A arte tem princípio, meio e fim, mesmo sem ser completa

Por Clodoaldo Turcato

20133741_1350559268375502_972602066_oAlgumas percepções em artes plásticas ocorrem depois de muito tempo. Mesmo em mãos calejadas, algumas compreensões escapam, condicionando nossa empatia. Em princípio se diz que arte concreta e arte renascentista, por exemplo, são diferentes. Uma obra de Bordone ou Rafael é diferente de Boccioni.  A imagem perfeita contra pinceladas à toa. Julgamento precipitado. Ambas têm os mesmo princípios, a mesma pretensão e atingem sem dúvida o nível de grande obra.

Quem vê a obra Apresentação do Anel ao Doge de Veneza, de Bordone, um óleo sobre tela medindo 370 x 300 cm que está Galleria dell’Accademia, em Veneza, Itália, construída em detalhes impressionantes, composta com genialidade própria do pintor italiano e a arte renascentista, dirá que Cabeça + Luz + Entorno de Umberto Boccioni, um óleo sobre tela medindo 60 x 60 cm, um peça futurista que está em Nova Yorque, é menor, menos bela ou uma tolice de um jovem efervescente. Engano. As duas obras são grandiosas e tem os mesmos princípios e devem ser lidas da mesma forma. O gosto pessoal, repetindo, não deve influenciar para uma crítica séria.

Uma obra de arte se difere de um objeto comum. O objeto comum possui apenas uma função prática e útil na sociedade e, geralmente, é produzido em série por indústrias. Porém, existem obras de arte que também podem apresentar uma utilidade prática. Se Bordone expunha em suas obras as grandes catedrais, os elementos sociais de então e principalmente a vida cotidiana das cortês europeias, tendo um pé dentro da Igreja Católicas, Boccioni expressava a força da relatividade, o movimento do tempo e o surgimento das ideais de um futuro dominado pela máquina, máquina esta que fazia as imagens do dia-a-dia, dispensando o talento do pincel. Então, era necessário ir mais fundo, nas formas, na construção de conceitos que lentamente foram alternando, porém impactando na efervescência de uma sociedade que olhava para frente. Os dois captaram, ao seu modo, estes momentos

Se Bordone fosse vivo, possivelmente pintaria diferente. Não que a arte clássica tenha acabado. Veja o caso de Marciano Schimidt. Ele segue acadêmico e com sucesso. Os temas divergem e seu misticismo domina as belas criações que faz. No entanto, hoje não há mais por que pintar somete clássicos. Perdeu força essa demanda e a obra precisa expor a relação do homem e seu tempo. O mesmo eu diria de Boccioni. Se estive noutro tempo se expressaria de maneira totalmente diferente.

Então a arte mudou?

Não. Arte continua a mesma. No campo da arte, chamamos de obra de arte à produção realizada por um artista plástico, que é o resultado de sua criatividade e imaginação e que expressa um conceito ou uma manifestação sentimental ou emocional. Isto é, a obra de arte é uma criação que fica totalmente estampada e evidencia a intenção do artista. O que muda é o conceito, a escola, o modo de se criar. Porém a expressão segue sempre igual. Uma ideia pode ser expressa de diversas formas, mais conceitual ou mais complexa. O que vale é o quadro catalisar o movimento da vida, suas sequencia através do tempo e espaço.

Analisando friamente obras como a que expomos, teremos que arte – qualquer manifestação – precisa ter alguns aspectos como movimento, por exemplo. Escrevemos sobre isso a um tempo. Arte é a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em um ou mais espectadores, e cada obra de arte possui um significado único e diferente.

A arte está ligada à estética, porque é considerada uma faculdade ou ato pelo qual, trabalhando uma matéria, a imagem ou o som, o homem cria beleza ao se esforçar por dar expressão ao mundo material ou imaterial que o inspira. Na história da filosofia tentou se definir a arte como intuição, expressão, projeção, sublimação, evasão, etc. Aristóteles definiu a arte como uma imitação da realidade, mas Bergson ou Proust a veem como a exacerbação da condição atípica inerente à realidade. Kant considera que a arte é uma manifestação que produz uma “satisfação desinteressada”.

De acordo com o Romantismo, Vitalismo, Fenomenologia, Marxismo surgem também outras e novas interpretações de “arte”. A dificuldade de definir arte está na sua direta relação e dependência com a conjuntura histórica e cultural que a fazem surgir. Isso acontece porque quando um estilo é criado e estabilizado, ele quebra com os sistemas e códigos estabelecidos.

A arte é um reflexo do ser humano muitas vezes representa a sua condição social e essência de ser pensante. Este padrão encontraremos em Pollock ou Van Gogh. Nossos olhos precisam aprender a distinguir o movimento, a coerência, a luz, a sombra, a composição e harmonia. Isso precisa estar presente em qualquer obra de arte. Então não é a imagem bonitinha ou feinha que definirá uma obra.

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