Elena Ferrante – sobre obsessões

Por Danuza Lima

Principiar algo, tarefa-labirinto, principalmente quando se trata de “elegermos” a sacola de leituras com as quais iremos carregar o peso dessas escolhas. A atividade de iniciação é mítica e ritualística: a exigência de um rito de passagem é quase crucial para a manutenção deste pacto primeiro com o princípio. A leitura figura este rito, a chave para a ação posterior de percorrer os caminhos.

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Pois bem, há tempos desejava ler algo da Elena Ferrante, mas justamente este princípio me desacelerou e porque não, custou ao pequeno desespero da próxima caminhada. Isto porque com tantas publicações, uma série de quatro livros quase concluída e toda a especulação com relação não só a identidade da escritora italiana, mas aos constantes questionamentos sobre sua obra, meu início precisava ser fora desta rota perigosa que é a indicação crítica, me permiti a isto e cá estou.

Neste tempo, vasculhei títulos, e o “dias de abandono” surgiu em sobressalto.

Quem dera eu não caísse violentamente por sob as variantes da narrativa, quem dera eu tivesse deixado, por vezes, o cansaço e sono dominarem o curso da leitura e apagassem em mim qualquer chance de enlace, quem dera. Exatamente o contrário. Caí com violência por sob os vários tempos íntimos da narrativa, permiti que a voz de Olga, trôpega, acelerada, invadisse até mesmo o sono.

Por trás do enredo – amargamente posto em sites, resenhas, que toda tentativa de síntese é traidora – há uma sonoridade desesperadora de uma mulher, sobretudo e tão somente a mulher. Não a mulher a moda Nélida Piñon, a que sofre, a que guarda as vestes do marido como amuleto, constrói dentro de si, o santuário para o outro, mas sim, a mulher que é o Outro em sua configuração ontológica. Sim, a mulher ente, ser-vivente,  – com o perdão da rima pobre – nua de suas próprias escolhas, mas mesmo assim, força e construção.

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Antes mesmo de ser sobre a resistência de uma mulher, abandonada pelo marido após quinze anos de casamento, na clausura da trilogia doméstica, filhos-casa-cachorro e a somatória infinita da presença extrafísica do marido, o romance de Elena Ferrante é sobre obsessões, ímpeto e a absurda violência que cada uma de nós, mulheres, – pode-se inserir aqui fórmulas feministas, etc – viventes desta esfera estreita para a construção de nossa própria identidade ou o esfacelamento dela, enfrenta.

Voz torrencial, Olga não guia leitora alguma; fui de forma absurda engolida por forte ritmo síncrono, típico da narrativa ágil, próxima ao campo sintomático da fala, refletida nas advertidas e frenéticas ações de alguém no limite matemático do desespero tático. É um vão irregular que aos poucos se constrói ao redor da personagem, e ela, como quem usa a fala de forma terapêutica, vai aos poucos esgotando em si a força motriz de sobrevivência e cria, inadvertidamente, nova forma de vivência, esta, independente: a existência sem o marido, relógio, telefone, cachorro, sem contar o surto crescente de novas modalidades sentimentais.  Nós leitoras, distantes do papel de cúmplices – não nos é dada esta possibilidade – pelo contrário, Olga despeja fatos, ao menos os juntamos, mas como quem recolhe cacos, somos visivelmente pegas pela imprevisibilidade da própria personagem, que entre crises de ansiedade, fúria e apatia, se recusa ao papel de “mulher abandonada” – mania infeliz de adjetivação – e segue. Talvez consigamos também nós mesmas, seguir. É um romance de soerguimento, turbilhão, e para mim – denuncio a condição de leitora primeira – seja também redenção, pedra angular de um rito a se prolongar.

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