Confirma o apelo que a arte contemporânea da Ásia oriental exerce sobre os colecionadores ocidentais; a semelhança da obra com Três de maio de 1808 de Francisco de Goya, ilustra a influência da iconografia ocidental sobre a arte da Ásia Oriental O rosto congelado numa risada com os olhos fechados (um autorretrato) é um tema recorrente na obra do artista e sugere a supressão das emoções.

Por mais que a arte contemporânea chinesa ainda esteja na infância, ela já passo por várias etapas. As políticas de liberalização do fim da década de 1970 geraram um período de grande atividade. Os artistas se inspiravam em performances e exibições tornaram a arte ocidental acessível pela primeira vez e faziam experiências com esta e materiais diferentes. Mas depois da repressão brutal aos protestos da praça da Praça Celestial, em 1989, os artistas começaram a questionar a ideia de identidade cultura Isso provocou o surgimento da “pop art política”, inspirada na pop art e “realismo cínico”, que se voltava para temas sociopolíticos Artistas como Zhang Xiaogang começarama entrar em confronto como passado do seu país, comoem obras como Série Genealogia. 

O governo passou a vera ante contemporânea como uma manifestação potencialmente subversiva e proibiu os artistas de exibirem suas obras ao público. Como consequência, artistas como Huan fugiram para o Ocidente. Lá, começaram a realizar várias performances, entre elas Árvore Genealógica, na qual Convidou três calígrafos para escrevertextos chineses em seu rosto até que ele estivesse completamente preto. Nos dias que antecederam os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, as restrições – pelo menos no que se refere à arte apolítica – foram relaxadas e, no século XXI, vários artistas voltaram à China, trazendo consigo novas influências e ideias. Eles estão descobrindo novas maneiras de interagir com a pintura tradicional e a caligrafia chinesa, dedicando-se à arte performática e usando novas tecnologias a fim de explorar temas diversos, entre eles a globalização e questões de identidade.

No Japão, a arte sofreu porque foi vista negativamente no Ocidente durante muito tempo. Por mais que os conceitos ocidentais exercessem um grande estímulo sobre os artistas japoneses, eles também destruíam a integridade da arte japonesa. Para entendera natureza da arte japonesa moderna, é necessário compreender sua identidade dividida. A derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial e o consequente domínio político e Cultural dos Estados Unidos influenciaram enormemente o desenvolvimento da arte japonesa do pós-guerra. A inauguração do pavilhão do Japão na Bienal de Veneza, em 1956, simbolizou o retorno do país ao mundo da arte internacional. Vários artistas japoneses absorveram tendências dos movimentos de Vanguarda Ocidentais e criaram seus próprios estilos, o que resultou em obras como a instalação Salão de espelhos de YayoiKusama. As obras psicodélicas do artista fazem referência ao abstracionismo, e os espelhos no salão cor de abóbora fazem com que os pontos pareçam se prolongar ao infinito, cercando o espectador quando ele entra no espaço. A partir da década de 1980, a arte japonesa se tornou objeto de curiosidade e passou a ser vista como um produto híbrido de uma sociedade detecnologia extremamente desenvolvida, numa combinação única entre o velho e o novo. Com o fim da bolha econômica na década de 1990, a sociedade japonesa enfrentou desafios sem precedentes e artistas emergentes começaram a questionar a natureza da identidade nipônica isso resultou em obras como 727), de Takashi Murakami, que faz referências às subculturas e que ampliou o alcance da arte contemporânea japonesa.

Na Coreia do Sul, os movimentos surgiram depois da Guerra da Coreia restritos a um contexto local. As fontes às quais os artistas se referiam também eram locais: da pintura com tinta nanquim e porcelanas brancas à cerâmica buncheong. A maioria dos artistas sul-coreanos se deparou pela primeira vez com a arte ocidental em casa e, depois, estudando-a no exterior. Essas viagens influenciaram suas práticas artísticas. Temas de identidade, movimento e comunicação foram explorados na década de 1990 por artistas cujos trabalhos começavam a ser admirados, como se vê na obra performática Cidades em movimento – 2.727km. Carninhão de Bottari, de Kimsooja. Mas as tradições coreanas ainda têm valor. O grupo Mungnimhoe (Floresta de Tinta) das décadas de 1950 e 1960 fez experimentos com novas linguagens visuais, usando materiais tradicionais como nanquim, pince e papel. O cotidiano também é um tema importante para os artistas. Numa reação às circunstâncias políticas contemporâneas, o grupo MinjungMisul (Arte do Povo), da década de 1980, analisava a realidade social usando uma linguagem visual popular como a minha (pintura popular).

