As meninas, de Velázquez, é um quadro que poderia ser um vídeo

Por Clodoaldo Turcato

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Já escrevi neste espaço sobre este artista e sua obra, com outra perspectiva e intenção. Neste texto quero fazer melhor, dar uma guinada e mudar o olhar para que se compreenda a grandeza de uma tela que mudou conceitos sobre a arte. Sim, caro leitor e leitora, poucas obras tem esse lugar: As meninas.

O conceito histórico da obra eu escrevi aqui. Portanto, meu caro e cara, basta voltar no tempo ou nos meus textos para reler. Avante!

O título data apenas do século XIX e pouco diz sobre o significado desta tela que se transformou em perene desafio a análises e interpretações. O cenário é o estúdio do artista: a Infanta Margarida-Teresa, a filha de cinco anos do rei Felipe IV da Espanha, está no centro da tela, cercada por suas damas de honra, um casal de criados, uma anã e uma criança. O rei Felipe IV e a rainha Mariana da Áustria aparecem refletidos no espelho, bem atrás da cabeça da infanta, e são os modelos que o pintor mira orgulhoso diante do grande cavalete, o último e mais belo de seus autorretratos. Olhando os soberanos, na verdade o pintor olha para o espectador que contempla sua tela. Ao autorretratar-se enquanto pinta o quadro com o par real, Velázquez propõe o tema do quadro dentro do próprio quadro e é atraído para o interior de um jogo labiríntico entre os espaços interior e exterior.

A imagem do rei e da rainha no espelho tem suscitado muitas controvérsias. Alguns acreditam que represente os soberanos posando para o artista. Outros, apenas o reflexo de um retrato pendurado na parede oposta. Mas não há documentação a respeito de nenhuma tela como esta de autoria de Velásquez. Qualquer que seja a interpretação, o espelho é um hábil recurso para sugerir a presença dos soberanos. O retrato ofuscado tem relação com a decadência do Império, que após perder a guerra dos 30 anos padecia de carência econômica e política, além de o Rei ter perdido há pouco tempo sua esposa, mãe da Infanta Margarida.

 A luz da janela cobre a Infanta Margarida, um sinal dos novos tempos, esperança para o país e seu povo, um oráculo no caminho das incertezas daquele momento. A recusa da menina em receber o copo com água representaria a repulsa dos monarcas pelos menos favorecidos, distância entre as classes sociais e subserviência de castas, comum naquela época.

 Os demais planos são gradualmente mais opacos e estão submersos em distâncias criadas pelo movimento da luz. Esta obra também aponta para o futuro, porque Velázquez conferiu à luz um papel de destaque, antecipando assim a questão fundamental dos impressionistas.

 A anã Mari Bárbola aparece no canto direito da tela. Os traços pesados dela criam um patético contraste com a delicadeza da infanta. O outro anão é Nicolás de Pertusato, que apoia o pé nas costas do cão tranquilo, fato que indica familiaridade e despreocupação em relação a tudo o que o rodeia, como se no palácio fosse normal assistir às sessões de pintura de Velázquez. Os retratos dos bobos da corte formam um núcleo importante da produção retratista do pintor e serão muito admirados por Goya e Manet.

 O artista se promove ao final, já que era o pintor oficial da corte e, num quadro primoroso, expôs os dois lados da nobreza, numa crítica sútil, quase imperceptível diante de tanta maestria. As mãos do artista parecem que se movimentam com rapidez entre a paleta e a tela. A Cruz da Ordem de Santiago em seu peito é uma adição posterior, pois esta honraria lhe foi concedida em 1659.

No vão da escada, que abre para um novo espaço para além da composição, enquadra-se uma figura parada no meio dos degraus. Trata-se de José Nieto, primeiro-chefe tapeceiro da rainha e futuro hóspede-mor do palácio. Um outro jogo de ilusões, de imagens que se entrecruzam.Em redor da princesa estão as damas de companhia, guardas, acompanhantes, dois anões e até um cão. Ao lado deste grupo, Vélasquez retratou-se a si mesmo olhando para o observador. E como se esta não fosse uma aparição invulgar, ao fundo pode ver-se um espelho onde estão surgem os reis, Felipe IV da Espanha e Maria Ana de Áustria. O teto representa uma grande área escura, que lembra o estilo barroco. Os suportes não possuem candelabros, mas direcionam o olhar para o fundo da sala, sendo que um deles aponta para o espelho com a imagem dos reis. Na parede lateral, à direita, é usado um jogo de luz e sombras, com o objetivo de ampliar a ilusão de profundidade do espaço, onde se desenrola a cena. Embora a luz diurna entre por uma das janelas desta parede, existem também outras fontes de luz a modelar as sombras.

O que significa esta imagem? Vélasquez coloca o observador na pele dos reis, por isso é que os vemos no espelho ao fundo da sala. Assim sendo, o quadro conta o momento em que o pintor estaria a retratar os reis e eles próprios estariam hipoteticamente a pintar a restante corte ao lado de Vélasquez. Outra teoria, contudo, admite que a corte terá entrado na sala de trabalho do artista para vê-lo a trabalhar. A princesa pediu água a uma das damas, que a está a servir. Entretanto, os reis entraram na sala e a corte começou a reagir, fazendo reverência aos monarcas.

Outra teoria sobre a composição de As Meninas está relacionada com a astronomia: diz que todas as pessoas presentes no lado esquerdo do quadro representam as estrelas da constelação de Corona Borealis, vista no hemisfério norte do planeta, cuja estrela alfa também é chamada “Margarita Coronae”, tal como o nome da princesa. Além disso, pode haver propriedades matemáticas na imagem, com a utilização da razão áurea, à semelhança de muitas outras obras artísticas.

Por ter captado o instante exato, em que tudo parece estar em ação, é que a obra de Velázquez é tida como pioneira do impressionismo. Suas cores são discretas, com escassez delas na parte superior, com destaque para o branco, cinza e negro das vestimentas, que trazem minúcias em vermelho. Ao apresentar os anões e o belo cão, Velázquez aproxima-se do impressionismo, também. Não existe unanimidade em relação a quem (ou o quê) estava sendo retratado pelo artista. Uma das suposições é que se tratava do casal real, mas também poderia ser o retrato da princesa, embora ela se encontre atrás do pintor. O certo é que a composição é bastante intrigante.

Caro amigo e cara amiga que está em busca da resposta para a pergunta sobre o que é arte ou não? Fica fácil diante de uma obra consenso. No entanto, o que mais me impressiona neste quadro é a forma como ele capta o movimento e define bem o claro e escuro. Sobre todas as teorias que se formaram, o certo, para mim, é que o pintor está em seu trabalho e o Rei e Rainha chegam de repente, sem aviso, e todos os olhos se voltam para os soberanos. Ao nos deter na obra, esquecemos que é uma tela e não um vídeo, de tanto movimento.

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