Alta renascença: um tempo mágico

Homem-VitruvianoPor Clodoaldo Turcato

Você já imaginou Frank Sinatra, Michael Jackson e Astor Piazolla em seus auges num mesmo palco? Ou então Ayrton Senna, Juan Fangio e Michael Schumacher juntos, com ótimos carros numa mesma pista? Ou Pelé, Maradona e Platini em seus melhores dias jogando na mesma equipe? Ou talvez uma reunião de William Shakespeare, James Joyce e Jorge Luís Borges? Loucura! Estes encontros seriam possíveis apenas na ficção, jamais na vida real. Três mestres juntos, cada qual em sua melhor forma. Não! Improvável. Acreditem: isto aconteceu.

Em 1420, o Papa Martinho V retornou para Roma depois de muito tempo em Avignon e encontrou-a tão dilapidada e deserta que mal parecida uma cidade. O retorno do Papa trouxe consigo uma onda de confiança e riqueza, estimulando o mecenato , enquanto os papas se dedicavam a tornar as cidades novamente num centro cristão. A capital do papado tinha dois formidáveis bens culturais: sua herança cristã e seu passado clássico romano. Com o renascimento romano três artistas se instalaram na cidade para trabalhar na reforma da cidade: Leonardo Da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Rafaello Sanzio de Urbino. Os três, juntos, com tantos outros grandes artistas, foram contratados pelo papado e pelas famílias ricas para desenvolverem projetos que dessem a cidade santa o seu antigo esplendor. A cidade fora local do nascimento do Cristianismo e deveria fazer jus.

Os artistas da alta renascença compartilhavam da filosofia humanística que colocava o homem e as realizações  da humanidade no centro de todas as coisas. Um dos exemplos deste pensamento está no desenho feito por Da Vinci chamado O homem vitruviano, talvez uma das imagens mais repetidas de todas, tal qual sua Monalisa. O desenho retrata um homem em duas poses sobrepostas, com braços e pernas abertas e contido ao mesmo tempo dentro de um circulo e um quadrado, denotando a ideia de ser o homem a medida para todas as coisas. É preciso entender que estamos em plena época de renascença italiana, quando as desavenças entre famílias e estados haviam sido apaziguadas e a igreja precisa mostrar seu poder de todas as maneiras, se utilizando da arte dentre um de seus elementos. Esta influência religiosa fez com que a maioria dos grandes artistas fossem contratados para desenvolverem obras sacras ou retratos das famílias abastadas. Isso não torna os trabalhos menores, pelo contrário, resplandece.

Em 1506 uma gigantesca estátua de mármore do século I  foi encontrada perto da Basílica de Santa Maria de Magiore. A estátua representava Laocoonte, sacerdote de Apolo, e seus filhos sendo mortos por duas enormes serpentes. A obra foi levada para o Vaticano e estudada por muitos artistas, dentre os quais Michelangelo, que utilizou parte de seus esboços para suas criações na Capela Sistina. Com a exploração das cavernas romanas e descobertas de novas obras clássicas, os artistas passaram a misturar a mitologia greco-romana em seus trabalhos, baseados nas ruínas, tais como o palácio imperial de Nero, onde um grande acervo de pinturas e estátua foi milagrosamente preservado.

 Neste mesmo ano Rafael foi contratado pelo Papa Júlio II a fim de decorar a Estância Vaticana. O trabalho levou 16 anos para ficar pronto e em seu quadro A escola de Atenas, um afresco de 500×770 cm, como modelos esteve Leonardo da Vinci, que representou Platão e Michelangelo representando Heráclito, em no canto a direita está o próprio Rafael. Esta pintura enigmática registra o encontro destes três gênios. É um dos raros momentos na história da humanidade em que o melhor, a nata, o suprassumo de um determinado segmento estão num mesmo espaço. Ao mesmo tempo o quadro demonstra como havia uma troca de favores dentre os artistas e, em tese, colaboração em todo o desenvolvimento dos grandes trabalhos realizados na época.

Para citar o brilhantismo desta época e a genialidade destes três homens, vale citar que de Da Vinci se criou o Homem Vitruviano, A Santa Ceia e Monalisa, além de centenas de projetos em mecânica e arquitetura. Da Vinci se transferiu para França e  morreu em 1519 nos braços do Rei Francisco I.  De Michelangelo temos  os afrescos na Capela Sistina, um marco da genialidade do artista, Baco e Pieta, a estátua de Moisés com 235 cm de altura e a tumba do Papa Júlio II onde estão 40 estátuas em tamanho natural. Em 1514 ele fez a obra o Juízo Final na Basílica de São Pedro. Rafael foi um dos artistas que mais representaram as artes sacras neste período com afrescos como O triunfo de Galanteia, obra de 295X224 cm e o óleo sobre madeira Retrato do Papa Leão X . O Papa Leão X fez tantas encomendas a Rafael que ele foi obrigado a montar um ateliê e contratar artistas para ajuda-lo, criando a primeira produção de arte em série, dentre os quais Giulio Romano. Rafael morreu com 37 anos, no ápice de sua criação.

Escrever um texto sobre Renascença italiana em tão pouco espaço é um pecado, o campo a ser explorado é muito amplo e mágico. Em cinquenta anos a artes viu deuses desfilando seu talento pelas ruas romanas. Queremos apenas atiçar sua curiosidade para a exploração deste tempo em que estivemos tão perto de Deus. Infelizmente, em 5 de maio de 1527 tropas espanholas, alemãs e italianas, sob a flâmula do sacro imperador  Carlos I, invadiram Roma causando o fim repentino deste grande período artístico.

Semana que vem falaremos de arte Naif. 

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem.

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