Diferentes pontos de vista, mesma história

arts-graphics-2008_1184341aTiago Eloy Zaidan

Um evento em Salamanca, na Espanha, reúne chefes de Estado de todo o mundo para discutir um acordo entre as nações ocidentais e o mundo árabe. Dentre as autoridades presentes, está o presidente dos Estados Unidos, o qual é o principal alvo de um grupo terrorista. Agentes secretos norte-americanos entram em ação para proteger o homem mais poderoso do mundo.

Se você imagina que esta passagem pertence a mais um filme de ação de Hollywood, acertou. Vantage Point (EUA, 2008, 90 min.), Ponto de Vista – no Brasil, é um filme de suspense tecnicamente digno de nota. Os efeitos especiais são primorosos e a organização do enredo pós-moderno não possui a linearidade clássica da maioria dos filmes do século XX. Diversos olhares sobre um atentado terrorista durante uma reunião de cúpula se entrecruzam, a começar pela controversa apreciação de uma emissora de televisão norte-americana. Na passagem, logo no início, uma jornalista se vê tolhida pela diretora, a qual, nitidamente, procura privilegiar uma cobertura favorável aos esforços da política externa estadunidense – tradicionalmente belicosa.

Se no começo, Ponto de Vista transmite uma percepção crítica, o mesmo não ocorre no transcorrer do filme. O enredo passa a se focar nos efeitos das cenas de ação. A falta da linearidade clássica na montagem do enredo – que volta ao ponto inicial repetidamente, para ser contado sempre sob um ponto de vista diferente – funciona, ampliando a tensão. No entanto, o conteúdo reflexivo sobre a política externa americana e a participação dos meios de comunicação na construção  de um contexto favorável para as ações militares dos Estados Unidos saem de cena.

Aqui, como em outras infinitas produções, o presidente norte-americano é praticamente invencível. Mantém-se racional, mesmo nos momentos mais periclitantes, e evita o pior ao não autorizar uma reação dura ao atentado sugerida por um de seus assessores. Dennis Quaid, no papel do agente de segurança do presidente, é convincente. Seu personagem também não representa novidade alguma. Trata-se de um herói solitário – traído por um colega que se revela mais tarde colaborador dos terroristas. Suas iniciativas individuais refletem a persona política e econômica da sociedade norte-americana, a do liberal individualista, cujos empreendimentos particulares, sem a participação de um coletivo traiçoeiro, dão o rumo da história.

Bom filme se o objetivo é entretenimento. E se a sensação de deja vu não for problema para o espectador.

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