Valeu lembrar artistas muito interessantes como YueMinjun, YayoiKusama, Takashi Murakami, Kimsooja e Zhang Xiaogang,  que não deixam nada a deseja de nossos melhores artistas ocidentais.  O que é preciso, meus caros é abrir nossas fronteiras para conhecer o que o ser humano cria.

A beleza em seu coração antigo

Por Danuza Lima

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A exímia capacidade de narrar é sem dúvida, fruto de uma observação e um perspicaz olhar antigo sobre coisas também antigas ou novas em seus aspectos mais simples, o que deságua no rio plástico que toda história assume ter: beleza, sobretudo, beleza. É neste quesito simples, sobre o belo, somente o belo e o futuro dele derramado que reside e finca espaço nossa coluna de hoje.

Ademais aos tantos causos, estórias, cânticos e cordéis, cenas simples costumam àqueles que dela se prendem, render belas narrativas, contudo, é preciso estar presa completamente a cena, ao ponto de a partir dela, criar a atmosfera cósmica de encantamento e ao gosto Barthes, de “fruição da leitura”. Sem o olhar antigo e bonito de quem humildemente observa, é quase impossível a beleza, a beleza em seu coração antigo, a simplicidade.

Não é de estranhar que esta a quem ainda atentam por chamar Elena Ferrante, consiga construir com tamanha beleza e engenhosidade simples e direta, a cena de um banho. O acontecimento narrativo está contido no primeiro volume da tão comentada tetralogia Napolitana, “A amiga genial”.

Juntam-se aí dois rituais cíclicos distintos e de naturezas e interpretações também distintas: o banho e a véspera de minuto do casamento, ritos de iniciação e fertilização.  Mas aqui, nos cabe recordar o banho, a água que cai sobre o corpo, que é encontro, “o primeiro dos ritos, aquele que sanciona as grandes etapas da vida, em especial o nascimento, a puberdade e a morte” (Chevalier e Gheerbrant). É justamente Elena Grego, Lenuccia, Lenu que se encarrega de tal rito. A cena, construída, como todo o romance, em primeira pessoa, ultrapassa o simples relato para gerir a esfera afetiva do olhar apreensivo de Lenuccia sobre o destino daquela que vestia o emblema da liberdade, por Lenu, nunca alcançada: ser quem se é. O reconhecimento desta constatação fica contida na aparente vergonha diante do corpo nu de Lila e a inconveniente certeza da nulidade de si diante da figura massiva e forte da menina de apenas dezessete anos que em breve seria deflorada. E quantas meninas não a são ao longo de nossos dias rompidas, e se destituem de si mesmas na inverossímil certeza de um destino apático, expatriado ao lado de quem apenas servir-se-á de seu corpo, como quem consome carne de açougue? A afetividade do olhar de Lenu converte-se inevitavelmente em uma unidade de presença de toda a Lila :

“Naquele momento foi apenas uma tumultuosa sensação de inconveniente necessário, uma situação em que não se pode virar o rosto para o outro lado, não se pode afastar a mão sem dar a reconhecer o próprio desconcerto, sem o declarar justo ao se retrair, sem portanto entrar em conflito com a imperturbada inocência de quem nos está perturbando, sem exprimir precisamente com a recusa a violenta emoção que nos abala de modo que você se obriga a continuar ali, a deixar o olhar sobre os ombros de menino, sobre os seios de mamilos crispados, sobre os quadris estreitos e as nádegas rijas, sobre o sexo escuríssimo, sobre as pernas compridas, sobre os joelhos tenros, sobre os tornozelos arredondados, sobre os pés elegantes; e você finge como se não fosse nada, quando na verdade tudo está em ato, presente, ali no quarto pobre e um tanto escuro, a mobília miserável ao redor, sobre um piso irregular e manchado de água, e o coração se agita, e suas veias inflamam”.

