Arte Postal, a primeira rede social efetiva da humanidade

Quando se fala em rede social nos dias atuais, com toda a sua magnitude de possibilidades e efeitos sociais, é comum o leitor imaginar que se trata de um termo atrelado a expansão da internet e a maneira como ela hoje invade nossos caminhos. Ledo engano. As redes sociais são bem mais antigas do que se imagina. Basta retomarmos aos tempos dos Renascentistas quando Rafael, Leonardo da Vinci, Michelangelo, Tintoretto se reuniam, o que a cara leitora imagina que conversavam? Provavelmente dos reis, dos modos e modinhas de então e arte. O mesmo, imagino, ocorreria quando Cèzzane, Monet, Manet, Renoir, Surreat estivessem numa mesa dos belos cafés parisienses: arte.

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A rede social é um local onde pessoas tratam de temas comuns. Hoje temos difundido páginas, grupos e círculos onde cada qual trata daquilo que lhe interessam e gostam. A diferença é que para isso se utilizam de um equipamento eletrônico.

De tudo, uma das redes sociais ou redes de arte mais impressionantes que existe é a Arte Postal. Na década de 1960, correspondências trocadas entre artistas plásticos deram origem a mais uma forma de expressão da arte contemporânea: a arte postal (mail art). Nessa mesma época, Ray Johnson cria, em Nova York, nos Estados Unidos, a Correspondance Art School (Escola de Arte por Correspondência). Em 1963, Ray Johnson escreve uma carta num envelope, usando a frente e o verso. Ele rompe, assim, com o conceito de privado e reproduz, de maneira pública, dialogando com outra pessoa, a sua aparente intimidade.

A mail art consistia em trocar mensagens criativas utilizando o sistema de correios. Ela surgiu como uma alternativa aos meios convencionais das exposições de arte (Bienais, Salões, etc.) e tem características próprias do período em que apareceu (dialoga, portanto, com a Guerra Fria, no contexto mundial, ou com a ditadura militar, no contexto brasileiro). Ou seja, seu objetivo era veicular informação, protesto e denúncia. A arte postal se caracteriza por ser um meio de expressão livre, no qual envelopes, telegramas, selos ou carimbos postais são alguns dos suportes em que é possível a expressão da sensibilidade. Os artistas utilizam, principalmente, técnicas como colagens, fotografia, escrita ou pintura. A única limitação real à utilização de diferentes técnicas e suportes é a possibilidade de envio dos trabalhos pelo correio.

Nos anos 60, a arte postal foi uma forma de expressão entre artistas que se conheciam. Porém, na década de 70, todos os interessados em fazer arte já podiam participar – e, a partir de 1980, museus e universidades começaram a valorizar a arte postal. No Brasil, a Arte Postal chegou num momento de censura, quando muitos artistas, para poderem se expressar, acabam aderindo à Arte Conceitual – e, portanto, a uma de suas formas, a Arte Postal. As primeiras manifestações na América do Sul aconteceram em meados dos anos 60. Na Argentina, Eduardo Antônio Vigo editava a revista “Diagonal Cero”, a “Hexágono 70” e posteriormente “Nuestro Libro Internacional de Estampillas y Matasellos”, o Uruguaio Clemente Padín a “Los Huevos de Plata” e “Ovum”, o chileno GuilhermoDeisler a “EdicionesMinbre” e o poeta chileno DámasoOgaz dirigia na Venezuela a revista “La Pata de Palo”. Estes grandes nomes iniciavam intenso intercâmbio postal através de suas publicações. E em 1970 no Brasil, Pedro Lyra publica um manifesto de Arte Postal. Em 1974, em Montevidéu, acontece a primeira exposição documentada de Arte Postal da América Latina – “Festival de La Postal Creativa”. A partir daí o movimento se dinamiza acontecendo mostras como “Última Exposición Internacional de Arte Postal” realizada por Eduardo Antonio Vigo e HoracioZabala, em La Plata, 1975, e, no mesmo ano, no Brasil, a “Primeira Exposição Internacional de Arte Postal” organizado por Daniel Santiago,Paulo Brucksy e Ypiranga Filho,cá em Recife, Pernambuco.

Os artistas postais ao apropriarem-se do sistema epistolar criaram um novo modo de circulação de arte, que rompeu com o circuito de galerias e museus e ampliou as possibilidades tanto de consumo como de produção de arte a nível internacional, em uma época na qual ainda não havia internet e o acesso a informação era muito mais restrito.Além disso, muitas propostas são colaborativas e/ou anônimas, dissolvendo-se nessa atitude conceitos como autoria e originalidade da obra de arte.O principal resultado produzido pela arte postal é a criação de uma rede de comunicação e intercâmbio em que os artistas podem expressar suas tendências e concepções e também receber informações que lhes permitam abordar novos campos sem a necessidade de projetar algo concreto ou que está ligado a um padrão. É uma rede de comunicação que, se já conseguiu alcançar uma extensão notável desde o início, graças aos novos canais de comunicação, para os quais praticamente não há fronteiras, continua a desenvolver-se constantemente.

O caráter aberto do fluxo de trabalho não apenas aponta para a multiplicidade de significados, a liberdade de seleção do suporte, para a desconstrução linguística, mas éfrequentemente direcionado para a investigação dos possíveis efeitos que o fato pode sofrer artística se modificarmos os elementos do sistema de comunicação em que é contextualizado; por exemplo, o canal. E foi precisamente isso que chamou a atenção do grande protagonista da arte do cartão postal, de Ray Johnson, que em 1962 criou a Escola de Arte de Correspondência de Nova York, considerada a primeira escola de arte de correspondência. Com isso foi nomeada a preocupação da escola Fluxus e atividades que já começaram, entre outros, Marcel Duchamp, que viajou de Paris para Nova York com sua “garrafa de ar” ou os futuristas italianos Giacomo Balla ou Pannaqqui , que através do correio enviou peças, cartões com desenhos, etc.

Há 60 anos, desde o seu nascimento oficial, o espírito defendido pelo fluxus e levado à máxima expressão por Johnson ainda está em vigor. Prova disso é que ainda há chamadas para reuniões de artistas de correio de diferentes países que compartilhem sua maneira de entender a arte, graças a que, segundo eles, estão crescendo constantemente.

Aqui em Recife temos um dos representantes da Arte Postal no mundo: Daniel Lima Santiago. Artista exuberante e produtivo desenvolve e expõe pelas novas redes sociais seus trabalhos com a mesma garra do início de sua carreira grandiosa.

Portanto, caro leitor e leitora, quando estiver envolvido com seus equipamentos ultramodernos, nunca esqueça que as redes sociais que você se utiliza hoje teve grande influência da arte postal. E cá pra nós, era muito mais belo. 

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