A arte não precisa parecer arte para ser arte

pop-artPor Clodoaldo Turcato

Certa feita, Roy Lichtenstein estava em dúvida se utilizava o estilo Bem-Day, comum na impressão de quadrinhos, para seus quadros, quando Allan Kaprow disse que a arte não precisa parecer arte para ser arte. Em linhas gerais, o conceito de Pop Art é isso. Num primeiro olhar parece ser algo simples, quase despretensioso, porém não é bem assim – em arte não podemos ficar em águas rasas.

Era uma vez, em 1934, na cidade de Edimburgo, Escócia,  residia um menino chamado Eduardo Paolozzi que adorava colecionar cartões players que vinha em carteiras de cigarro vendidas na loja de seu pai. Na parede de seu guarda-roupa viam-se colados de forma aleatória cartões de cigarros, recostes de histórias em quadrinhos, invólucros de doces e anúncios de jornais. O que parecia ser incoerente para o observador casual, fazia todo sentido para Eduardo, aquilo era seu mundo, seu quadro de recortes que todos os dias aumentavam por objetos encontrados  na rua ou ganhos de alguém. Seis anos depois a Itália entrou na guerra do lado alemão, o que ocasionou na pilhagem da loja, prisão dos pais e sua fuga para Paris. Na Cidade Luz conheceu expoentes da arte moderna como Tristan Tzara, Alberto Giacometti e Georges Braque e mergulhou nas ideias do dadaísmo e surrealismo. Sua primeira obra que produziu se chamou “Eu era o brinquedo de um ricaço”, uma colagem feita de imagens cortadas de revistas de papel brilhoso que lhe havia sido dadas por soldados norte-americanos que conhecera em Paris.A colagem é tosca em todos os aspectos, com pouco senso de permanência sobre um papelão vagabundo, ao mesmo tempo que o quadro é atrevido e cheio de sugestões sexuais. Dentro da bolha de fumaça branca que emana da pistola, que faz parte de um dos recortes, surge a palavra POP. Este foi um dos primeiros casos que a palavra foi usada no contexto das belas artes. Paolozzi identificou o poder da celebridade, das mercadorias de marca e da publicidade na nova era de consumismo, uma era em que tais deleites seriam cocaína do capitalismo.

Paolozzi não estava sozinho em seu fascínio pela cultura do consumo. Com ele estava um artista plástico chamado Richard Hamilton, que foi central para definir as ideias e o escopo da pop arte em seus primórdios na Grã-Bretanha. Ele fez uma tela que a principio seria um cartaz promocional para a exposição chamada This is Tomorrow, montada em 1956 na Whitechapel Art Gallery, em Londres, porém numa reviravolta típica da pop arte, se tornou uma das obras de arte definidoras do final da década de 60. A obra se chama “O que exatamente torna os lares de hoje tão diferentes, tão atraentes?”  é feita de maneira muito semelhante a colagem de Paolozzi, já que utilizou recortes de revistas e jornais sobre papelão. A diferença é que enquanto a obra do italiano eram recortes isolados, Hamilton transformou sua obra numa única imagem, coerente e com a aparência que uma sala de estar do futuro teria.  Segundo Hamilton, ele baseou sua colagem na história de Adão e Eva, simplesmente os transportando do Jardim do Éden para o novo e fascinante paraíso confortável do século XX. Mais uma vez a palavra POP surge, agora colada no pirulito de Adão (é o doce mesmo) próximo a virilha, semelhante à Paolozzi. Hamilton expressou um otimismo quando ao futuro da sociedade high-tech. Um futuro onde todos teriam uma vida confortável proporcionada por produtos modernos e  com tempo para usufruí-los. Hamilton definiu  o movimento como popular, destinado às massas; transitória, soluções de curto prazo; descartável, facilmente esquecida; barata, produzida em massa; atraente, bela e com celebridades;  e  muito lucrativa.

Nos Estados Unidos dois artistas compartilhavam das mesmas ideias: a cultura de consumo, adotando em seus trabalhos a perspectiva oriunda de Londres. Jasper Johns e Robert Rauscheberg eram jovens artistas que reagiam ao que viam como arte naqueles tempos, principalmente a pomposidade de Rothko e De Kooning, maiores expressões de então. Os dois sentiam que  os expressionistas abstratos tinha perdido o contato com a realidade, centralizando suas obras em seus próprios sentimentos, burlando a realidade, o que realmente estava acontecendo em Nova York e no mundo. Em seus trabalhos dadaístas, como na espetacular obra Bandeira,   abriram caminho para o surgimento de dois das maiores expressões da pop arte: Andy Warhol e Roy Lichtenstein. Warhol era um designer que ganhava a vida com propaganda e não conseguia impactar em nada, longe do que produziam os dois corajosos artistas. Andy não tinha encontrado sua linguagem sob a qual construir sua carreira nas belas artes. Em 1960 ele fez uma obra de arte retratando uma garrafa de Coca-Cola, embora sua abordagem fosse diferente. Ele simplificou a garrafa, reduzindo a uma representação gráfica e colocando do lado de fora um disco do famoso logotipo da marca. O efeito foi duro e desapaixonado, e mais poderoso que uma colagem. No entanto aquele trabalho não o satisfez. A sua grande sacada foi quando decidiu, por influência de outras pessoas, incorporar a sua obra grandes ícones de consumo americano, expondo aquilo que todos utilizavam frequentemente sem notar o quanto eram dominados por esta cultura. Assim ele idealizou trinta e duas telas das latas de sopa Campbell, uma obra gigantesca e sua entrada definitiva para o cenário dos grandes mestres das artes. É uma sequencia de telas que seu conjunto cobre a dimensão de 300×170 cm. A pintura consegue tirar toda a personalidade do artista, uma obra fria, parodiando com as propagandas de massa que tentam a todo custo empurrar produtos goela abaixo nos consumidores com e excessiva exposição de imagens.  A obra contesta a tese acadêmica de que a arte deve ser original, indo na contramão do mercado de arte que valora pela raridade e unicidade. Era uma censura duchampiana ao mundo das artes que sempre elevam o artista ao papel de Deus.  Warhol foi um artista que escolheu a sociedade de consumo, utilizando os próprios métodos do capitalismo para tornar-se uma marca e uma das expressões mais ouvidas em Nova York na época era “Comprar um Warhol”. Não uma pintura, mas um Warhol, sendo irrelevante a obra em si, desde que fosse produzida por ele.

Perto dali, na mesma época, outro artista resolvera utilizar os quadrinhos como fonte de produção. Roy Lichtenstein estudara belas-artes, lecionara em boas escolas  e produzia obras convencionais. No entanto ainda não tinha encontrado seu estilo, até que conheceu o mundo dos quadrinhos em 1961. Sua abordagem era pegar uma cena dramática de uma revista e amplia-la para uma tela, utilizando para isso o sistema de pontilhados de Seurat. Para isso produzia usando o método Bem-Day Dots, forma de impressão usada pelas gráficas de quadrinhos. Roy Lichtenstein copiou o sistema e, ao fazê-lo, encontrou um estilo que tornou suas pinturas imediatamente reconhecíveis.

A pop arte representou no curto período de quinze anos, a exasperação do consumo de massas, alavancando marcas e modelos num ambiente que quanto mais se supérfluo fosse a vida melhor. Embora pareçam pequenos, as obras produzidas denotam grandiosidade e profundas reflexões sobre como as pessoas são manipuladas pelo sistema. Uma crítica sútil que somente com olhar atento podemos perceber.

Semana que vem falaremos de arte africana.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem.

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