Cactos

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Por Danuza Lima

Parecia bobagem pensar que o tudo que construíram juntos parecia ter se tornado algo solto, um misturado qualquer de qualquer coisa envelhecida. Então, preferiu não pensar mais naquilo que parecia bobagem, e dedicou-se a – aparentemente árdua – tarefa de plantar cactos.

Eram de todos os tamanhos, mini-cactos, cactos grandes, cactos medianos. “é bom plantar e criar cactos porque só precisa regar uma vez por dia ou algumas vezes na semana”, dizia ele. Logo ele que regou tantos os olhos do outro, encharcou muitos lençóis, guardanapos, lenços e panos – era sempre sensível demais para os sentimentos humanos – .

Um dia cismou que cacto não deveria ter espinho.  Arrancou um por um, os espinhos de todos os cactos verdes, escuros, roliços e tortos, erguidos e curvos, assim, sem dó nem tampouco piedade – Há tempos que não havia piedade em sua vida –. Derreteu-se em lágrimas quando avistou todos peladinhos. Passou a semana incomodado, incompleto, sentindo os espinhos saírem de seu corpo, rasgando junto com as feridas, as lembranças, as músicas, os livros, os sons.

Decidiu acabar definitivamente com aquele sofrimento: foi ao quintal, pegou pá, areia, cavou bem o fundo da cova, enterrou os pés. Plantou-se ali. Esperava que os espinhos enfim brotassem ao invés de sair. Esperou pela eternidade infinita a ranhura dos espinhos.

Danuza Lima é escritora e mestranda em Teoria da Literatura pela UFPE.

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