Doze anos de Metalinguagem!

Divulgação

Baseado na obra de Osman Lins, Lisbela e o Prisioneiro traz o filme dentro do filme

 Por: Adriano Portela

Doze anos marcam uma parceria entre dois pernambucanos que nem ao menos se conheceram, o escritor Osman Lins e o diretor de TV e Cinema Guel Arraes; o fator de ligação, podemos resumir que está centrado na figura de dois principais personagens: Lisbela e o Prisioneiro. Texto e filme ainda cativam público e crítica, e uma hipótese para esse carisma pode estar na linguagem adotada em ambos os produtos. Agosto é o mês de aniversário da obra cinematográfica.

“Lisbela e o Prisioneiro” é uma peça de teatro osmaniana. O texto original foi escrito e encenado pela primeira vez em 1961, no teatro Mesbla do Rio de Janeiro, pela Companhia Tonia-Celi-Autran. O enredo se passa na cadeia pública de Vitória de Santo Antão. Lisbela é filha do delegado, o Tenente Guedes, e noiva do advogado Noêmio. A jovem se interessa por Leléu, uma mistura de conquistador com artista de circo. Na trama outros personagens também ganham destaque. O eixo central da peça está no triângulo amoroso entre Lisbela, Noêmio e Leléu; o conflito: Leléu é preso por tentar conquistar Lisbela e perseguido por ter se envolvido com a mulher do matador Evandro.  O texto, segundo a pesquisadora e doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), Sandra Nitrini, é uma comédia de caracteres e com uma estrutura tradicional, com exposição, desenvolvimento, falso clímax, clímax, desfecho de situações vivenciadas por personagens nordestinos muito bem amarrados.

Quem foi Osman Lins?

Nascido em Vitória de Santo Antão, zona da mata pernambucana, Osman Lins é autor de peças de teatro, contos, romances e ensaios. O romance “Avalovara” (1973) é considerado pelos pesquisadores e por seus leitores como a sua obra prima. Já no final da vida, o vitoriense chegou a escrever direto para a mídia televisão, resultante dos “Casos Especiais”, programa transmitido em 1978 pela Rede Globo. As narrativas foram: “A Ilha no Espaço”, “Quem era Shirley Temple?” e “Marcha Fúnebre”. Depois vieram as adaptações; em 1981 a TV Cultura exibiu “O Fiel e a Pedra”; Em 1993, a peça “Lisbela e o Prisioneiro” foi levada para a TV.

Guel e Lisbela

O cineasta pernambucano, Miguel Arraes de Alencar Filho, é – podemos dizer -, quase um personagem de “Lisbela”. Guel Arraes, como é conhecido, é um profissional que se mostra interessado no cruzamento das linguagens. Em 1993 ele dirigiu uma série da Rede Globo, chamada “Terça Nobre”, onde os programas eram adaptações dos clássicos da literatura nacional. Uma delas foi, justamente, “Lisbela e o Prisioneiro”. Em 2000, Guel retomou o texto do vitoriense, só que dessa vez, a adaptação foi para o teatro, três anos mais tarde, os mesmos atores da peça seguiram com o diretor para o cinema. No roteiro, Arraes teve o suporte dos cineastas Jorge Furtado e Pedro Cardoso, na direção musical, a parceria foi com o pernambucano e também cineasta e dramaturgo João Falcão. O filme levou mais de três milhões de espectadores pagantes ao cinema, ocupando o sétimo lugar no ranking (dados da Ancine referentes ao ano 2003 www.ancine.gov.br).

O que danado é Metalinguagem?

Metalinguagem é, nada mais nada menos, do que uma linguagem falando de outra linguagem, por exemplo: um filme que fala sobre filme, uma canção que aborda outra canção, uma peça teatral que retrate outra peça. E isso ocorre muito em “Lisbela”. O ponto de partida é o texto original:

Lapiau – Se me lembro? Ora se! Peça formidável era aquela: “Meu Único Progenitor”.

Leléu – E “A Paixão de Cristo”, rapaz. Aquilo é que era uma peça. Quarenta e dois atos.

Lapiau – Quarenta e seis.

