De Pernambuco se vê o mundo

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Por Clodoaldo Turcato (artista plástico, jornalista, escritor)

Eu amo a cidade de Recife e todos sabem disso. Para os que não a conhecem, no final da Avenida Conde da Boa Vista cruza a Rua da Aurora e a sua direita o melhor cinema que já tive a oportunidade estar. Não pela qualidade tecnológica, pois os Shoppings daqui têm 3D, Imax e outros aparatos que enganam e fazem qualquer filme ruim parecer bom. Não se trata disso. No entanto é a arquitetura, a beleza interna, o conforto e os ótimos filmes que passam por lá, subsidiados pelo Governo do Estado.

Toda vez que chego àPonte Duarte Coelho estico os olhos para ver a programação, anunciado em letreiros ao estilo francês, sem luzes, aparatos tecnológicos: a crua letra rosa e grande. Ontem vi em cartaz o Título Cicero Dias o compadre de Picasso. Um documentário premiado lançado no Brasil em rede nacional este final de semana. Claro que não vai às massas, mas nesses cineminhas legais com prédios antigos ou desleixados por estes cantos que não sossegam de sonhar.

Então vi o trailer. Pareceu-me um documentário típico com grandes nomes da arte brasileira falando de Cicero Dias , demonstrando o respeito a arte notável que praticou  em vida e o respeito que o grande Picasso tinha por ele. Ele, um Pernambucano de Escada, filho de donos de Engenho, que com treze anos foi ao Rio de Janeiro e nunca se formou na Arquitetura e Pintura da Escola Nacional de Belas Artes. Decidiu ir por si só, com o que sabia.

Em 1928 realiza sua primeira exposição individual. Em 1929 colabora com a revista Antropofagia. Em 1931 realizou uma exposição no Salão Revolucionário, da Escola de Belas Artes, onde expôs o polêmico painel de 15 metros de largura por 2 metros de altura, pintado entre 1926 e 1929, que causou escândalo pelo tamanho, pelas imagens oníricas e pelos nus ousados para a época. A obra marcaria seu ingresso, definitivo, na vanguarda modernista do país.

A partir de 1932, passa a lecionar desenho em seu ateliê na cidade do Recife. No ano seguinte ilustra a obra de Gilberto Freire, Casa Grande & Senzala. Em 1937 expôs em Nova Iorque numa coletiva de modernistas. Nesse mesmo ano viajou para Paris, onde conheceu Henri Matisse e Pablo Picasso, de quem se tornaria amigo.Em 1942, durante a ocupação da França, foi preso e enviado para a Alemanha. Entre 1943 e 1945, vive em Lisboa como Adido Cultural da Embaixada do Brasil. Em 1943 participa do Salão de Arte Moderna em Lisboa, onde foi premiado. Em 1945 volta a Paris e integra-se ao grupo abstrato Espace. Nesse mesmo ano expõe e Londres, em Paris e em Amsterdam.

Em 1948, no Brasil, realizou intensas atividades especialmente com murais. Inaugura o mural do edifício da Secretaria de Finanças do Estado de Pernambuco, considerado o primeiro trabalho abstrato da América Latina. Em 1949, esteve na Exposição de Arte Mural em Avinhão, na França. Em 1950 participou da Bienal em Veneza. Em 1953, expôs na II Bienal de São Paulo. Em 1965, realizou na Bienal de Veneza, uma exposição retrospectiva de quarenta anos de pintura.Em 1970, Cícero Dias realizou individuais no Recife, Rio de Janeiro e em São Paulo. Em 1980 foram instalados dois painéis no hall central da Casa da Cultura, no Recife, que representam as Revoluções Pernambucanas. Em 1981, o MAM realizou uma retrospectiva de sua obra. Em 1991 inaugura um painel de 20 metros na Estação Brigadeiro do Metrô de São Paulo. Em 1998 recebe do governo francês a Ordem Nacional do Mérito da França.

Para quem quiser explorar a cidade, no Marco Zero, ponto turístico conhecido da cidade temos rosa-dos-ventos, estilizada, estampada no chão da Praça do Marco Zero, cartão postal da cidade do Recife.  Ao primeiro olhar no ela encanta pelo grande impacto que causa e pela dimensão de um trabalho elaborado de maneira simples, porém impressionantemente estarrecedor. Cicero invade nossas entranhas com sua varinha mágica que nunca nos deixa parar de navegar pelas cores e formas.

Di Cavalcanti tinha razão quando convidou Cicero Dias para morar na França: ele não tinha mais nada a aprender. Não com o Brasil, mas com a arte. Estava pronto e a Europa seria o único canto do mundo para que pudesse brilhar. Esta é uma das grandes dúvidas que sempre tive e Cicero Dias reforça esta interrogação: será que a técnica não acaba com a espontaneidade? Revendo alguns trabalhos meus vejo orelhas fora do lugar, olhos sem conotação, braços e pernas desproporcionais e me angustia, pois queria ter um desenho melhor. Porém, ao ver Cicero Dias (longe de me comparar) percebo que isto é da natureza dele e um bom desenho não representa uma boa obra… Já falamos disso, muito aqui.

Ver as obras de Cicero Dias, agora narrada em cinema, é um banho de alegria e de um encanto e certeza de que o artista é alguém diferente, alguém que vê o mundo com olhos da alma, se matematicamente está morto, financeiramente (quase sempre pior), ele voa em letras, cenas e principalmente em ilustrações ou telas.

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