Conceitos e preconceitos nossos de cada dia

13936817_1021482777949821_1988517591_nPor Clodoaldo Turcato (artista plástico, escritor, jornalista)

Caro amigo e amiga, em algum momento de sua vida certamente olhou para um quadro e ficou sem saber se aquela obra prestava ou não. Eu pelo menos tive esta sensação de ignorância completa inúmeras vezes. De qualquer maneira, se você estiver assim é sinal de que está no caminho certo, que quer compreender e que um quadro lhe aguçou curiosidade e se essa curiosidade levar ao estudo, então compreenderá em breve.

Alguns mitos em artes rodearam minha vida de passeante. Uma das coisas que eu mais falava era “como dois riscos podem valer tanto?” Ou “qual o significado deste monte de tinta jogada numa tela?” Leigos me garantiam que o quadro Monalisa valia pela moldura de ouro e nada mais que isso. Arte para mim era uma desenho em feito, algo que mostrasse uma cena como fotografia. Até o cubismo eu suportava em minha rede de conhecimento, daí em diante tudo me parecia loucura de gente que não tinha nada o que fazer.

Então não se desespere, o estudo é a melhor saída. O estudo não significa somente livros, mas participar de eventos, conversar com artistas, ler demonstrações e assim ir pegando o jeito, compreendendo os movimentos, as técnicas, os modelos e diferenciar uma boa obra de uma obra sem expressão.

Eu sugiro a todos que se dispam de preconceitos. É natural que tenhamos predileção por determinada escola de arte. Logo, é fácil achar ruins trabalhos que não apreciamos. Isso não é bom, por que estaremos conceituando de maneira errônea. Eu não gosto de surrealismo. Nunca compraria um quadro de Salvador Dalí, no entanto é inegável que seja um gênio. A arte tem que estar acima do pessoal, sempre.

Outra dúvida comum é o suporte: tela, papel, madeira, cimento, gesso… o que valoriza mais o trabalho? Já escrevemos aqui sobre isso e dei uma escala de suportes e tintas, baseado no cânone artístico vigente. No entanto eu discordo em grande parte dessas classificações. Acredito que uma obra não deva ser avaliada somente pelo material aplicado. O comprador que o fizer estará interessado em decorar um ambiente e não em apreciar uma tela. Então qualquer tela pintado com óleo seria a escolha. Monalisa foi pintada em madeira e A grande onda de Kanagawa em papel. As duas obras são marcos da arte. Temos outras obras feitas em afrescos, aquarelas geniais, grafites incríveis… enfim, toda sorte de grandes obras utilizando diversos suportes, técnicas e tintas. Então é fácil prever que a teoria de quem uma tela em óleo tem mais valor que um grafite paira como bobagem. Logo que você compreender a arte, esses conceitos irão cair por terra.

Uma dica fundamental que sempre dou é de nunca dar ouvidos aos palpiteiros. Sempre que alguém falar de arte, procure ver até onde a pessoa realmente entende , o quanto estudou, as peças que adquiriu, os museus que visitou e principalmente se não é um vendedor de quadros em óleo. Mesmo com experientes precisamos ter cautela, pois o lado pessoal costuma entrar em cena e pode levar ao léu a cultura necessária para compreensão de uma obra.

Uma opinião não basta. Você precisa formar seu conceito, estar aberto às novidades, ao que te aparece e procurar levar adiante a máxima de não navegar em águas rasas. Arte não vem por acaso, ela tem inúmeros fatores que  distinguem um bom de um mau trabalho.

Caso você esteja pensando em investir dinheiro para lucrar com arte, toda minha retórica muda um pouco. Se você for um investidor conservador vai comprar obras de grandes artistas e fincadas no mercado. Caso seja um investidor ousado, poderá arriscar em novos artistas. Daí que tantos prefiram não arriscar e cravar apenas em peças renomadas. Isso não quer dizer que sejam boas peças, porém é inegável que o mercado de arte é igual a qualquer outro, valendo a lei da oferta e procura. Muito similar é o mercado de vinhos, muitos rótulos são comprados para não ser consumidos, como muitos quadros são trancafiados em cofres. E qual a vantagem de uma obra ser guardada? Cabe ao investidor responder.

Agora, se você estiver comprando pelo prazer que o trabalho lhe dá, terá muito mais liberdade. Poderá até comprar coisas baratas, pequenas e sem qualquer respaldo artístico. Comprará o que te fizer bem e fim de conversa.

Mesmo assim, ninguém conseguirá ter a fórmula para qualificar um trabalho sem um mínimo de preconceito. A arte não é aritmética que vai aventar o que é bom ou ruim. Não se faz uma conta e fim. O mesmo se diz do preço de uma tela. As variáveis são muitas e podem acabar nos trancando num quartinho comum de medo. O comprador de arte precisa estar pronto para escolher e algumas vezes errar, ou então assumir que gosta daquilo e fim. Cada qual tem direito de escolha.

Que danado, não é? Tantas linhas para não responder nada. A arte não responde coisa alguma, não muda o mundo e tantas vezes mata de fome: fantástico, não? Entre neste mundo e posso te garantir que não sairá mais. 

Você também vai gostar:

Alunos de escola pública invadem o mundo audiovisual
A arte ótica

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>