A desconstrução de uma obra de arte faz bem

Por Clodoaldo Turcato

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Ao se iniciar em pintura, o aluno sempre busca a perfeição. Obras como de Leonardo Da Vinci, Canaletto, Caravaggio e Rubens são referências. O desenho é concebido para que depois se dê a forma e a expressão, tentando a conclusão sem defeitos. Isso passa e na vida cotidiana, aquela em que não se obtém mais do que experimentações, desvios e entornos, o artista busca originalidade, fugir de conceitos que dissecou numa escola de artes, por exemplo. Está tentativa de desamarrar-se é tão forte que muito se atiram em devaneios e loucuras artísticas que geram grandes obras, escolas diferentes e principalmente um retorno a originalidade inicial, desconstruindo tudo que estudou, se opondo ao pensamento vigente trilhando seu próprio caminho. Assim surgiu o expressionismo, o abstrato e o futurismo, dentre outros movimentos interessantes por ser contrário, sem nunca deixar de ser arte. Um destes representantes é o Italiano Carlo Carrà. Carrà foi um pintor italiano e uma das principais figuras do movimento futurista que floresceu na Itália durante o início do século XX.  Além pintar, ele escreveu uma série de livros sobre arte e lecionou por muitos anos em Milão. Participou em diversas edições da Bienal de Arte de São Paulo, Brasil.Aos 12 anos, Carrà saiu de casa, para trabalhar como um pintor de murais. Em 1899-1900, Carrà esteve em Paris decorando pavilhões na Exposição Universelle, onde se familiarizou com a arte francesa contemporânea. Passou alguns meses em Londres em contato com anarquistas italianos exilados e voltou para Milão em 1901. Em 1906, matriculou-se na Accademia di Brera.Em 1910 assinou, junto com Umberto Boccioni, Luigi Russolo, Giacomo Balla e Gino Severini, o Manifesto de Pintores Futuristas, e iniciou uma fase de pintura que se tornou sua mais popular e influente. Os futuristas queriam que suas pinturas expressassem a energia e velocidade da vida moderna. A fase Futurista de Carrà terminou em torno da Primeira Guerra Mundial. Sua obra, enquanto ainda estava usando alguns conceitos futuristas, começou a lidar de forma mais clara com forma e quietude, ao invés de movimento e sentimento. Inspirado na pintura de Trecento, na arte infantil e no trabalho de Henri Rousseau, Carrà logo começou a criar naturezas mortas num estilo simplificado que enfatizava a realidade dos objetos comuns. m 1917 ele conheceu Giorgio de Chirico em Ferrara, e trabalhou com ele lá por várias semanas. Influenciado por de Chirico, Carrà começou a incluir imagens de manequim em suas pinturas. Os dois artistas foram os inovadores de um estilo que eles chamaram de “pintura metafísica”, considerada uma precursora do Surrealismo. Um estilo que, um pouco como o de René Magritte, é rica em mistério evocativo apesar do caráter simples da representação. Enquanto o futurismo rejeitava firmemente o passado, a pintura metafísica tinha uma nostalgia pela agora esquecida grandeza clássica da Itália como uma influência importante em sua arte.Em 1919, a fase metafísica de Carrà deu lugar a um arcaísmo inspirado nas obras de Giotto, a quem ele admirava como “o artista cujas formas estão mais próximas de nossa maneira de conceber a construção de corpos no espaço”. Ao longo dos anos 1920 e 1930, ele se concentrou principalmente na pintura de paisagens e desenvolveu um estilo mais atmosférico. O que se percebe em Carrà é sua dinâmico no trânsito de vários estilos e a capacidade de adaptar-se rapidamente, o que para muitos pode parecer uma constante mudança de ideias. Uma de suas obras mais celebres é A musa metafísica, um óleo sobre tela medindo 89×658 cm que está na Pinacoteca di Brera, em Milão, Itália. Num aposento de teto baixo, a personagem principal é a figura de gesso de uma jogadora de tênis com a cabeça de manequim. Ela está de pé perto de um mapa de Trieste e da Ístria; ao fundo, um cone geométrico de cores vivas está com o lado de uma tela pintada com fábricas. Essas imagens oníricas, reunidas sem lógica aparente são curiosamente perturbadoras e vinculam o quadro à escola de pintura metafísica, fundada por Carrà e Giorgio de Chirico. A pintura permeia todo o conceito do movimento, usando imagens desconexas, aparentemente, sem sentido, que incomodam o expectador, como se chegasse a um depósito desorganizado e sem sentido. A obra de Carrà não perde o sentindo em nenhum momento. É evidente que para um leigo é difícil perceber as pegadas deixadas pelo pintor, as influencias e seu constante movimento por estilos e novas experimentações. No entanto, quando se estuda a trajetória do artista as marcas aparecem e encantam.  Os elementos não são necessariamente belos e a composição é relegada a segundo plano, numa mística precoce e rápida que transforma o improvável em grande obra. Em sua obra Pescatori, Carrà prova que pode ser um clássico, dando formas e tons muito apreciáveis, com a sensação de inacabado e frugal. O mesmo se pode afirmar do quadro Le metamorfose, onde ele se aproxima do que Gaguim fazia com maestria. Carrà nos dá impressão que todas as vezes que atinge o ápice ele troca, para não acostumar-se ao cotidiano: constrói para depois desconstruir. Há, sim, você vai encontrar quadros que “até uma criança de cinco anos faria”, como Il Bersaglio, uma obra simplória, inocente externando uma quase ironia. Carrà nos proporciona uma viagem pelas escolas de arte, clareando um caminho belo e impressionante, nos ensinando que a arte quando estanca morre.

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