(Elena Ferrante,  p. 312, 313)

 Esta unidade de presença só o é de todo completa tendo em vista o poder afetivo de Lila sobre Lenuccia. A potencialidade subjetiva que dela emana que é ela própria, violável a todo sentido cognoscente e cartesiano rompe os limites práticos da simples ação narrativa e gera este  forte efeito da intensa presença da jovem na vida de Lenu. É claro que o relato deságua naquilo que o sentido não consegue transmitir,  Esta “produção de presença” (Hans Ulrich Gumbrecht), a beleza neste caso, propõe uma experiência para o leitor fora do campo de linguagem e todo o efeito gerado pela cena fica para o além da leitura:

“Lavei-a com gestos lentos e acurados, de início deixando-a agachada no recipiente, depois lhe pedindo que ficasse de pé, e ainda tenho nos ouvidos o rumor da água que escorre, e me ficou a impressão de que o cobre da bacia tinha uma consistência semelhante à da carne de Lila, que era lisa, sólida, calma. Tive sentimentos e pensamentos confusos: abraça-la, chorar com ela, beijá-la, puxar-lhe os cabelos, rir, fingir competências sexuais e instruí-la com voz doutoral, repeli-la com palavras bem no momento da maior intimidade. Mas no final restou apenas o pensamento hostil de que eu estava purificando da cabeça aos pés, de manhã cedo, só para que Stefano a emporcalhasse durante a noite.”

(Elena Ferrante, p. 313)

 E quem um dia dirá da beleza que estas coisas simples acarretam a uma mente e um olhar de coração antigo? 

Esculturas vivas

Por Clodoaldo Turcato

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Meus caros e caras, estamos em 2018 e seguimos neste espaço escrevendo sobre arte – espero que por algum tempo. Apesar do título, escreverei hoje sobre performance e não esculturas, se bem que ao final, poucos notarão diferenças.

Há 30 anos, quase todos os dias, os artistas Gilbert Proesch e George Pasmorre almoçam juntos no mesmo restaurante. Cada um faz um caminho distinto, porém chegam juntos. Desde 1971 que G&G, como são conhecidos, se tornaram esculturas vivas, isso por que não queriam produzir objetos. Queriam ser, eles mesmos, a obra de arte.

Isso se consolidou na história na mostra When Attitudes Becomes Form, realizada em 1969 e que teve a versão londrina, no Instituto de Artes Contemporâneas, quando eles tentaram se inscrever como esculturas, como corpo coberto de tinta metálica. Receberam aplausos, porém foram recusados.

Conheceram-se enquanto estudantes na escola de arte St. Martin’s de Londres, e desde 1968 vivem juntos e fazem o seu trabalho profissional como duo artístico. Uma das suas primeiras realizações foi The Singing Sculpture (A escultura que canta, 1969), na qual o par de artistas dançava e cantava Underneath the Arches, um êxito musical da década de 1930. Desde então têm conseguido obter uma sólida reputação como esculturas vivas, convertendo-se a si mesmos em obras de arte, expostas durante diversos intervalos de tempo para contemplação do público. Em geral costumam aparecer impecavelmente vestidos com terno e gravata, adotando diversas posturas em que permanecem imóveis, embora por vezes também se movam ou leiam algum texto, e por vezes apareçam em montagens ou instalações de diversa índole.

Além da sua faceta escultórica, Gilbert & George também realizam obras pictóricas, colagens e fotomontagens, onde muitas vezes se representam a si mesmos, junto a diversos elementos da sua companhia mais próxima, e fazendo referências à cultura urbana e com uma forte componente reivindicativa, abordando temas como o sexo, questões raciais, a morte e a SIDA, a religião ou a política, criticando o governo britânico e o poder estabelecido.

Uma de suas obras mais interessantes chama-se Fiau-Fiau, uma fotomontagem medindo 169 x 142 cm, que está na Anthony d`OffayGallery, em Londres. Nela, duas figuras que alternam o vermelho, o azul e o branco, estão no que parece ser uma janela. Uma construção alta à distância domina o fundo. Com uma fingida expressão séria, os dois homens parecem pousar de maneira deliberadamente brincalhona, fazendo Fiau-Fiau para as convenções da arte tradicional. A postura é esnobe e ridicularizam seus corpos em cores berrantes e ostentando uma arrogância que encaixa na performance.

É difícil encontrar um casal tão bom. Nem em casamento nem no mundo da arte. Gilbert & George desenvolveram uma simbiose absolutamente perfeita ao longo dos anos. Parecem um corpo duplicado, diversificado, mas, no entanto, cronometrado perfeitamente. Eles imitam os gestos, as posturas, os olhares, os comentários. Não discuta entre eles. Ou pelo menos eles nunca fazem isso na frente de estranhos. Eles simplesmente adicionam nuances. Eles falam e permanecem em silêncio até chegarem a uma única voz: as folhas mais afiadas de Gilbert; O mais grave, de George.

