É arte quando nos provoca, eis o segredo

Por Clodoaldo Turcato

18360727_1281503028614460_313691487_nEste texto certamente vai direto ao centro de toda a nervura artística em que se cria um mito pela arte que nunca parece arte, ou parece arte demais. Difícil de compreender? Bem, a ideia não é complicar, porém às vezes em critica de arte explicar algo deixa maiores as dúvidas.  Então, ao ver um Terno de Feltro pendurado por cabides, vem a eterna pergunta: isso é arte? A dúvida é cruel. Se esse mesmo terno estivesse na lavanderia seria arte? Qual a resposta? Este amontoado de emoções é o que nos traz Josef Beuys.

Muita gentedesconhece a vida de Joseph Beuys. E aqueles que conhecem a sua obra, conhecem-na desligada de todo o contexto em que foram criadas. As obras expostas nas galerias e nos museus não passam de cadáveres das “Ações” cujo sentido tem sido ocultado e apagado pelos críticos formalistas que tomam a nuvem por Juno. As suas obras pictóricas ou as suas esculturas, as suas instalações eram apenas pretextos para a criação de fóruns para debates.

A sua “arte feia” é uma espécie de contra-imagem, geradora de evocações simbolizadas pelos objetos expostos. O artista é o sujeito capaz de evocar o significado, apenas grosseiramente enunciado por aquele simples expediente com que toda a gente pode provocar a arte nos outros, ou seja, viver criativamente a vida “desocultando” o que está apenas escondido. Com materiais e instalações simples, pretende provocar interpretações simbólicas e culturais singulares, reações de todos os que são capazes de construir a visão artística do que apenas foi enunciado.

Trata-se da inversão do mito da caverna de Platão. Antigamente o artista era o personagem que, através do “ícone sublime”, fazia aparecer a divindade no público considerado como incapaz de comparticipar da beleza dos deuses, própria aos divinos artistas. Agora, trata-se de uma demissão do papel divino do fazedor de arte, para que caiba aos outros o papel de criadores autónomos, trata-se agora da possibilidade de toda a gente poder participar neste duplo jogo de produzir e usufruir da arte, transpondo este passo que separa o artista do não artista.

A artisticidade de Beuys é o quotidiano, acessível a toda a gente, processo contínuo, obra aberta para todos os imaginários que na participação, no debate e na ação solidária vão criando mudança de vida.Percebendo a fundamentação do seu pensamento e reconhecendo a autenticidade da sua vida, podemos compreender melhor o alcance da sua obra.

A guerra representou, certamente, na sua vida um elemento central.Beuys, ele próprio, “designou o tempo de guerra uma experiência cultural e como artista pôde incorporá-la na sua obra”.  Primeiramente, a situação de suportar uma guerra como um destino na frente militar. Soldado raso, não queria submeter-se às regras de obediência, porém, obrigado pela “máquina de guerra”, enfrentou a experiência da morte.

Em 1941, Beuys com 20 anos, toma conhecimento da obra de Rudolf Steiner, através do seu amigo Fritz Rothemburg que viria a morrer no campo de concentração de Gachsennhausen, em 1943. Joseph Beuys frequentou os grupos de antropósofos em Dusseldorf. Por essa altura retém a ideia da “unidade na multiplicidade”, dos quatro níveis do homem: corpo físico, corpo etéreo, corpo astral e o “Eu”. A relação que estabelece com a natureza vai marcar a influência da antroposofia de Steiner.Também o “conceito ampliado de arte”, a plástica ou a “escultura social”, traduzem uma ideia latente na problemática estética de Rudolf Steiner – arte como totalidade da vida. E ainda, a perspectiva de que “cada homem é um artista” sublinha a estratégia pedagógica de Rudolf Steiner, que ao fundar o movimento das Escolas Livres Waldorf, pretendia uma formação que integrasse a atividade artística como elemento essencial do programa curricular.

