Arte e expressão artística: vamos colocar o dedo na ferida

Por Clodoaldo Turcato (artista plástico, jornalista, escritor)

A nossa tentativa em levar algumas linhas semanais sobre artes plásticas não tem o intuito de desmistificar, decifrar ou então dar uma fórmula ao complexo enredo que envolve arte, principalmente na eterna pergunta “de como medir o valor financeiro de uma obra”. Essa necessidade de mensurar o trabalho de um artista surgiu a partir da Revolução Industrial e principalmente do consumismo, além dos desarrolhos do mercado de arte, que mais complicam que explicam. Nesse caldo todo, eu, com meu conhecimento de menininho de cabaré,vou escrevendo minhas visões diante de alguma experiência. Portanto, querida amiga, você vai encontrar escritos bem mais interessantes e aprofundados, já que para o que a coluna propõe e preciso ser abrangente e escrever semanalmente a esmo. Então, ao estudante de arte sugiro leituras mais específicas, como livros de Ferreira Gullar, por exemplo, que é o nosso melhor crítico no Brasil. De qualquer forma, vamos em frente, seguindo esse caminho, tateando e tentando expor algumas considerações que fará o leitor se interessar e procurar aprofundar-se mais em seus estudos e claro, adquirir boas para suas coleções.

Opa! Então existem boas obras? Existem más obras? Este é uma ferida que poucos críticos tocam, sob o pretexto que estão sendo excludentes. Assim, a crítica de arte perdeu e muito nos últimos anos a sua função, já que ela se permeia pela opinião pública manipulada pela grande mídia.  O medo de ir contra uma opinião formada por uma maioria que aceita o que a televisão diz que é bom, criou um grande buraco e gerou uma confusão entre expressão de arte e arte.

E tem diferença entre expressão artística e arte? Oras, claro que tem!

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Marcel Duchamp decretou em 1917 que o quadro como suporte de arte tinha morrido. Quando expôs seu mictório no Salão Independente  de Paris, gerou uma ruptura contra o status geral daquele mundo controlado pelo Estado, que determinava o que era arte. O seu ato corajoso despertou em toda horda de artista no mundo uma luz que tirou do pedestal de deuses artistas. Enquanto teve seus benefícios, um conceito errôneo de que todos podem ser artistas e tudo é arte. Então um monte de terra no meio de um salão passou a  ser arte. Um cavalo pintado de verde num museu passou a ser arte. Corpos nus pintados viram pincéis para serem arrastados e os borrões criados por este processo passam a ser arte. Um homem se masturbando embaixo de uma marquise improvisada na Bienal de Veneza vira arte.  Esta bizarrice é aprovada pela nova crítica que vem em tudo isso expressão genuína e aufere a arte artesanal um segundo plano, algo conservador, atrasado, morto.

Então vamos tentar diferenciar estas duas coisas. Imagina a Senhora que vai a uma exposição onde um monte de arrames reforçados, cobertos com restos de telhas, barbantes e alguma luz neon esteja exposta como sendo o suprassumo da novidade artística. Logo que estrar,  a Senhora vai estar ansiosa, afinal a televisão disse que o negócio é uma parada. Ao deparar-se com a tal peça a primeira pergunta que virá será “o que significa isso?” Certamente estará presente uma pessoa “esclarecida” para explicar o significado daquela magistral escultura. Vão lhe dizer que se trata de valorização do meio-ambiente (peça chave para ouvidos leigos), uma ruptura com o velho (bingo) e algo como as veias do mundo em nosso pequeno mundo burguês que demonstra o quanto somos matéria e etc. Tudo isso não vai tirar a sensação de que aquilo não significa mais que um monte de bugigangas. Mas a Senhora vai sorrir e dizer que achou interessante, lindo talvez, por que alguém escreveu bem sobre o grande artista. Então eu lhe perguntaria: A senhora levaria para sua casa esta escultura? Colocaria num espaço de sua casa? Levaria algum amigo seu para ver a quinquilharia paga cara que poderia ser feita com restos encontrados em construção civil? Certamente que não. Aquela expressão de arte tem o tempo da exposição, depois será desmontada e jogada no lixão mais próximo. Fim. Acabou.