É curioso a continuidade física que conseguiram desde que se conheceram em 1967, quando estudaram arte na Escola de São Martinho de Londres, e logo depois desenvolveram essa marca de esculturas vivas que lhes deram fama. Mais de 40 anos juntos e eles ainda estão entusiasmados com suas performances , seus shows, como eles dizem. Assim como uma pessoa combina as cores de suas roupas, elas a fazem em perfeita harmonia, mas uma peça inteira. A elegância é um dos seus mandamentos, como é fé em si mesmos. Se Gilbert estiver vestido de marrom claro, George escolhe um tom verde.

Poucos pensaram que a natureza da arte poderia dar origem a uma combinação tão perfeita entre um menino criado nas Dolomitas italianase outro com um cavalheiro nascido em Devon, na Inglaterra. Muitas obsessões, entretanto, as uniram ao longo dos anos. Pouco variável, sim. O trabalho de Gilbert & George tem andado como um carrossel pop em quatro pilares que se conectam ao longo de sua carreira: sexo, raça, dinheiro e religião. ”Todos eles estão relacionados, a raça tem a ver com religião e sexo …” Sexo, com dinheiro, com raça, com alma, com religião, é claro , com o fluido deste mundo excessivo e louco em constante dança de umidade que move o universo.

Eles são figurativos e conceituais. Eles bebem pop e surrealismo. Eles desenvolvemideias.  Dada com um certo ar de chá às cinco horas. Eles aspiram a ser modernos, mas eles estão conscientes do que isso implica. E eles mudaram de curso. Começarama trabalhar com os negativos das fotografias, o efeito dessas imagens mais reais foi muito forte. Eles formam quase uma sucessão de átomos de cartão plastificado em que os símbolos são cruzados que qualquer um pode comprar em uma loja de lembranças de Londres. Só que os reorganizaram como numa espécie de orgia perpétua. 

Esse bom senso de humor que mistura sexo, escatologia, vícios e ícones sagrados movem esses dois artistas para dar sua visão das coisas. Eles podem não ser os favoritos da Rainha da Inglaterra, dos bispos anglicanos ou de qualquer outra confissão, nem das certas elites do mundo em que se mudam, mas conseguiram ampliar o público artístico

Assim, eles forjaram uma identidade multicultural e aberta, dedicada à tolerância e compreensão alcançada através de provocações inteligentes. Para isso, eles queriam quebrar barreiras e rótulos que não façam nada além de classificar o cidadão em apartheids convencionais. Mas essa mistura de anti-rótulos não é a razão pela qual as mulheres dificilmente aparecem em suas obras. Neste caso, aplique uma certa rebelião estética. 

Eles comentam, como tudo, com aquele sorriso meio desequilibrado e um pouco malévolo. Com essa sobrancelha coreográfica subindo e o contraponto medido de seu discurso de uníssono, com seu amável blancheo irônico e antimíssimo, sem quebrar o cordão umbilical que os une aos territórios de provocação incansável.

O porão da mansão abandonada

Por: Jacqueline Souza

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Na pequena cidade do interior de Minas Gerais, existia uma família muito unida. O casal contraíra núpcias muito cedo. Dona Ciça e seu José tiveram quatro filhos: Juquinha, Lara, Caio e Erik. Viviam felizes, embora sem grandes posses. Moravam numa casa um pouco velha que precisava de reparos, mas aconchegante e repleta de alegria.

            À noite quando o pai chegava a casa, as crianças tratavam de rodeá-lo para que contasse suas histórias de terror. Obviamente a mãe interferia para que jantassem primeiro e cuidassem da higiene, o que faziam prontamente.

            Seu José sentava-se no chão batido e iniciava seus contos. Aprendera com seu pai num pequenino sítio que tiveram na infância, antes dele partir para o outro mundo. Ele e seus irmãos ficaram sem ter onde morar e de favor perambularam em casas de parentes, porque a mãe entrara numa tristeza tão profunda que permaneceu internada num sanatório até o dia da sua morte.

            Não sabia ler muito menos escrever, apenas desenhava seu nome no papel quando tinha necessidade de assinar, todavia possuía uma imaginação muito fértil. Era requisitado pelos colegas de trabalho e até por seu chefe a contar tais histórias.

            Essa noite seria especial, resolvera falar do casarão do final da rua. Todos sabiam que a última moradora fora uma senhora que praticava magia, era muito feia, nariguda, com cabelos compridos e magra demais. Temiam falar seu nome, pois achavam que tinha vendido sua alma para o ser das trevas em troca de favores. Os filhos dela morreram de uma febre misteriosa que assolou a região e logo depois ela sucumbiu também dentro do casarão, desde então, ninguém quis entrar lá. Acreditam que ela trouxe a doença.

