A arte nativa da América do Norte

Por Colodaldo Turcato

27707454_1534587119972715_1694253379_oAo imaginarmos a arte, seria correto ter em conta que ela é mais antiga que os nossos parcos registros possam registrar. De tudo que temos no Ocidente, muito pouco foi catalogado e devidamente transmitido. Basta imaginar a idade dos povos indígenas de todos os continentes e concluiremos que muita da arte se perdeu no caminho. Contudo, uma parte minúscula da cultura e manifestações destes povos foi preservada. Vamos dar uma olhadela sobre a Arte Nativa da América do Norte.

 O termo “arte”, no sentido ocidental, foi aplicado pela primeira vez à cultura material nativa da América do Norte na virada do século XIX. Embora a palavra se refira ao aspecto estético dos artefatos, nenhuma dessas obras de arte foi produzida apenas por razões estéticas. Feitas com a utilização de recursos locais e criada para serem usadas na vida cotidiana, roupas, esculturas, cerâmicas e outras expressões visuais, as artes se desenvolveram a partir de sistemas de conhecimento ricos e complexos. Interconexões entre cosmologia, espiritualidade, poder e política são apenas alguns dos símbolos presentes na arte americana produzida milhares de anos antes do contato com os europeus. A diversidade de ambientes, línguas e organização social deu origem a tradições artísticas regionais que ilustram a maneira como as comunidades expressavam sua relação com o mundo que as rodeava. Ao mesmo tempo, os povos nativos estavam ligados por meio de extensas rotas comerciais que abrangiam todo o continente, criando canais para novos materiais e ideias que eram incorporados a antigas tradições culturais. Esse processo continuou ao longo da colonização europeia, muitas vezes com um impacto devastador.

A introdução do milho vindo da Mesoamérica contribuiu para a fixação e o desenvolvimento de várias tribos no sudeste da América do Norte no fim do primeiro milênio. A maior dessas tribos era a Cahokia, localizada a leste de onde hoje é SaintLouis, no Missouri. Pratos com relevos em cobre ilustrando uma divindade sobrenatural chamada de “homem-pássaro” (à direita) são atribuídos aos Cahokia, mas também foram encontrados em cemitérios de outras regiões. O governo centralizado dos Cahokia sobreviveu por quase 500 anos, até que seus habitantes se dispersaram, por volta de 1400, isto é, cerca de 150 anos antes da disseminação das doenças europeias que dizimaram as populações nativas de toda a América do Norte.

No extremo norte, o Ártico foi habitado por sucessivas ondas de tribos nômades: os Paleoárticos, os Dorset e, por fim, os Thule, ancestrais do povo Inuíte da atualidade. A expressão estética do Ártico e do Subártico pode ser vista em peças de vestuário que eram desenhadas, costuradas e enfeitadas pelas mulheres, não apenas para a proteção física do clima severo, mas também como uma ligação espiritual entre o caçador e a caça que ele perseguia. Pequenas esculturas, como um urso-polar em marfim feito pelos Dorset e encontrado na região de Igloolik, ao sul da baía Baffin, eram feitas pelos homens para garantir uma caça bem-sucedida ou para celebrar o poder de um inimigo temível. O tamanho diminuto enfatiza a portabilidade exigida pelo estilo de vida nômade.

Na costa noroeste da América do Norte, a técnica de tecelagem Chilkat era usada para fazer mantos, cobertores, tapeçarias e outras peças de vestuário, e as estampas variadas exibem claramente um equilíbrio entre elementos regionais e valores que eram compartilhados com áreas mais distantes. O povo Tlingit adquiriu a técnica por intermédio de casamentos com o povo Tsimshian, que vivia mais ao sul, no fim do século XVIII. Os tecidos Chilkat, eram, em geral, feitos com lã de cabras-monteses e cascas de cedro, e os mantos desse tipo exemplificam o equilíbrio entre homens e mulheres, muito importante para vários grupos indígenas da América do Norte. Neste exemplar de um cobertor cerimonial Chilkat, um homem pintou o desenho sobre uma prancha e uma mulher o teceu. O manto que o acompanhava devia servir como uma manifestação da posição social, já que tais peças eram usadas apenas pelos indivíduos mais importantes. Quando unidos à oratória, os mantos expressavam o poder de quem os vestia e atestavam a propriedade da terra e das histórias ancestrais.

A cerâmica tem sido um componente fundamental das comunidades indígenas do sudoeste da América do Norte há milhares de anos. Até o começo do século XX, quando a demanda dos turistas por artefatos desse tipo superou a oferta, a fabricação de cerâmicas era função das mulheres da tribo Pueblo. Como seus ancestrais Anasazi, Hzuni e outras mulheres Pueblo recolhiam a argila de locais sagrados, desenvolvendo e refinando técnicas de moldagem e queima de vasos, desenhando neles sonhos e precedentes artísticos de suas mães ancestrais para enfeitar as cerâmicas. Os desenhos geométricos e figurativos encontrados na cerâmica do sudoeste (à esquerda, embaixo) mostram a diversidade regionale individual e expressam as tradições culturais que moldaram a maneira como os Pueblo viam o mundo.

Uma das obras mais lindas deste período é Totem da Casa da Estrela, uma obra esculpida em cedro vermelho que mede 11,36 metros e está no Museu de Pitt Rivers, em Oxford, no Reino Unido. O chefe do clã da águia K’ouwas, por ocasião de um potlatch (cerimônia legal) que festejava a adoção de uma menina. Historicamente, esse tipo de totem teria servido como entrada para uma casa, por uma porta circular entalhada na figura de baixo. Todas as figuras se relacionam com a história de Anetlas e sua mulher, suas insígnias, sua condição social e seus privilégios, e existe uma narrativa da tradição oral para cada uma delas. As imagens devem ser identificadas de baixo para cima, pois, ao contrário da crença popular, a figura inferior em um totem haida costuma ser a mais importante.

O artista entalhou o totem da Casa da Estrela em cedro vermelho, ou ts’uu, de aproximadamente 600 anos. Ele deve ter passado muito tempo procurando pela árvore adequada – antiga, alta, de cor uniforme e anéis apertados – antes de cortá-la e dividi-la, escavar a parte de trás e a transportar de volta à aldeia. Lá possivelmente entalhou o totem com ferramentas de ferro, da forma ditada pelas insígnias e histórias associadas a Anetlas e sua família. A pintura segue o estilo clássico dos haida. A tinta preta acentua os elementos primários do design, como o bico preto do corvo. O vermelho é usado nos elementos secundários, como lábios e narinas. E o azul esverdeado é empregado para destacar áreas como as órbitas. A tinta original parece ser feita com pigmentos naturais, moídos e misturados a ovas de peixespreto, feito com carvão; vermelho, do ocre vermelho; e azul-esverdeado de uma rara argila à base de cobre.

O totem da Casa da Estrela ficou diante da residência de Anetlas em OldMassett até ser vendido e enviado para a Inglaterra em 1901. Até hoje, totens como este continuam a ser entalhados e erguidos pelos clãs de Haida Gwaii.

Quanto mais nos aprofundamos nos estudos dos povos e suas manifestações, percebemos os imensos buracos que restaram na estrada da arte. Buracos estes que jamais serão tapados e o quanto de indigno somos como racionais.

 

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