Conto: O Colunista literário

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Alexandre escreve para um jornal da cidade. Ele assina a coluna de textos literários. Só que hoje, ele parece estar sem ideias.

“Tenho que escrever esse conto o mais rápido possível. Ah… para meu editor é muito fácil, mandar e cobrar resultado imediato. E o leitor, esse é o que mais critica. Se por um acaso eu falar que estou sem cabeça para criação, ele logo ironiza: ‘Está resmungando é? Você é escritor ou não é?’. Eles pensam que é fácil, que escrever é um ato mecânico, pois não é”, desabafava consigo.

O jornalista aborrecia-se só de lembrar as vezes em que tentou se empenhar no trabalho literário e foi atrapalhado. Na manhã da última terça-feira só foi o tempo de digitar a primeira linha, que a esposa veio aos gritos: “…o gás acabou de novo. Há dois meses que eu pago. Te vira, não tenho mais grana”. Pronto, foi embora metade da história de Alexandre. Mas pior mesmo foi quando ele escolheu a madrugada como refúgio. Desta vez a prima foi o empecilho. Por causa de uma paixão mal resolvida ela tentou se matar tomando dez comprimidos, desses que são controlados e que possuem uma tarja preta na embalagem. Por esses fatores, que antes mesmo de começar a escrever ele já imaginava o que pudesse acontecer.

O conto rascunhado, na realidade, era para o dia seguinte, só que o editor resolveu antecipar o pedido. “Ele pensa que não tenho obstáculos na minha vida. Que tudo é rápido e simples. Tá maluco é?!?”, pensava em dizer ao seu superior, mas não tinha coragem.

“Tenho que me concentrar e começar a pensar em algo que valha a pena. Mas o que será nessa vida que vale a pena?”, imaginava Alexandre.

Foi, justamente, nessa indagação que ele teve uma ideia. Descobriu que para ele, valer a pena, de verdade, é ser ele mesmo: um homem que escreve, tem seus atrapalhos e desafios, e vive em sempre em busca da intuição, em vez da inspiração, como já ensinava o escritor pernambucano, Raimundo Carrero. Então, ele telefonou para o editor.

-Aquiles! É Alexandre.

-Diga querido. Já terminou o texto?

-Não escrevi.

-Como assim?

-Ele já estava pronto. Na verdade eu peguei de um amigo meu, que escreveu sobre mim depois de um desabafo que fiz. O conto fala sobre o que realmente vale a pena na vida de alguém. Não se preocupe com direitos autorais, eles foram cedidos. E esta será a primeira história em que o título aparecerá no final.

-Está bem. Esperarei.

O que é que vale a pena?

Adriano Portela – jornalista

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