            O pai começou a dizer que uma vez um grupo de pessoas adentrou a casa para ver se a velha deixara algo de valor. Na verdade, foram bisbilhotar. Ao descerem até o porão viram um ser imenso, sem formas, com olhos vermelhos como labaredas de fogo e correram assustados.Após o episódio ninguém ousou voltar àquele lugar amaldiçoado, poderia ser o “coisa ruim”.

            A esposa atenta àquela conversa mandou todos para a cama e disse ao marido que ele havia amedrontado as crianças.

            Aquela noite ouviam-se os trovões e raios que caiam próximos à casa. Os dois filhos mais velhos não conseguiam dormir e conversavam sobre o que o pai contara a eles. Estavam petrificados. Depois de um bom tempo…

            —Ei, acorde, Juquinha!

            —O que foi Lara?

            —Observe ao nosso redor, não estamos em casa…

            —Não?

            Levantaram-se, pois acordaram no chão frio de um porão escuro. O irmão segurou a mão de sua irmã. Olharam no canto da parede e viram algo que se expandia e vinha na direção deles. Ele entrou na frente para proteger Lara, ao mesmo tempo, que rezava um pai nosso. A criatura sem forma se aproximou e segurou o queixo do menino para que ele parasse.

            Com o pensamento Juquinha disse:

            —Você pode me impedir de falar com a boca, mas não pode controlar o meu pensamento.

            A criatura partiu para cima dele com extrema violência.

            A mãe veio ao socorro das crianças que gritavam e pareciam não querer acordar. Foram sacudidas e enfim começaram a chorar abraçadas aos pais. Caio e Erik permaneceram paralisados ao ver tal cena.

            Contaram o que sonharam e dona Ciça repreendeu seu José, por ter contado tantas bobagens.

            O mais estranho que ambos tiveram o mesmo sonho. Os pais silenciaram-se tentando entender. Ficaram ainda com os filhos no quarto até adormecerem novamente.

            No outro dia, na escola as crianças comentaram com os colegas que não acreditaram e deram muitas risadas.

—Adolescência é um período complicado demais, os hormônios efervescendo, muita confusão mental… –um amigo gaiato comentou…

            A aula prosseguiu tranquila e após o sinal da saída, os dois irmãos teriam de voltar a casa para levar os pequenos na escola, no entanto tomaram uma decisão de passar na frente do casarão. Fascinados por aquele local, algo despertara dentro deles. Quiseram entrar e ver se o que sonharam fazia algum sentido.

            Pensaram por instantes, então abriram o portão. As folhagens tomaram conta da frente e da lateral. Ao pisarem nas folhas secas, sentiram-se atraídos cada vez mais para dentro, como ímãs. Havia na minúscula trilha de folhas muitas estátuas quebradas, que davam muito medo. Pararam diante do casarão e viram após subirem os degraus dois gárgulas um do lado oposto do outro, talvez, protegendo a entrada da casa. Eram figuras medonhas.

            Juquinha inebriado pela sensação de curiosidade já punha sua mão para abrir a porta, quando sua irmã o impediu. Ele parecia enfeitiçado por alguma coisa, mas voltou a si ao chamado de Lara. Retornaram para seu lar.

            Tudo seguia tranquilamente durante a semana toda. O pai fazia hora extra e não chegava cedo para contar suas histórias.

            Dona Ciça, uma mãe zelosa, sempre preocupada com os filhos, tomava conta de tudo e dava muito carinho a todos. Ela não teve uma vida muito boa, perdera seus irmãos e mãe por conta de uma febre que havia tomado conta de toda a cidade. Era a única coisa que sabia sobre sua família. Fora criada no orfanato da igreja, desconhecia o nome de seus familiares, poucas lembranças surgiam à mente.Ao se recordar disso, deixou que as lágrimas lhe caíssem sem medo. Sentia saudades da sua família…

            O marido retornou. Jantaram e dormiram. A mãe começou a sonhar que estava descendo o porão do casarão. Viu uma mulher que afagava a cabeça das crianças com muito amor, todavia demonstrava muita severidade. De repente, seu olhar doce se virou para dona Ciça que se assustou. A mulher começou a bater nas crianças impiedosamente, com ódio expresso nos olhos. Levou-as para o porão e lá deixou os filhos muito machucados. Acendeu umas velas e invocou o ser das trevas que apareceu na parede, sem forma humana e nem de animal, não dava para descrever o que era, apenas aqueles olhos vermelhos. Eles conversaram. Ao ver dona Ciça, passou-lhe muito terror, quando sua energia se aproximou dela que não conseguia raciocinar. E com tamanho medo, começou a gritar: “ Mãe, não deixe que ele me machuque! Mãe!”

