Charlie Hebdo: Ataque terrorista ou xenofobia à flor da pele?

unnamedPor Jorge Mortean 

A injustificável chacina ocorrida em 7 de janeiro de 2015, em Paris, expõe um trágico quadro social atual na Europa: a xenofobia extrema e a irresponsabilidade social e governamental europeia sobre este tema tão importante. Gastam-se milhões no combate ao terrorismo internacional – grande parte hoje criado pela xenofobia e pela torpe insistência política do Ocidente em dar “a sua versão” do Oriente -, mas quase nada se faz para combater a xenofobia. 

Cidadãos franceses, filhos e netos de imigrantes que ocuparam a maioria dos empregos os quais os franceses se recusavam a fazer, computam hoje 19% da população e, pelo fato de a França ser um Estado-nação e não uma nação multicultural enfrentam seríssimas barreiras para sua integração àquela sociedade, mesmo gozando dos mesmos direitos e deveres como qualquer outro cidadão, independentemente da sua raiz étnica ou religiosa. 

O que se viu hoje na redação da revista Charlie Hebdo foi uma gota d’água no balde xenófobo francês, em forma de retaliação sociocultural, onde uma maioria não só depende desta minoria mas como também a oprime. São pessoas de uma mesma nacionalidade que consideram outras, pertencentes a um grupo religioso minoritário, como cidadãos de “segunda classe” – atitude perigosa já vista outrora em uma Alemanha nazista. Uma humilhação social descabida. 

Frequentemente confunde-se liberdade com libertinagem. Independentemente da religião, fazer chacota com a fé alheia não é “um ato de liberdade de expressão qualquer dentro de uma democracia”, mas sim, uma demonstração de imaturidade e imbecilidade sociais sem tamanho, uma piada de extremo mal gosto. Retomemos, então, aquele bom e velho ditado e regra básica de convivência (e sobrevivência): respeitar para ser respeitado. 

Assim como todo ato de censura é injustificável, a liberdade de imprensa e a democracia não podem ser justificativas para ofensas gratuitas, ao contrário – a imprensa, responsável pela promoção de uma comunicação de cunho social, e a democracia, que propulsiona o bom convívio entre diferentes cidadãos, deveriam servir para melhor educar toda a nação e não incitá-la às suas diferenças. Isso, sim, reflete uma sociedade responsável para com ela mesma. 

Este será o prumo que tanto a sociedade como os Estados europeus, sobretudo o francês, terão de adotar em suas políticas sociais a partir de agora: promoção à tolerância, sobretudo religiosa. Ao que indicam as recentes agitações políticas no Velho Continente, infelizmente agora veremos uma França preparada para combater o “terrorismo doméstico” ao invés da xenofobia. Uma lástima, pois se Paris passasse a despender mais tempo e dinheiro com integração nacional, talvez esse episódio trágico jamais tivesse acontecido.

* Jorge Mortean é geógrafo, bacharel pela Universidade de São Paulo (USP), mestre em Estudos Regionais do Oriente Médio. Pesquisador das relações diplomáticas entre a América Latina e o Oriente Médio, é doutorando em Geografia Política, também pela USP e Professor do curso de Relações Internacionais da FAAP – Fundação Armando Alvares Penteado.

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