A dança das cores de Matisse

13487637_989099954521437_906591337_nPor Clodoaldo Turcato

Tenho plena certeza que você meu amigo e minha amiga que leem esta coluna devem ter soltado esta frase “isto é uma obra de arte!” Quando algo é belo, que nos enchem os olhos e fazem levar nosso tempo de observação além do trivial, imaginamos que por trás desta criação, um artista ou uma artista dedicou seu tempo para produzir determinado produto.

Mesmo os avessos a arte como comércio, o inevitável, terão que se curvar diante da beleza de certas produções. Belas embalagens, sapatos, carros, construções ou roupas, estão sempre levando a assinatura de algum artista. Dentro destes homens e mulheres por trás da criações, um dos mais conceituados foi Henri Matisse.

Henri-ÉmileBenoît Matisse foi um destacado pintor, escultor e artista gráfico francês. Filho de ÉmileHippolyte Matisse, um comerciante de grãos e de Anna Heloise Gerard, pintora de porcelanas.

Formou-se em Direito, em 1887, mas não exerceu a função pois achava as leis um assunto um tanto entediante. Aos 22 anos, mudou-se para Paris para estudar arte e matriculou-se na Academie Julian, onde foi aluno de William-Adolphe Bouguereau, e depois no ateliê do pintor Gustave Moreau.

Depois de anos de estudos, de 1900 a 1905 participou da mostra Salão dos Independentes e Salão de Outono, em Paris, e integrou o grupo dos pintores fauvistas que se caracterizava pela simplificação das formas, o uso das cores de forma aleatória e que não correspondiam à realidade, redução do nível de graduação das cores sem nuances, até o uso da cor pura, sem misturas.Predominava temas leves sem intenções críticas, a não ser a da representação. O fauvismo, derivado de “fauve” (animal selvagem) contou também com a participação de outros artistas, entre eles, André Derain, Maurice de Vlaminck, Raoul Dufy, Georges Braque, Henri Manguin, Albert Marquet, Jean Puy e Emile Othon Friesz.

Em sua primeira fase, Matisse assumia claramente influências de Paul Cézanne, como na obra “Nu no Estúdio”, um exuberante óleo sobre tela, medindo 599 x 389 cm, onde, em pinceladas fortes, especialmente, a figura humana se destacava num fundo difuso. Mas assume também outras influências, como as de Paul Gauguin e Van Gogh, com a valorização da massa de cor como um elemento representativo da composição, tanto quanto o motivo representado e essa concepção que seria desenvolvida mais tarde, teria grande importância na sua arte.A partir de 1906 até 1912 empreende diversas viagens. Da Argélia volta influenciado pelo uso decorativo da arte islâmica e introduz o decorativismo na sua pintura. Viaja também para o Marrocos. Dessa época, as pinturas “Harmonia em Vermelho” (1908), “A Dança” (1909) e “A Música” (1910), se destacam pelo uso de cores fortes, movimento e linhas, além de florais decorativos.

A partir daí passa a ser um artista bastante divulgado e considerado e a influenciar a arte de seu tempo, com um estilo que se caracterizava pelo uso de cores em tonalidades fortes, mas ao mesmo tempo, combatida por uma parcela da burguesia francesa apreciadora de arte, que a consideravam como uma diluição da arte. Matisse cria um estilo simplificado em que o uso da cor chapada, sem nuances, é limitada pelo traço e desaparecem os volumes. Para Matisse, o desenho, a cor e a composição eram uma síntese e nenhum dos três elementos se destacariam, mas formavam um todo.

Matisse e Pablo Picasso desenvolvem, a partir de 1907, uma estreita relação de amizade que duraria até a velhice dos dois, e frequentemente trocavam quadros entre si. Essa amizade também revelou uma sutil competição entre os dois artistas.Em 1920 mudou-se para Nice, e passou a pintar quadros de grande riqueza cromática como na série das Odaliscas, em que aparecem mulheres semivestidas com roupas exóticas, em ambientes decorados, com flores. Exemplo disso são as telas “Odaliscas com Magnólias” (1924) e “Duas Odaliscas” (1928). A sensualidade feminina passa a ter grande importância e presença na sua obra.

