Arte abstrata não é somente uma pintura, mas uma canção

14975886_1101648976599867_1542261933_oPor Clodoaldo Turcato

Certa feita recebi um presente de uma amigo artista plástico. Era um quadro em papel cheio de formas e cores, pintados com lápis de cor. Lindo. Tentei imediatamente encontrar o sentido daquilo, o significado, a estória por trás daquela obra. Sem êxito em minha busca, perguntei ao pintor o que significava aquilo. Nada e tudo, respondeu-me. Em seguida me deu um livro sobre arte abstrata. Foi meu primeiro estudo sério de arte: eu precisava entender o significado daquilo tudo, daquelas formas e montar uma imagem conclusiva. Nunca consegui. Porém hoje quando olho para a tela de meu amigo, compreendo que arte abstrata não foi feita para ser compreendida e sorriu como se ouvisse uma bela canção. Este sentimento “de não entender nada” ocorre com muita gente. E voltamos a velha fórmula: arte precisa ser estudada. No entanto, se você não está disposto a estudar, sugiro que veja uma tela abstrata como uma música clássica e ouça os violinos ressonando em seu ouvido.

A arte abstrata designa pinturas ou esculturas que não imitam ou mesmo tentam representar um objeto físico, como uma casa ou um cão. Fazê-lo seria um fracasso aos olhos do artista abstrato, que visa produzir uma obra de arte que seja uma façanha da imaginação, em que sejamos incapazes de reconhecer alguma coisa de nosso mundo conhecido. Por vezes ela é chamada de “arte não figurativa”. Você conhece esse tipo de coisa, aqueles rabiscos e quadrados aparentemente aleatórios que nos levam a pensar: “Uma criança de cinco anos poderia ter feito isso.” O que poderia ser o caso, mas na realidade é muito improvável. É algo surpreendentemente difícil definir com clareza o que é que torna essas linhas de alguma maneira diferentes daquelas que você ou eu poderíamos desenhar, mas existe alguma coisa. Há algo relacionado à sua fluidez, ou composição, ou forma, que leva milhões de nós às galerias de arte moderna para verpintores como Mark Rothko e Wassily Kandinsky. De alguma maneira eles conseguiram arranjar suas formas e pinceladas em desenhos capazes de estabelecer uma conexão significativa conosco, sem que saibamos como ou por quê. A verdade é que a arte abstrata encerra certo mistério; algo que confunde nossos cérebros racionais quando acreditamos que pinturas e esculturas precisam contar uma história. Trata-se de uma ideia complexa que é tipicamente expressada de maneira simples. 

Seria possível afirmar que Édouard Manet começou tudo isso em meados do século XIX, quando começou a eliminar (abstrair) detalhes pictóricos em suas pinturas, como O bebedor de absinto, um óleo sobre tela de 180 X 105 cm. Cada geração subsequente de artistas eliminou um pouco mais de informação visual numa tentativa de apreender a luminosidade atmosférica (impressionismo), acentuar as qualidades emotivas da cor (fauvismo) ou olhar para um tema de múltiplos pontos de vista (cubismo). Olhando para trás, parece inevitável que esse processo levaria por fim à eliminação de todos os detalhes e ao advento da arte moderna. Manet e seus sucessores haviam definido seu papel como artistas numa era pós-fotográfica como o de um observador social, filósofo e “profeta”, que expõe as verdades escondidas da vida. A câmera os libertara do trabalho de produzir semelhança para garantir o próprio sustento e lhes permitia explorar novas formas de representação que poderiam provocar no espectador pensamentos e sentimentos antes inexplorados.

FrantisekKupka fazia parte do movimento artístico cubofuturista surgido em Paris que Apollinaire havia chamado de orfismo. Em 1910 ele começou a produzir telas que estavam acima da compreensão óbvia: pinturas coloridas que não forneciam nenhuma pista sobre seu tema. Para todo mundo, exceto o próprio artista e seu círculo mais chegado, elas não consistiam em nada além de formas indefinidas. The FirstStep, de Kupka, um óleo sobre tela 150X 95 cm, é um dos primeiros exemplos de sua incursão experimental na arte abstrata. A pintura resume-se a uma série de círculos e discos pintados sobre um fundo preto. O círculo mais dominante está situado na metade superior da tela, no centro, é grande, branco e cortado no alto como um ovo cozido, com uma seção esquerda inferior que se superpõe marginalmente a um disco cinza ligeiramente menor. Pendendo num arco em volta desses dois discos maiores há um colar de onze e meia pastilhas azuis e vermelhas. Cada uma dessas pequenas formas redondas está emoldurada dentro de um círculo verde. À esquerda da pintura há um grande anel vermelho que corta todos os discos ao estilo de um diagrama de Venn. E pronto.