            Seu José tentava acordar a esposa. As crianças adentraram o quarto e ficaram impressionadas com suas palavras: “Mãe, não deixe que ele me machuque! Mãe, mãe, mãe!”

            ─ Calma, amor! Está tudo bem!

            Ela chorava copiosamente abraçando seus rebentos, apertando-os contra o peito.

─ Eu prometo que nunca permitirei que o mal tome conta de nossa família de novo!

Ninguém compreendeu, todavia nada comentaram. Cada um foi para sua cama e a mãe adormeceu.

Seu José levantou mais cedo que o habitual e saiu sem tomar seu café. A mulher abriu a porta para ir à padaria comprar pães e leite. Tomou um susto ao encontrar no tapete um gatinho preto desamparado, que começou a miar, chamando aatenção da criançada que desceu alvoroçada para ver o que estava acontecendo. Ficaram encantadas, pedindo para a mãe se podiam cuidar dele. Ela aceitou o novo amiguinho.

Os dias se passaram com tranquilidade. A família estava feliz com o animalzinho de estimação.

Certa noite, alguns fenômenos começaram a aparecer.Ouviam-se barulhos de panelas caindo por toda a cozinha. Em pânico, desceram e não encontraram nada caído ao chão. Estranharam a situação, porém resolveram voltar às camas. Novamente no meio da madrugada, ocorreu a mesma coisa. Daí não quiseram mais dormir.

O dia amanheceu, as crianças foram à escola. A mãe continuou seus afazeres. Uma vizinha bateu à porta aos berros. Ao abri-la, a mulher ofegante implorava para que ela a seguisse. Correram para o casarão. Para sua surpresa, seu marido estava amparado pelos vizinhos. Sem entender, perguntou o que havia se sucedidoa ele. Explicaram-lhe que pendurou uma corda na árvore e tentou se enforcar. Dona Ciçao abraçou muito chorosa. De nada adiantava falar com seu José, não respondia, seu olhar perdido no espaço, contemplando o nada. Ajudaram-na levando-o para casa.

Ele parou de trabalhar, pois toda vez que saía ia direto para o casarão na intenção de concretizar seu desatino. Precisaram interná-lo. O médico dissera que poderia ser estresse, embora ele tivesse o histórico da mãe, como herança.

A vida da família começou a ficar arruinada. A mãe não sabia mais o que fazer. As férias escolares chegaram e as crianças passaram a ficar mais tempo em casa, dando muito trabalho a pobre Ciça.

Depois da internação do marido, as noites ficaram cada vez mais terríveis, porque os fenômenos iniciaram-se novamente e ninguém conseguia dormir.

Os meninos deitaram mais cedo, porque aprontaram o dia todo. Mais uma vez os irmãos se viram dentro do casarão.

─ Juquinha, olhe! Estamos no porão.

─ Eu te protejo e se ele for mexer com você, tomarei seu lugar e você foge.

Nesse instante, uma mulher surgiu no meio dos dois, eles correram pela escada. O irmão sempre cuidando da pequena, colocou-a na frente. De repente, a porta de cima se fechou com Lara. Quando olhou para baixo, viu a menina ressurgir como uma criança de três anos de idade. Tudo estava muito confuso. Ele no ímpeto de proteção, tornou a descer os degraus e a criança passou por outra porta, enquanto à sua frente a mulher permaneceu de costas rindo dele. Começou a gritar pela irmã e acordou a família.

Dona Ciça veio ao encontro deles e sentiu-se culpada por não conseguir protegê-los. Aquilo não poderia continuar assim.

No dia seguinte, de tão esgotada resolveu chamar o pároco da igreja para visitar a casa dela e tirar o mal que se instalara lá. Agora não bastava somente o barulho, as coisas quebravam e eram atiradas nas pessoas da casa. A casa parecia mal assombrada.

O pároco, seu Antonio, decidiu conferir o que se sucedia. Fez sua sessão de exorcismo e para surpresa geral, o gato preto subiu na pia, olhou para todos e deu uma gargalhada tenebrosa que arrepiou a alma. Pulou a janela e foi para o casarão.

Seguiram-no e o homem de Deus jogou água benta na escada e os degraus “cuspiram” de volta nele, mesmo assim adentrou o casarão, orou fervorosamente, jogando aquela água por toda parte. Começaram a sair das paredes sombras que iam para o porão. Dona Ciça quase desmaiou de tanto medo. Aquelas sombras se transformaram no ser das trevas, só se viam os olhos vermelhos. O homem rapidamente proferiu seu ritual de exorcismo, desmanchando aquela monstruosidade e uma luz imensa apareceu no local.