Joseph Beuys ao fundar ainda a “Universidade Livre Internacional” procurou através das “ações” e “instalações”, organizar um movimento que, para além de uma estratégia cultural, articulasse os princípios da tripartição social de Steiner: liberdade total ao nível da cultura e aspirações espirituais, igualdade jurídica ou idênticas oportunidades sociais e fraternidade económica ou cooperação nas necessidades vitais.

Num outro exemplo de “performance”, nos Estados Unidos da América, – “Coyote. I like America and America likes me” – Beuys procura articular vários arquétipos, para estabelecer sinais com significado profundo. O coiote é um pequeno lobo, símbolo mágico dos índios da América. Ao encerrar-se num espaço fechado em que procura o diálogo com o animal selvagem, ele estabelece uma ponte entre o “cão e o lobo” que se encontram no coiote e também no próprio homem. Esta performance permite revelar a possibilidade de conectar as rupturas e de as “sanar” mostrando que o paradoxal não é destituído de sentido. Ao contrário, o paradoxo manifesta o real que é contraditório, em busca da criação através do jogo, do humor e do amor.

Joseph Beuys foi, durante a sua própria vida, sujeito a opiniões contraditórias.Deixou-nos, porém, a sua vida singular como testemunho de uma arte original. Os objetos que ele legou, alguns vendidos agora a peso de ouro, as aquarelas ou os “objetos”, pretextos pedagógicos das suas “Ações culturais”, estão expostos em museus e galerias de todo o mundo.Embalsamaram talvez a vida própria das suas criações. Mas, ao mesmo tempo, perpetuaram paradoxalmente memórias que continuam subversivas quando decifradas novamente. Se o Terno de Feltro de Beuys tivesse ficado no armário seria apenas uma peça de vestuário, bem como o vaso sanitário de Duchamp.

O movimento, o fluxo da sua vida e a metamorfose da sua arte nas múltiplas açõescoletivas a que chamou arte social, tinham que ver com a sua figura de chapéu de feltro, com uma voz forte e os gestos de um ator , lançando a força mágica e criativa da sua mensagem: criar com e para os outros!

Essa voz e esses gestos continuam, mesmo depois da sua morte em 23 de Janeiro de 1986, em Dusseldorf. É que a força seminal do seu projeto não se esgotou no seu tempo.Beuys é um Max Stirner da estética. A sua postura e a filosofia da sua arte, exigem uma subversão ontológica de conceitos e de atitudes. Exigem processos de ruptura culturais e civilizacionais que estão a ser abalados com a transição do paradigma em que vivemos.A questão ecológica, assim como a consciência planetária que a população está em vias de consolidar em torno de uma nova solidariedade gerada paradoxalmente pelo egoísmo da globalização neoliberal, concentracionária e destruidora da biosfera, é a base objetiva e alargada para dar corpo ao pioneirismo de Joseph Beuys.

Para que o leitor não leia esse texto e ache tudo uma droga e o que presta mesmo é Picasso, é necessário entender que uma instalação ou intervenção não é criada para se colocar na sala e mostrar aos amigos. Uma instalação objetiva causar estranhamento e provocar discussões. Imagine um monte de melancias num depósito de supermercado. Não há nada de mais nisso, certo? Claro que não, afinal ela está no lugar que todos estamos acostumados a ver. Agora, pense se essas melancias estivessem em pleno MAM de São Paulo, distribuídos aleatoriamente e com uma faixa escrita Democracia, certamente causaria estranhamento e, principalmente, nos provocaria. Eis o segredo. Tudo que provoca estranhes, reflexão e nos leva a ter aquela sensação de estar perdido sem compreender é arte. Em linhas gerais é isso. Sugiro que os amigos leitores e amigas leitoras vejam o trabalho de Daniel Lima Santiago para compreender um pouco mais. Lembrando sempre que gostar ou não é pessoal e intransferível.

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