The FirstStep não é a imagem de coisa alguma, é totalmente abstrato. A pintura é uma investigação por Kupka de nossa relação com o espaço exterior e o Universo: uma alegoria visual da interconectividade entre o Sol, a Lua e os planetas (o que torna seu título impressionantemente presciente). Kupka está registrando alguns pensamentos na tela, não retratando um tema específico. Dois anos depois, Robert Delaunay, o artista a quem se atribui a fundação do orfismo, fez seu movimento em direção à arte abstrata com uma pintura que se provaria extremamente influente. Disco simultâneo, um óleo sobre tela de 89X90 cm, iria inspirar a vanguarda alemã e, um pouco mais tarde, os expressionistas abstratos norte-americanos. À primeira vista, a tela parece um alvo multicolorido para dardos. Mais uma vez, como no caso de The FirstStep, não há nenhum tema físico óbvio. Mas há uma diferença crucial em relação ao trabalho de Kupka: neste caso não há nenhuma alusão a um objeto físico, de natureza interplanetária ou outra. Em vez disso, o artista escolheu fazer da cor o seu tema. Como Seurat, Delaunay era fascinado pela teoria das cores. Ele também foi inspirado pelo trabalho de Michel EugèneChevreul, em especial pelo livro A lei do contraste simultâneo das cores (daí o nome da pintura de Delaunay), publicado em 1839. Chevreul demonstrou como as cores adjacentes no círculo cromático influenciavam-se mutuamente (um tema recorrente até hoje na arte moderna). Seuratusou o sistema para responder ao impressionismo; Delaunay o usou como uma maneira de acrescentar alguma cor ao cubismo. Ele aplicou as técnicas desconstrutivistas de Braque e Picasso ao círculo cromático, desmontando-o e depois o reconstruindo na forma de um alvo redondo dividido em quatro fatias, como uma pizza pré-cortada. Cada quarto contém sete segmentos de uma única cor, radiando do centro em seções curvas. O resultado são sete círculos concêntricos que consistem em quatro cores fragmentadas. Delaunay escolheu a cor como o único tema de sua pintura após chegar à conclusão de que a realidade corrompia “a ordem da cor”. Ele estava tentando fazer uma pintura que vibrasse com harmonia e tom, de maneira não muito diferente de uma peça de música. Esse era o objetivo do orfismo, como sugeria o nome do movimento, que vem de Orfeu, poeta e músico grego. O sentimento em meio à vanguarda era que música e artes visuais eram estreitamente relacionadas. Este é um entendimento útil para a compreensão da obra desses pioneiros da arte abstrata. Seus traços e borrões não eram uma tentativa de enganar o grande público fazendo decorações passarem por belas-artes; eles não estavam tampouco tentando se dissociar da realidade para serem vistos como figuras proféticas ou místicas de alguma espécie. Eles se comparavam a músicos, sua obra assemelhando-se a uma partitura musical.

Isso explica sua motivação para ingressar na arte abstrata. Porque a música, quando não acompanhada por canto ou palavras, é uma forma de arte totalmente abstrata. Os sons de violino que se elevam nos ares ou de tambores que retumbam podem transportar o ouvinte para uma cena imaginária sem que ele nunca precise recorrer à representação direta. O ouvinte está livre para deixar a mente vagar e interpretar pessoalmente o significado da música. Se ele se comove, é porque o compositor arranjou as notas de uma maneira que evoca essa reação. Os primeiros exemplos de arte abstrata são muito semelhantes, exceto que os artistas estavam fazendo arranjos com cores e formas. 

Já escrevi aqui sobre a relação da obra de Wassily Kandinsky e a música clássica, seu arrajos e composições, baseando-se em clássicos de Wagner e Schopenhauer. As telas do artista russo assemelham-se a notas musicais, embora tentar associar arte abstrata a qualquer coisa que se entenda vá contra o princípio básico da arte abstrata.

Então, quando você estiver diante de um quadro abstrato, não tente associá-lo ao que você conhece, muito menos procure encontrar começo, meio e fim.  Apenas imagine-se ouvindo Bach, viaje pelas cores e aproveite o caminho que não te levará a lugar algum e a todos os lugares

 

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