Ao saírem do casarão, a mulher olhou para trás e viu na janela a figura de sua mãe, com lágrimas escorrendo pelo rosto, acenando uma despedida para dona Ciça e sumindo numa fumaça.

Ela agradeceu imensamente pela ajuda do sacerdote e contou o que vira na janela. O pároco disse que conhecia sua história e sentaram-se nos degraus. Ele informou que aquela mulher era a senhora que morava lá, que fazia rituais de bruxaria e num desses momentos, envolvida por uma entidade do mal, matara seus filhos e morrera enforcada.

─ Como assim, sempre falaram que a febre os matou.

─ Sim, filha. A verdade é que estive aqui e não permiti que soubessem que matara seus próprios filhos e depois cometera suicídio. Uma das crianças, uma menina, fora salva, havia batido a cabeça e ficou hospitalizada durante muitos meses em coma. Quando acordou, não sabia quem era. Resolvemos que ela viveria no orfanato da igreja tendo preceitos religiosos para não se tornar igual a mãe.

─ Sou eu?! Sempre tive lembranças. Agora passo a compreender…

─ Não fique triste. Você hoje é uma mulher de fé e ajuda seus filhos e todos ao seu redor.

─ O que acha que aconteceu com minha família nos últimos tempos?

─ Você é a herdeira de tudo, certamente ela cobrava por ter sobrevivido e queria interferir na sua família, destruindo a todos.

─ É tão difícil conceber isso…

─ Quer que saibam a verdade sobre o que lhe disse? Se quiser guardo segredo como fiz até o momento.

─ Sim, não quero que me liguem ao casarão. Deixemos do jeito que está. Obrigada mais uma vez.

Eles se abraçaram e cada um seguiu sua vida.

O marido de dona Ciça saiu do sanatório e tudo se normalizou. Nunca mais se falou sobre o casarão e as noites passaram a ter histórias fabulosas, todavia sem terror.

As meninas, de Velázquez, é um quadro que poderia ser um vídeo

Por Clodoaldo Turcato

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Já escrevi neste espaço sobre este artista e sua obra, com outra perspectiva e intenção. Neste texto quero fazer melhor, dar uma guinada e mudar o olhar para que se compreenda a grandeza de uma tela que mudou conceitos sobre a arte. Sim, caro leitor e leitora, poucas obras tem esse lugar: As meninas.

O conceito histórico da obra eu escrevi aqui. Portanto, meu caro e cara, basta voltar no tempo ou nos meus textos para reler. Avante!

O título data apenas do século XIX e pouco diz sobre o significado desta tela que se transformou em perene desafio a análises e interpretações. O cenário é o estúdio do artista: a Infanta Margarida-Teresa, a filha de cinco anos do rei Felipe IV da Espanha, está no centro da tela, cercada por suas damas de honra, um casal de criados, uma anã e uma criança. O rei Felipe IV e a rainha Mariana da Áustria aparecem refletidos no espelho, bem atrás da cabeça da infanta, e são os modelos que o pintor mira orgulhoso diante do grande cavalete, o último e mais belo de seus autorretratos. Olhando os soberanos, na verdade o pintor olha para o espectador que contempla sua tela. Ao autorretratar-se enquanto pinta o quadro com o par real, Velázquez propõe o tema do quadro dentro do próprio quadro e é atraído para o interior de um jogo labiríntico entre os espaços interior e exterior.

A imagem do rei e da rainha no espelho tem suscitado muitas controvérsias. Alguns acreditam que represente os soberanos posando para o artista. Outros, apenas o reflexo de um retrato pendurado na parede oposta. Mas não há documentação a respeito de nenhuma tela como esta de autoria de Velásquez. Qualquer que seja a interpretação, o espelho é um hábil recurso para sugerir a presença dos soberanos. O retrato ofuscado tem relação com a decadência do Império, que após perder a guerra dos 30 anos padecia de carência econômica e política, além de o Rei ter perdido há pouco tempo sua esposa, mãe da Infanta Margarida.

 A luz da janela cobre a Infanta Margarida, um sinal dos novos tempos, esperança para o país e seu povo, um oráculo no caminho das incertezas daquele momento. A recusa da menina em receber o copo com água representaria a repulsa dos monarcas pelos menos favorecidos, distância entre as classes sociais e subserviência de castas, comum naquela época.