Jaborandi – Danou-se. Nem uma série.

A primeira vista podemos até passar despercebido, mas parando para refletir, compreendemos que “Lisbela” é um texto teatral fazendo referência a outra peça de teatro. O escritor e professor Affonso Romano de Sant’Anna nos esclarece, na sua obra Paródia e Paráfrase (1988), que recentemente a especialização da arte levou os artistas a dialogarem não com a realidade aparente das coisas, mas com a realidade da própria imagem.

Na TV e, no cinema, principalmente, o uso da metalinguagem é mais presente, tendo como alvo o envolvimento do espectador, despertando o seu interesse pela obra. Em “Lisbela e o Prisioneiro” a diegese (universo fictício, temporal e espacialmente concebido, manifestado ou implícito num filme) – tanto no produto veiculado na TV como nas telonas -, se dá, diversas vezes, nos encontros dentro do cinema. É lá que eles assistem os filmes em preto e branco, namoram, brigam, tentam se resolver, e também é o local onde acontece o desfecho da história.

No artefato metalinguagem, a crítica ganha corpo, mostrando que situações que acontecem lá fora, como nas tramas de Hollywood, podem ocorrer no Brasil, e porque não no nordeste. Arraes aproveita o humor crítico de Osman Lins e acrescenta seu arsenal de técnicas para mostrar o filme dentro do filme, unido o cômico à análise, provocando e, ao mesmo tempo, levando o distanciando entre espectador e objeto.

Os números, já citados anteriormente, mostram que “Lisbela” fora um sucesso de bilheteria e isto vem provar que o filme conseguiu estabelecer uma identificação com o público; essa é uma das inúmeras possibilidades oferecidas pela metalinguagem. Em “Lisbela” essa empatia com o público vem estampada na primeira cena, onde a mocinha e Douglas estão no cinema. O espectador se identifica com o casal procurando o lugar certo para sentar, um local que não fique nem muito perto da tela nem muito longe e sim, com brechas para que possam ver bem. Lisbela mostra-se fascinada pelo mundo do cinema e vai contando para o noivo como procedem as cenas da comédia romântica que assistem; Douglas aparenta ter bem menos conhecimento em relação à sétima arte e está ali mesmo é para namorar. Quando a mocinha principia a contar as cenas, passa-se a ter uma interação com o espectador, o qual parece querer opinar, sugestionar. Ele acaba se encontrando “dentro da narrativa”.

Lisbela – Eu adoro essa parte. A luz vai se apagando devagarzinho. O mundo lá fora vai se apagando devagarzinho. Os olhos da gente vão se abrindo. Daqui a pouco a gente não vai mais nem lembrar que tá aqui.

Douglas – É preto no branco.

(Transcrição do filme Lisbela e o Prisioneiro).

Existem momentos em que a metalinguagem acontece em níveis variados, em uma delas Lisbela está sozinha dentro do cinema, quando Leléu aparece; os dois, além de estarem vivendo algo semelhante ao que acontece na película projetada, começam a conversar sobre cinema e o contexto do diálogo se realiza na telona; quando eles estão falando sobre história de amor, ao fundo o casal do filme vive momentos felizes.

Leléu – a senhora tem vontade de ser artista de cinema, é?

Lisbela – E meu filho, eu não sou nem americana pra ser artista.

Leléu – Minha filha, nunca ouviu falar em artista nacional, não?

Lisbela – Uma história de amor bonita mesmo, só nesses filmes.

Leléu – É? Quando a mocinha é nacional é bom que o beijo já vem traduzido.

Lisbela – Deixa de ser besta que eu não lhe dei essa ousadia.

(Transcrição do filme Lisbela e o Prisioneiro).

Perto do desfecho da obra, a técnica se repete. Lisbela havia terminado o relacionamento com Douglas e estava no cinema esperando por Leléu. O “herói” chega ao final do filme que a mocinha estava assistindo. Percebendo algo de estranho, ela antecipa a sua fala:

“Veio dizer que vai embora. É igualzinho no cinema. A mocinha está ansiosa esperando o mocinho e finalmente eles se reencontram. Ele vem se aproximando e ela acha que é para dar um beijo. Mas aí ela vê que o rosto dele está preocupado demais para isso.” (Transcrição do filme Lisbela e o Prisioneiro).

