A CASA DA FLOR

14249021_1043691425728956_1042388706_nPor Clodoaldo Turcato (artista plástico, escritor e jornalista)

Em nosso último texto, antes de meu declínio com a saúde que me obrigou a deixar de escrever por duas semanas, tratei da diferença entre arte e expressão artística. Tentamos, em nossa pequena experiência, diferenciar o que é uma obra de arte duradoura, que se  propõe a levar um tema, debater, gerar conflito, incomodar, de uma expressão efêmera, momentânea e levada pela mídia. Em resumo, chegamos ao conclusão que nem toda expressão artística é arte, porém existem exceções. É disso que vamos tratar hoje.

Na comunidade de  Vinhateiro, município de São Pedro da Aldeia, próximo à divisa do município de Cabo Frio, Estado do Rio de Janeiro, existe uma obra arquitetônica construída pelo lavrador Gabriel Joaquim dos Santos, um homem sem qualquer conhecimento de arte, escola de qualquer ramo artístico e principalmente noções de arquitetura. Mesmo assim, sua obra foi considerada comparada com as de AntoniGaudí i Cornet, famoso arquiteto catalão que dispensa apresentações.

Então dirá a amiga leitora “Epa! Sua tese caiu por terra, não foi grande analista de arte?” Não, minha Senhora, não caiu. Procure apenas lembrar que tantos foram os grandes mestres que nunca tiveram um dia de escola e criaram obras imortais. Dezenas, ncaão é? Gabriel Joaquim dos Santos foi um deles. Vamos conhecê-lo.

Ele não fez pintura, não fez gravura, não fez escultura. Fez uma casa. E tudo – ou só aquilo – que constitui uma casa: paredes, colunas, telhados, beirais, escadarias, muros, lustres, urnas, etc. Essa foi sua obra. Obra de arte? Sim, muito embora nunca falasse em arte. Gabriel Joaquim dos Santos,nascido em 1892 e falecido em 1985, era um artista em estado puro. E por isso mesmo, sua obra, a Casa da Flor, é um exemplo raro de manifestação estética anterior ao conceito de arte. Gabriel não era um arquiteto. Não se dispôs, quando iniciou a casa, ainda bem jovem, em 1912, a fazer uma obra arquitetônica. Fez uma casa para morar separado da família e poder entregar-se, livre da perturbação dos parentes, a seus sonhos e devaneios. Lavrador e trabalhador da salina ali mesmo em São Pedro da Aldeia, construiu a casa como pôde, no curso de quase dez anos. Quando ficou pronta, uma voz lhe disse que devia enfeitá-la. Sem dinheiro para comprar material, passou a aproveitar tudo o que encontrava: cacos de louça, pedaços de azulejos, telhas, pedras, faróis de carro, manilhas de esgoto, conchas de mariscos, garrafas, lâmpadas queimadas. Ao longo de quarenta anos, deslumbrado com sua própria obra, foi compondo caprichosamente esse conjunto delirante, extravagante, de formas, cores, matérias, texturas, que é a Casa da Flor : uma casa que parece de brinquedo, sem cozinha e sem banheiro, mas onde há painéis de surpreendente composição, lustres inusitados feitos de lâmpadas usadas, um altar para os livros sagrados, molduras para retratos, tudo composto com cacos e restos de coisas inservíveis. Uma beleza nascida do lixo.

Há na Casa da Flor uma coisa a mais que nos surpreende: a rudeza das formas usadas para criar a beleza. Gabriel constrói flores com pedaços de telhas e cacos de louça, encravados no barro. Não há ali qualquer preocupação com a finura, o acabamento: são lascas de louça ou de telhas que, juntas, se transfiguram, viram flor. E é a transfiguração que importa: esse desleixo com o acabamento revela, em seu autor, a consciência do essencial. É como se nos dissesse: não é a forma material que importa, mas seu significado. E esse significado, no entanto, compreende a rudeza das formas e dos materiais em que se expressa: é uma flor, mas uma flor de cacos, de lascas, de barro, tosca, improvisada, filha dos poucos recursos e da imaginação de Gabriel. Nada tão terrestre, tão contingente, tão precário, e, ao mesmo tempo, sonho. É comovente pensar naquele homem a construir sozinho, anos a fio, essa casa interminável, e sem buscar outra gratificação além do prazer de fazê-la.

