A arte do sonho aflito

Por Clodoaldo Turcato

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Um sentimento incomoda. Um estado de visagem. Pequenos fragmentos do sono. Sonho. Irreal, extrema sensação de aflição. Isso pode acontecer num quadro? Pode, claro que pode. Alguns pintores conseguem nos fazer sentir sensações extremas, calos na alma ou simplesmente nos forçam a olhar para o lado. Um dos pintores que mais me arrepia e me condiciona a sentimentos estranhos é Mar Chagall.

Seu nome era Moïshe Zakharovich Shagalov nasceu em 7 de julho de 1887 em uma família pobre, de dez filhos, na cidade Vitebsk, Rússia. Sua iniciação no universo das artes plásticas ocorreu em sua própria terra natal, no ateliê de um célebre pintor de retratos local. Dele Marc herdou tanto o ofício da pintura, quanto o prazer estético e a inclinação para expressar sua vocação artística.

Em 1908 ele entrou na Academia de Arte de São Petersburgo, daí partindo para Paris, o centro da cultura e da arte. Antes disso, porém, em uma passagem por sua aldeia, conheceu Bella, com quem mais tarde se casaria, retratando sua musa em 1909.Um ano depois já se encontrava na capital francesa, ao lado de Blaise Cendrars, que batizaria grande parte de suas obras, de Max Jacob e Apollinaire, bem como dos pintores Delaunay, Modigliani e La Fresnay.Na cidade-luz ele conheceu todas as nuances da arte moderna e das vanguardas, lutando para encontrar um espaço para suas miragens oníricas no universo de fauvistas e de cubistas.

Neste contexto em que imperava um sistema filosófico que valorizava apenas a forma, marcado também pela abstração, sua obra se distinguia pela presença do conteúdo temático surreal, o qual revela suas origens nas esferas emocionais e culturais do pintor.

Guilhaume Apollinaire escolheu as telas de Chagall para a exposição que realizou em 1914, em Berlim, na galeria Der Sturm. Essa exposição teve grande influência sobre o expressionismo de pós-guerra.

De volta à Rússia, quando explode a Primeira Guerra Mundial, Chagall é mobilizado, contrariando estas diretrizes, ele permanece em São Petersburgo, casando-se com Bella, seu grande amor, em 1915.Após o desabrochar da Revolução Socialista de 1917 o artista alcança o posto de comissário de belas-artes, no governo de Vitebsk, sua aldeia natal. Ele institui então sua própria escola artística, livre para incluir qualquer inclinação modernista; ao mesmo tempo ele cria murais para o teatro judaico de uma escola local.

Voltando para Paris, em 1922, reconhecido e recebido como grande pintor, ele atende a uma encomenda empreendida pelo editor Ambroise Vollard, ilustrando o Livro Sagrado e realizando 96 gravuras para um exemplar do livro Almas Mortas, do escritor Gogol, o qual só seria lançado em 1949. Uma versão das Fábulas de La Fontaine foi também ilustrada por Chagall, em 1927. Sua etapa paisagística, marcada pela temática das flores, pertence a este período.

A partir de 1935, o clima de perseguição e de guerra repercute em sua pintura, nas quais surgem elementos dramáticos, sociais e religiosos.Em 1941, parte para os EUA, onde sua esposa falece em 1944. Chagall mergulha, então, em um mundo de evocações, quando conclui o quadro “Em torno dela”, que se tornou uma síntese de todos os seus temas.

Uma das obras que resume o conceito de Chagall é Sobre a cidade, um óleo sobre tela medindo 400×200 cm. Acima de uma cidade construída por simples casas de madeira e celeiros, duas figurasfantásticas coam pelo céu. A mão do homem gentilmente aconchega o peito da mulher. Eles parecem amantes e talvez estejam fugindo. A cidade exótica e ingenuamente composta, pintada em blocos de cor, com bonitas cercas de madeira e tons quentes, mostra o interesse de Chagall por contos de fadas. Muito da imagística do artista russo tem raízes no folclore judaico de sua infância. O quadro nos dá a sensação de fuga e ao mesmo tempo de superioridade sobre a pequena cidadela, que aparentemente dorme enquanto o casal passa sem destino, olhando para trás, temendo a perseguição – angústia.

No âmbito da arte contemporânea, marcada pelo formalismo e a abstração, a pintura de Chagall se destaca pela importância que tem nela o elemento temático, de fundo onírico, que, por sua vez, reflete as profundas raízes afetivas e culturais do artista. Sua obra, moderna, assimilou todas as conquistas formais da arte contemporânea.Com o final da guerra, ele volta de vez para a França, e neste país ele elabora as famosas pinturas dos vitrais da Universidade Hebraica de Jerusalém.Nos anos 50 Chagall viaja várias vezes para Israel, atendendo a diversas encomendas. Seus vitrais e mosaicos também se tornaram célebres, e pode-se dizer que ele demonstrou igual cuidado com a cerâmica.Em 1957, a 4ª Bienal de São Paulo dedicou uma sala especial às obras de Chagall.

Em 1973, como uma homenagem ao artista, foi aberto o Museu da Mensagem Bíblica de Marc Chagall, em Nice, cidade francesa. Quatro anos depois o Estado francês entregou-lhe a Grã-cruz da Legião de Honra.Ele morreu em Saint-Paul-de-Vence, cidade do sul da França, no dia 28 de março de 1985, como um dos maiores e mais famosos pintores do século XX.

Chagall desperta de maneira zombeteira os nossos mais profundos medos, repassando em nosso cotidiano o sonho do mundo onde a sensação predomina. Não é belo nem feio, e nem pretende ser um dos dois. Chagall é cirúrgico quando nos afeta.

Outras obras do pintor são Eu e a princesa, O prometido, A chuva, Maternidade, Maria cortando o pão e O violinista verde.

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