Quando em 1930, o uso da tinta óleo se tornou proibido, por problemas de saúde, começou a trabalhar com recortes de papel, técnica que continuou praticando até o fim da vida. Passa a usar também o carvão, como em “Tete de Femme” . Nessa época, o trabalho de Matisse torna-se cada vez mais arte gráfica, em contraposição a arte plástica. Exemplo disso é a técnica de “papierscollés“, como ilustrações do livro Jazz (1947) e a série “Nubleu” (1952), papel pintado a guache, recortado e colado.

Exerceu atividades de desenhista e ilustrador, com destaques para a edição dePoesies de StephaneMallarme (1932), Ulisses, de James Joyce (1935) e LesFleursdu Mal, de Baudelaire (1944), usando a técnica da água-forte, xilografia e litografia.Em 1941 é vítima de câncer e operado passa depender de uma cadeira de rodas para se locomover.

Entre 1948 e 1951 dedicou-se à decoração da capela do Rosário em Saint-Paul, perto de Vence, no sul da França. Matisse, concebeu todos os detalhes, dos vitrais ao mobiliário, onde pode desenvolver a sua concepção religiosa das formas, com a presença dos florais em arabescos nos vitais. Ficou tão satisfeito com o resultado desse trabalho que, apesar de tudo o que realizou, passou a considerá-lo como a sua melhor obra.Nesse ano de 1948 é apresentada uma retrospectiva de seu trabalho no Museu da Arte Moderna, de Nova York.

A colagem “Tristeza do Rei” (1952) na técnica de “papierscollés” é uma das suas últimas obras. Nela, a figura do rei, em negro com uma viola entre as mãos, seria a tristeza do próprio Matisse, adoentado, preso a uma cadeira de rodas, desde 1941 e que viria a falecer em 3 de novembro de 1954, de ataque cardíaco, aos 84 anos de idade.

De tudo, uma das obras mais belas de Matisse foi sem dúvida a tela Alegria de viver, um óleo exuberante de 600×400 cm. A tela tem uma beleza incomum, retratando  com cores vivas uma paisagem na qual existe harmonia entre as mulheres e a natureza. O primeiro fator que chama a atenção são as cores vivas, que não necessariamente são encontradas na natureza. Elas não foram escolhidas para serem fidedignas à realidade, mas sim para realçar as emoções do artista e para suprirem necessidades estéticas impostas pela cena retratada. Nele existem diversas cenas acontecendo ao mesmo tempo, que contribuem para a formação do todo. A paisagem parece ser um palco graças às árvores que a rodeiam e as diferentes perspectivas usadas por Matisse permitem uma visão quase teatral da obra.Os traços usados pelo pintor também merecem destaque, já que são finos e lineares, dandocorpos curvilíneos às mulheres retratadas e leveza aos troncos das árvores.Matisse retoma a busca do mitologismo primitivo de Gauguin, ao mesmo tempo em que mistura isso com o tema clássico de As grandes banhistas, de Cézanne, porém eliminando a profundidade espacial ainda existente neste. Este é o tipo de quadro que ficamos por horas admirando tamanha beleza, e mesmo para artista como eu que preferem o mínimo de cores, não conseguimos parar de admirar e invejar.

Matisse representou uma lição de vida e superação. Nunca parou de trabalhar, mesmo com extrema dificuldade ocasionado por sua doença terrível. Viveu até que um ataque fulminante o levasse, com uma montanha de projetos para tocar adiante. Quanto não pôde mais usar óleo, se dedicou a colagens de uma maneira ainda mais sublime. Trabalhava freneticamente em sua velhice diante da certeza de que o tempo estava acabando para ele, e aqueles recortes lhe permitiam produzir a um ritmo rápido. Uma vez cativado pelo potencial desse método, esqueceu-se completamente do pincel com o qual desafiava a ortodoxia nos seus primórdios, propondo inovações de estilo que alteraram o curso da arte e o tornaram uma das figuras mais influentes da arte do século XX. Dois dias antes de sua morte, em novembro de 1954, seguia envolvido na produção de cut-outs ou gouachesdécoupées.

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