Então, Gabriel Joaquim dos Santos é o exemplo vivo de que não é preciso saber nada de arte para ser artista. Teriam razão, portanto, os que defendem a tese de que a pura e simples liberação da criatividade é a própria arte, a arte em estado essencial. Logo, todas as pessoas são artistas em potencial e dariam prova disso, desde que tivessem a possibilidade de se expressar livremente. Esta é uma tese antielitista – contrária à concepção do artista como um ser superior – e antiacadêmica, porque nega a necessidade do ensino da arte. Mas, se é correto dizer que o artista é um homem como qualquer outro e se é certo combater as normas acadêmicas que sufocam a criatividade artística, nem por isso tem cabimento afirmar que todo homem pode tornar-se um artista ou que toda e qualquer manifestação espontânea seja arte. De fato – e o exemplo de Gabriel comprova isso -, a arte é produto de determinadas personalidades com características específicas, inatas, sem as quais a criação artística é impossível.

Examinemos o fenômeno Gabriel. Se é verdade que ele não possuía formação artística, é verdade também que era extraordinariamente sensível à expressividade das formas, das cores, das matérias, e foi essa sensibilidade que lhe possibilitou abstrair-se da visão imediata dos cacos de louça, das lâmpadas queimadas, das manilhas de esgoto, das telhas e lascas de pedra, para aprender-lhes as qualidades formais e cromáticas. Mas tampouco essa sensibilidade teria sido suficiente para levá-lo a construir a Casa da Flor, não fosse ele impelido pela necessidade profunda, insondável mesmo, de realizá-la, como se obedecesse a um ditame sobrenatural. Essa vontade de construir-se fora de si, de objetivar suas fantasias ou intuições, tornando-as palpáveis para si e para os outros, é condição essencial à criação artística. Foi, portanto a junção desses fatores – a sensibilidade plástico-cromática, somada à invenção de um mundo fictício e à vontade de torná-lo realidade – que supriu, em Gabriel, a ausência de qualquer aprendizado artístico. Mas não se deve concluir daí que a falta de aprendizado é que o tornou artista, já que a maioria dos artistas conhecidos teve algum tipo de aprendizado. A dedução correta é que o verdadeiro artista realiza a sua obra independentemente de ter ou não aprendido arte: se não aprendeu, sua linguagem terá determinadas características; se aprendeu, terá outras, decorrentes da elaboração e superação do que foi aprendido. É certo, porém, que a criação artística é por si um aprendizado e que todo artista só se realiza plenamente na medida em que se torna mestre de si mesmo. A suposição de que a pura e simples criatividade, excluindo conhecimento, limites e exigências, é condição suficiente para a criação artística não passa de preconceito e ilusão.

Outra lição a tirar da obra de Gabriel Joaquim dos Santos – que fez arte sem saber que o fazia – reside na relação de sua atividade criadora com a linguagem dentro da qual atuou: a linguagem arquitetônica. É curioso observar que, na primeira etapa, ele pretende apenas fazer uma casa para se isolar da família; a preocupação com a beleza surge depois, e é a partir de então que ele começa a violentar a linguagem arquitetônica primária de que se valeu inicialmente para torná-la veículo de sua fantasia e de sua inventividade. E pouco a pouco, a casa modesta ganha as características de mansão suntuosa, rodeada de muros adornados, de altas erudes colunas suportando urnas e vasos de flores fantásticas, feitas de cacos. As paredes internastambém se cobrem de painéis coloridos, de molduras e adornos, enquanto do teto pendem lustres (que não acendem) compostos com lâmpadas usadas. Ele disse que ia às casas ricas, observava tudo e fazia igualzinho na sua. Como o douanier Rousseau, que pintava paisagens fantásticas, mas se julgava um realista, Gabriel acreditava que sua casa era imitação perfeita das mansões dos ricos. A diferença, segundo ele, estava em que, na sua, o que falava era “a força da pobreza”. Na verdade, sua casa é a transfiguração poética da casa real – uma metáfora, já que lhe faltam a comodidade, as proporções e a funcionalidade das casas de verdade. Uma casa de sonho para que o seu sonhador pudesse morar no sonho. Como um pintor que lograsse habitar o seu próprio quadro, ou o poeta, o seu próprio poema.

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