Do olhar sobre si: sobre a série “Estrangeiro em mim” de Claudia Elias

Por Danuza Lima (Escritora, mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, professora)

13819619_1005782322853367_1310461887_n

Em cada lugar, um olhar, neste olhar, a natureza, a identidade de um ser em construção, aprendiz da esfera de mútua construção de si e do outro também. Os tempos rápidos, impiedosos, nos fazem desaprender a arte do olhar, do estar aqui, ali e ser-se o Eu-mesmo. Buscamos nos lugares a completude de nós mesmos, na esperança de encontramos uma parte nossa perdida, por vezes até, depositamos valor incomensurável as coisas e invalidamos sentimentos e pessoas. Acabamos por sufocar o grito dentro de algo que desconhecemos, mas não conseguimos resolver o problema de nós mesmos: Ser-se. Habitualmente, nos tornamos estrangeiros de nós mesmos, por não sabermos interpretar nossos próprios silêncios, gestos e ações.

Sob essa ótica e para além dela, a artista visual e pesquisadora, Claudia Elias (RJ) apresenta a série fotográfica “Estrangeiro em mim” de 2012, acessível ao público na “Mostra Bienal de Novos Artistas” na Caixa Cultural.

É constrangedor aos olhos constatar no relance de olhar a nossa incomunicabilidade com nós mesmos, diante da série apresentada por Claudia. Isso porque as imagens tornam-se capazes de realçar em nós, a quase esquecida faculdade de pensar-no-outro através do olhar sobre mim-mesmo. As lições de Julia Kristeva, sobre a questão do estrangeiro, respigam conscientemente após o contato com a obra de Claudia. Segundo a filósofa, escritora e crítica, em famosa obra: “Estrangeiros para nós mesmos”, “estranhamente, o estrangeiro habita em nós: ele é a face oculta da nossa identidade, o espaço que arruína a nossa morada, o tempo em que se afundaram o entendimento e a simpatia” (Kristeva, 1994, p.9). E se este estrangeiro que nos habita somos nós mesmos? Esta é a questão central da série fotográfica criada pela artista carioca. Kristeva nos apresenta o conceito de “estrangeiro”, ambientando-nos neste cenário de incongruências e xenofobias, Claudia, nos leva à questão ontológica do “Ser-se”.   

A sequência de fotografias, mostra uma jovem em meio a diversas paisagens, ao todo seis, tendo a cabeça coberta por um saco de pano amarrado na altura do pescoço. Dispostas de forma linear, cabe ao espectador acompanhar um seguimento de imagens performáticas, sensíveis, dotadas de olhar ético sobre si mesmo, a demonstrar nossa eterna aprendizagem de nós mesmos para o entendimento do Outro, este “sair-de-si-para-o-outro”, herança demais necessária deixada pelo filósofo lituano Emmanuel Levinas.

13819839_1005782026186730_1052649044_n

Em uma das imagens (a segunda da série), é possível ver a jovem junto a um cachorro que registra a presença da câmera, enquanto ela, pano na cabeça, parece estar presente no espaço, mas ausente, desconhecida de si mesma. Difícil encontrar a fotografia mais íntima dentro de nós mesmos, este talvez seja um dos grandes objetivos da fotografia contemporânea, não a representação, mas a transparência e ação de refração do espectador diante da obra. Convém relembrar as palavras de Susan Sontag no essencial, “Diante da dor dos outros”: 

as fotografias transformam e ampliam as nossas noções do que vale a pena e do que pode ser observado. São uma ética da visão. Seu resultado mais significativo é dar-nos a sensação de que nossa cabeça pode conter o mundo – como uma antologia da imagem (SONTAG, 1986, p. 13).

Esta ética da visão nos convida a esta ação permanente do olhar a si mesmo para “sair-de-si-para-o-outro”. A série apresentada por Claudia Elias não sugere (o que tantos podem afirmar): completa similitude com a obra da performática anarquista e efusiva, nascida em Denver, EUA, Francesca Woodman, verdadeiro vulto sensorial do início dos anos 20. Muito mais que isso, Claudia consegue transmutar com desenvoltura nesta sua pesquisa constante sobre esta geografia do abandono, não só retratando os lugares que mais íntimos que nossa relação com eles, configuram uma verdadeira poética da estranheza de nós a partir do resultado desse cartão de visitas lançado pela série: Ser-se está além de uma simples análise, é preciso extrair as amarras, viver para além dos lugares, para além de si, conhecido de si mesmo.

Serviço:

Mostra Bienal e Novos Artistas

Caixa Cultural, 12/07 à 21/08

Entrada gratuita

Terça a sábado, das 10 às 20 horas. Domingo, das 10 às 17 horas.

Você também vai gostar:

Nelson Rodrigues em “A desconhecida”, de “A vida como ela é”
Rock and roll na moldura

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>