Até na cena da cadeia o diálogo metalinguístico é desenvolvido. Depois do beijo, Leléu questiona se aquele fora o beijo do casamento, ela nega e diz que foi o da despedida; o herói pergunta se ela não sabe que todo filme de amor se acaba em beijo. “Sei. Mas já acabou a luz do cinema. E agora vai começar a minha vida”. No desenlace da história, quando Leléu e Lisbela estão no caminhão, o diretor reforça ainda mais suas técnicas e coloca de vez o espectador na história.

Lisbela – Mas agora eu me sinto num filme de verdade.

Leléu – É? Lisbela e o Prisioneiro. O nosso filme nunca vai ter fim.

Lisbela – Espera um pouquinho.

Leléu – Que foi?

Lisbela – É que o melhor do cinema é o jeito como termina.

Leléu – E como é isso, heim?

Lisbela – Adivinha?

Leléu – Com todo mundo olhando.

Lisbela – É só no começo. Depois o filme acaba.

Leléu – Então tá bom da gente se apressar, porque o povo já entendeu que ta acabando e é capaz de começar a sair sem prestar mais atenção na gente.

Lisbela (olhando para câmera) – Mas talvez nessa sala tenha pelo menos um casal apaixonado que vai assisitir até o finalzinho. E mesmo depois que o filme acabar, eles vão ficar parados um tempão até o cinema esvaziar todinho. E aí vão se mexendo devagar como se estivessem acordando depois de sonhar com a história da gente.

Leléu – tomara que eles tenham gostado.

(Transcrição do filme Lisbela e o Prisioneiro).

Após o beijo, o cenário passa a ser a sala de cinema e na tela surgem Leléu e Lisbela, entra lettering (texto que aparecer na imagem): “Fim”; as pessoas vão saindo até sobrar um casal na sala. Os dois são os últimos a sair, são eles, justamente, Leléu e Lisbela. Guel, por fim, acaba conseguindo a identificação ainda maior de um público em particular, os casais apaixonados que frequentam o cinema. E para fechar com ainda mais elementos metalinguísticos, João Falcão utiliza uma música de sua autoria junto com André Moraes e gravada pela banda Cordel do Fogo Encantado.

O amor é filme.

Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama.

Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica.

Da felicidade, da dúvida, da dor de barriga.

É drama, aventura, mentira, comédia romântica.

(Letra de “O amor é filme”. Disponível em: http://letras.mus.br/lirinha/238132/)

Enfim

Podemos, se não for ousadia da nossa parte, ultimar que a própria obra “Lisbela e o Prisioneiro” – seja ela peça de teatro, especial para TV ou cinema -, é, por si só, metalingüística, e essa ferramenta parece provocar fascínio no grande público, é como se o espectador passa-se a fazer parte da construção do filme. Falar em “Lisbela” é se reportar, automaticamente, a uma linguagem discorrendo sobre outra linguagem. Osman, no livro Guerra Sem Testemunhas (1978), em suas indagações em relação à Indústria Cultural questionou: “poderá um romancista, um poeta, levar-lhes contribuições, não porém a eles aderir, abandonando o livro.”. Talvez o nosso escritor tenha morrido sem a conclusão para a sua reflexão; mas, o fato é que, sem abandonar o texto original, “Lisbela” invade a Indústria, aproveita todas as oportunidades, e contribui para os processos da literatura, do teatro, do cinema e das pesquisas acadêmicas, tornando este texto que você acabou de ler, quem sabe, em um possível documento metalinguístico. E como num palimpsesto, cada um vai escrevendo a sua “Lisbela e o Prisioneiro”.

Adriano Portela é jornalista, autor do romance A última volta do ponteiro (prêmio internacional José de Alencar 2012, pela UBE-RJ), co-autor da coletânea de contos Enquanto durar a noite, mestrando em Teoria da Literatura pela UFPE, diretor de cinema e editor deste portal.

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