Das obras e óperas das palavras

Mapa do novo mundoPor: Danuza Lima

“Cada poeta é um pulsar no rio da linguagem”

O poeta é um desterrado, natural e estrangeiro de sua própria terra, cria e decifra enigmas, paranormal das vozes vivas como bem o definiu o crítico mexicano, também poeta, Octavio Paz. São por estes e outros motivos que é preciso termos nos labirintos da leitura, a certeza de num encontro possível, encontrar uma poesia dúctil, regida pela mão firme do poeta, vinculada ao seu tempo, mas enovelada pelas linhas suturadas de um tempo passado. Poesia e história pertecem a mundos distintos, mas fazem-se peças fundamentais para a interpretação do homem, assim podemos dizer que a poesia não evolui como a história, mas funda a cada emanação imagética uma nova história.

Temos por estes tempos, exemplos firmes de uma poética forte, de vozes exemplares, o atual cenário de nossa poesia contemporânea, em especial a pernambucana, comporta nomes e títulos vibrantes, já é possível fazer as famosas listas de nomes consideráveis da produção poética contemporânea, mas acrescento, mesmo esta lista que tenho cá comigo, incluindo nomes como Wilson Freire, Fábio Andrade, Micheliny Verunschk, Gerusa Leal, um novo cenário – de projeções futuras, sim, mas salutares – produzida por aqui. Sim, já é o tempo próspero para Adélia Coelho Flôr, Camillo José, Renata Pimentel e Jonatas Onofre (Estes últimos dos tempos de livros engavetados)  figurarem tempos novos, movidos à vapor, fustigações maquínicas e reflexões díspares do fazer poético.

Neste sentido, chega as minhas mãos, “Opusfabula”, livro de estreia de Jonatas Onofre, a ser lançado pela Editora Cepe ainda este mês. Nascido na cidade de Paulista, na qual estrangeiro se faz, criado em Igarassu, cidade que o ensinou a ser estrangeiro de si mesmo. Jonatas deposita nas mãos do leitor o fruto de um trabalho antigo, mas como o próprio poeta registra, “passível ainda à defesa”.

Opusfabula representa o que de experimental pôde fazer-se em tempos iniciais de escrita e maturação de um estilo – que ao meu ver – delinia-se com mais firmeza hoje, quase quatro anos depois do feitio do livro.  Se “o silêncio está prenhe de significado”[1], as imagens projetadas no livro parecem advindas deste zona fronteiriça: silêncio/metáfora. É nas “lacunas” estruturais do verso que encontro um silêncio característico da poética de Jonatas. Espaços “vazios”, cheios de significações e a aparelhagem imagética a pedir do leitor, caçador desses versos, atenção, estás em terras estrangeiras. E é sob terras estranhas, que o longo poema historiciza em ficção-poética, o nascimento de uma terra, erguida sob os escombros da dor, da violência e de um falso sentimento de vitória – não, não entendo este poema como uma exaltação – de um povo. Se todo poeta, um dia canta a sua terra, Jonatas Onofre (des)encanta a sua, fazendo o leitor crer em sua inocência diante da descoberta “do novo mundo”: Igara-açu, é “negar o risco à palavra neutra?” (E perdoe-me o poeta pela linealidade do verso). A resposta vem à galope e tem o leitor nas  mãos o retrato atípico de um tempo, mesmo dosado a uma antiga receita: o homem, um povo, uma terra, a ideia epopeica de Opusfabula, a desolação de um campo minado por corpos dilacerados, preenchidos pelos “tentáculos de navalha e deserto do silêncio”[2], bem ao gosto de um musical operístico.

Espero que o leitor, assim como eu, receba Opusfabula com a aparente sisudez e desconfiança de quem pisa no chão de olhos vendados e esteja pronto a tornar-se estrangeiro de terras conhecidas.

Poeta e Músico, Jonatas Onofre tem poemas publicados no Brasil e no exterior, edita o zine Telegráfo da Noite, juntamente com o poeta Zizo e é curador da NAUvoadora, escreveu os livros de poesia OPUSFABULA (2011) e Entre o Tigre e o Eufrates (2012 – 2015), ainda inédito e gravou o álbum ZINE (2014).

Blog: laminalucida.blogspot.com.br

Danuza Lima é contista, poetisa, professora e mestranda em Teoria da Literatura pela UFPE.


[1] PAZ, Octavio. O arco e a lira.

[2] Livre paráfrase dos versos: “abra(a palavra)çando

o silêncio

                  com seus tentáculos

de navalha e deserto”

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