 Os demais planos são gradualmente mais opacos e estão submersos em distâncias criadas pelo movimento da luz. Esta obra também aponta para o futuro, porque Velázquez conferiu à luz um papel de destaque, antecipando assim a questão fundamental dos impressionistas.

 A anã Mari Bárbola aparece no canto direito da tela. Os traços pesados dela criam um patético contraste com a delicadeza da infanta. O outro anão é Nicolás de Pertusato, que apoia o pé nas costas do cão tranquilo, fato que indica familiaridade e despreocupação em relação a tudo o que o rodeia, como se no palácio fosse normal assistir às sessões de pintura de Velázquez. Os retratos dos bobos da corte formam um núcleo importante da produção retratista do pintor e serão muito admirados por Goya e Manet.

 O artista se promove ao final, já que era o pintor oficial da corte e, num quadro primoroso, expôs os dois lados da nobreza, numa crítica sútil, quase imperceptível diante de tanta maestria. As mãos do artista parecem que se movimentam com rapidez entre a paleta e a tela. A Cruz da Ordem de Santiago em seu peito é uma adição posterior, pois esta honraria lhe foi concedida em 1659.

No vão da escada, que abre para um novo espaço para além da composição, enquadra-se uma figura parada no meio dos degraus. Trata-se de José Nieto, primeiro-chefe tapeceiro da rainha e futuro hóspede-mor do palácio. Um outro jogo de ilusões, de imagens que se entrecruzam.Em redor da princesa estão as damas de companhia, guardas, acompanhantes, dois anões e até um cão. Ao lado deste grupo, Vélasquez retratou-se a si mesmo olhando para o observador. E como se esta não fosse uma aparição invulgar, ao fundo pode ver-se um espelho onde estão surgem os reis, Felipe IV da Espanha e Maria Ana de Áustria. O teto representa uma grande área escura, que lembra o estilo barroco. Os suportes não possuem candelabros, mas direcionam o olhar para o fundo da sala, sendo que um deles aponta para o espelho com a imagem dos reis. Na parede lateral, à direita, é usado um jogo de luz e sombras, com o objetivo de ampliar a ilusão de profundidade do espaço, onde se desenrola a cena. Embora a luz diurna entre por uma das janelas desta parede, existem também outras fontes de luz a modelar as sombras.

O que significa esta imagem? Vélasquez coloca o observador na pele dos reis, por isso é que os vemos no espelho ao fundo da sala. Assim sendo, o quadro conta o momento em que o pintor estaria a retratar os reis e eles próprios estariam hipoteticamente a pintar a restante corte ao lado de Vélasquez. Outra teoria, contudo, admite que a corte terá entrado na sala de trabalho do artista para vê-lo a trabalhar. A princesa pediu água a uma das damas, que a está a servir. Entretanto, os reis entraram na sala e a corte começou a reagir, fazendo reverência aos monarcas.

Outra teoria sobre a composição de As Meninas está relacionada com a astronomia: diz que todas as pessoas presentes no lado esquerdo do quadro representam as estrelas da constelação de Corona Borealis, vista no hemisfério norte do planeta, cuja estrela alfa também é chamada “Margarita Coronae”, tal como o nome da princesa. Além disso, pode haver propriedades matemáticas na imagem, com a utilização da razão áurea, à semelhança de muitas outras obras artísticas.

Por ter captado o instante exato, em que tudo parece estar em ação, é que a obra de Velázquez é tida como pioneira do impressionismo. Suas cores são discretas, com escassez delas na parte superior, com destaque para o branco, cinza e negro das vestimentas, que trazem minúcias em vermelho. Ao apresentar os anões e o belo cão, Velázquez aproxima-se do impressionismo, também. Não existe unanimidade em relação a quem (ou o quê) estava sendo retratado pelo artista. Uma das suposições é que se tratava do casal real, mas também poderia ser o retrato da princesa, embora ela se encontre atrás do pintor. O certo é que a composição é bastante intrigante.

Caro amigo e cara amiga que está em busca da resposta para a pergunta sobre o que é arte ou não? Fica fácil diante de uma obra consenso. No entanto, o que mais me impressiona neste quadro é a forma como ele capta o movimento e define bem o claro e escuro. Sobre todas as teorias que se formaram, o certo, para mim, é que o pintor está em seu trabalho e o Rei e Rainha chegam de repente, sem aviso, e todos os olhos se voltam para os soberanos. Ao nos deter na obra, esquecemos que é uma tela e não um vídeo, de tanto movimento.