Arte dos ingênuos

309437Por Clodoaldo Turcato

Em 1895 Pablo Picasso era o grande nome das artes plásticas mundiais. Não era apenas um pintor, mas uma celebridade a tal ponto que pagava seus jantares com desenhos feitos em minutos e sem assinatura, pois se assinasse compraria o restaurante. Certa tarde topou num bricabraque na rue des Martyrs, em Montmartre, com a pintura Retrato de uma mulher, de Henri Rousseau, um ex-coletor de impostos metido a pintar. A obra estava sendo vendida como uma tela de segunda mão a ser reutilizada por algum pintor empobrecido.  “… tomou conta de mim”, disse.  De um artista esnobado e ridicularizado pelas grandes galerias, Rousseau passou a ser admirado pelos artistas boêmios de Paris como Picasso, Robert Delaunay,  Gertrude Stein, Juan Gris, Fernand Olivier, Apollinaire e Georges Braque.  Em 1909 suas obras foram compradas pelos influentes marchands Ambroise Vollard e Joseph Brummer.  Rousseau morreu em 1910 respeitado como um grande artista.

Certa noite, em fins de 1912, o colecionador alemão Wilhelm Uhde estava num jantar “chato” com a alta sociedade de Senlis, França, quando viu no canto da sala um quadro pintado sobre madeira um belo floral. Intrigado Wilhelm pergunta de quem é a pintura. A dona da casa, uma Senhora, muito rica responde que é de Séraphine, sua doméstica, metida a pintora.  Quanto custa a obra? Questiona Wilhelm Uhde. Para que vai querer uma bobagem destas? Retruca anfitriã. Wilhelm levou a tela de graça. A doméstica era Séraphine Louis.  De vida extremamente simples, trabalhava limpando casas e exercendo pequenos afazeres. Com o (pouco) dinheiro que ganhava, comprava o mínimo e o essencial para exercer seu então hobby oculto: a pintura. As cores, retirava da natureza de suas mais variadas formas. Desde o vermelho do sangue de um bovino (trabalhava por vezes num açougue), o marrom do barro nas margens de um rio, da terra de um cemitério, e o amarelo de pequenas margaridas de jardins alheios.  Sua jornada de trabalho durava praticamente o dia inteiro. À noite, pintava. Dormia vez por outra em cima de suas próprias produções, ou nos intervalos que encontrava em seus afazeres. Por acaso ou não, Séraphine começa a trabalhar na casa de Uhde e com este a incentiva a seguir pintando.  Porém, devido a guerra, Uhde é obrigado a deixar a França em 1914 e só volta encontrar Séraphine em 1927 quando passa a adquiri as obras dela. Sem preparo, Séraphine passa a gastar tudo que ganha e com a crise de 1929 o comércio de artes é duramente afetado e em 1932 é internada no Hospital Psiquiátrico de Clermont com diagnóstico de Psicose Crônica. Morre internada na miséria absoluta.

Em 1980  foi ao ar pelo Programa Fantástico da TV Globo uma reportagem sobre as condições da Colônia Juliano Moreira, Rio, feita por Samuel Wainer Filho, expos ao mundo, “sem querer”, um gênio escondido: Arthur Bispo do Rosário. Até então se sabia  que um  louco criava peças a partir de objetos que encontrava na rua, na própria colônia, sobrepondo com lindos bordados. Dois anos depois, o crítico de arte Frederico Morais inclui suas obras na exposição À Margem da Vida, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM/RJ. Em 1995, com uma vasta seleção de peças, Bispo representa o Brasil na Bienal de Veneza e obtém reconhecimento internacional.

O que estes três nomes (teríamos tantos outros) tem em comum?  Respondo: eles nunca tiveram um minuto de aprendizado em arte. Todos aqui citados são o que se chama de artistas Naifs. Arte Naif ou arte ingênua, é a arte produzida por artistas sem formação acadêmica. Caracteriza-se pela falta dos elementos formais da arte tradicional ocidental, como  a perspectiva, harmonia cromática, composição, desenho clássico com correção anatômica, ou mesmo referências tradicionais das pinturas de gênero. Isto não significa que não estudem e aperfeiçoem de modo auto didático e experimental o desenvolvimento das suas obras, e não implica que a exigência de qualidade das mesmas seja inferior.

A capacidade artística é um dom inato no ser humano e não existem técnicas, regras ou dogmas que, quando ele realmente está presente, lhe possam atrofiar qualidade e retirar valor. A Arte Naif não se enquadra também na designação de Arte Popular, diferindo dela na medida em que se trata de um trabalho de criação individual que apresenta peças artísticas únicas e originais. Caracteriza-se em termos gerais por uma aparente simplicidade e pela liberdade que o autor tem para relacionar ou desagregar, a seu belo prazer, determinados elementos considerados formais; a inexistência de perspectiva, a desregulação da composição, a irrealidade dos fatos ou a aplicação de paletas de cores chocantes. A Arte Naif exprime ainda, de um modo geral, alegria, felicidade, espontaneidade e imaginários complexos, resultando, às vezes, todo este conjunto numa beleza aparentemente desequilibrada,  mas sempre muito sugestiva.

Alguns críticos afirmam que, contrastando com os “académicos”, que pintam com o cérebro, os “ingénuos” pintam só com a alma. Esta parece ser a verdadeira essência do Naif. Quando você olhar para obras de Henri Rousseau, Séraphine Louis e Bispo do Rosário, certamente vai exclamar: não acredito que eles nunca estiveram numa academia de artes. Pois bem, em arte tudo é possível.

Semana que vem tentaremos entender a Gioconda ou Monalisa.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem.

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2 comments on “Arte dos ingênuos

  1. Belissima pesquiza , estou encantada Parabens amigo Clodoaldo Turcato

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