Imaginemos outro cenário. A Senhora vai a uma exposição de quadros. Lá está algo que lhe parece menos estranho, embora possa te incomodar. Cada peça fala por si só. Se for um grande artista, vai levar a Senhora a comtemplar a beleza, as nuances, o modelo, a escola, o tipo de técnica, o gestual e principalmente a Senhora não se envergonharia de colocar em algum espaço da sala ou então guardar num cofre de banco para investimento. Estarás diante de uma obra de arte.  O quadro será um quadro sempre, até o fim, até que seja consumido pelo tempo e dependendo do cuidado do comprador poderá durar milênios.

Basicamente é este conceito que precisa ser resgatado. O modelo de arte do século XX tentou destruir a milenar cultura pictórica artesanal que norteou toda a construção artística da humanidade ocidental. Isto foi um erro. Os futuristas decretaram que uma obra não poderia estar contida num quadro, o quadro seria parte da obra e deveria estar exposta. Logo, qualquer moldura se torna uma obra e deve ser aceita. Um monte de fezes conservado numa lata plástica deve ser aceito. Um pedaço de pepino na cabeça de um asno é fina arte. E por que isso aconteceu?

Quando os impressionistas resolveram abandonar o Salão de Paris e toda a teoria acumulada por séculos para captaram as cores e a vida fora do ateliê, sem a preocupação de esconder a  força da pincelada, o cotidiano das pessoas e ignorando os rígidos conceitos de forma, desenho e cor, eles não estava somente sendo rebeldes. Estavam acompanhando um processo no mundo da indústria. As cidades estavam se enchendo de gente, a revolução industrial em curso e o anseio por novidades eram evidentes. A vida estava ficando melhor, as pessoas com alguns recursos podiam buscar acesso a coisas diferentes e a ebulição vigente criou novos preceitos que se estendeu aos jovens artistas como Monet, Manet, Renoir, Degas, Píssaro, Morisoti, Seurat, Cassat, etc, que tentaram revelar este novo mundo em seus trabalhos. Por trás disto estava uma busca de mercado pura simples. Lembremos que quem determinava o comércio era o Salão de Paris, vinculado o Estado Francês. Fora dele as peças caiam, eram desconsideradas. Então o Salão Independente dos Impressionistas tinha a função mercadológica sim! Se o amigo leitor tiver tempo, basta pesquisar a situação financeira inicial de Monet e Manet antes do sucesso. Era mendigantes, vendendo barato, sujeitando-se a qualquer ofício para manter-se vivo e conseguir o sucesso posterior, que quando veio os levou ao Olimpo e tornaram-se a vanguarda artística mundial.

A crítica ferrenha feita aos impressionistas no começo criou a culpa quanto ao novo. A partir de então os especialistas se amedrontaram e passaram a aceitar o novo como algo libertador, dando abertura para muitas aberrações.  Falar mal de um artista novo significaria oprimir o novo onde todos viraram artistas e qualquer manifestação passou a ser considerado uma radical exposição de bom gosto. Aliado a este cenário, a televisão que vive de novidade, de impulso e longe de qualquer pretensão que não seja a audiência, o público em geral vê, mas não sabe o que dizer e fazer diante de tanta quinquilharia pendurada pelas exposições e bienais.

Cara Senhora, sugiro que ao olhar uma manifestação artística faça seguinte pergunta: como isso fora deste espaço de galeria ou museu não vai soar ridículo? Imagine o que leva um filho a expor a própria mãe fazendo sexo e levar isso para uma exposição de fotografias como finesse. O fotógrafo americano Leigh Ledare, 37, foi além de uma das fantasias mais difíceis de administrar. Não só imaginou, como assistiu e fotografou Tina Peterson, sua mãe, transando.E não parou por aí. As fotos foram divulgadas ao público, que pode ver a mãe dele, uma ex-bailarina profissional, fazendo sexo com homens mais jovens. Sem cortes.O trabalho de Ledare desperta a curiosidade e o debate em Londres na exposição “Duras Verdades: Fotografia, Maternidade e Identidade, realizada no mês passado. Torne a se perguntar: isso é arte? Isso não se encerra por si e para quem servirá? Se não conseguir a resposta, certamente a Senhora vai desconfiar que aquilo está ai apenas para chocar as pessoas, tornar o artista onda do momento e vender algumas palestras e quiçá aquarelas ruins.

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