A arte desmistificando as histórias mal contadas

13161476_964102563687843_224892454_oPor: Clodoaldo Turcato

Em tempos de intolerância, a ignorância se sobrepõe. Nunca um povo esteve tão perseguindo como os islâmicos. Ao se falar em islamismo, o que vem à cabeça do geral é que se trata de terroristas prontos para explodir bombas em nossas cabeças. A mídia faz um esforço danada para que uma parcela ínfima de um povo macule uma grande  nação. Pena. O tema de hoje é arte islâmica. Algumas linhas que vão demostrar a grandeza de um povo.

A arte islâmica se desenvolveu a partir da segunda metade do século VII, depois da morte do Profeta Maomé, em 632. Ao longo dos séculos seguintes, o Islã cultivou o desenvolvimento de uma cultura distinta, com uma visão única das artes sacra e secular.. No começo do século VII, o mundo mulçumano havia se expandido para oeste, alcançando a Espanha e o reino de Al-Andalus, e para leste até Samarqand e o vale do rio Indu. Mais tarde, os Islã se expandiu para oeste da Turquia, onde os governantes otomanos reinaram até o início do século XX, e ainda mais para o leste, onde as dinastias mogol dominavam vasta áreas do subcontinente indiano, sobrevivendo até que os britânicos abolissem formalmente o título de “imperador”, em 1858.

Os Umayyads, parentes distantes do Profeta Maomé, criaram o primeiro califado em Damasco na Síria, e os anos de formação da arte islâmica ocorreram sob domínio deles. A arquitetura religiosa construída graças ao mecenato Umayyad exibe as técnicas e os estilos de tradições artísticas já existentes. Os mosaicos da mesquita Umayyad, de Damasco, dos quais alguns sobreviveram nas paredes altas dos jardins internos, deixam transparecer toda a habilidade da arte bizantina. Os mosaicos retratam uma paisagem ampla de plantas, árvores, e grupos de prédios em velos tons de verde e dourado. Mesmo nesse período inicial, os mosaicos islâmicos mostram certa predileção por desenhos de vegetais e formas geométricas (conhecidos como arabescos) e não pela decoração figurativa.

Sob o domínio do califado de Abássida, em 750, o centro político do Islã foi transferido para o oriente, da Síria para o Iraque, onde Bagdá e Samarra se tornaram as cpitais culturais e econômicas do mundo islâmico. A arte decorativa produzida sob a dinastia Abássida deu continuidade ao uso intenso dos arabescos em todos os materiais, de madeira e metais, a vitrais e cerâmicas. O fluxo de cerâmicas chinesas para o Oriente Médio, por meio da Rota da Seda e outras rotas comerciais, criou uma demanda crescente por louças e estimulou avanços na fabricação de cerâmicas.

A invenção da técnica de lustro, na qual as cerâmicas são esmaltadas com compostos de prata e cobre, a fim de alcançarem um acabamento metálico, ocorreu no Iraque no Século X.  O segundo maior produtor desse tipo de cerâmica, depois do Iraque, estabeleceu-se no Cairo, Egito, durante o governo do califado de  Fatímida em 909. A obra O leão e as gazelas, uma tigela  que faz parte do mosaico Khirbatak-Nafjar, na cidade de Jericó, Palestina, representa um este período. A peça  é primeiramente esmaltada e depois pintada com tinta lustrosa marrom-avermelhada. A figura segurando uma lamparina ou um incensário com a mão direita representa um sacerdote da Igreja Copta. O cipreste à direita da imagem sugere o jardim de um monastério, um tema comum na poesia Árabe do período.  Estilisticamente, a arte fatímida mostra o surgimento de um inconfundível estilo islâmico, sem ligações óbvias com a arte iraniana, romana ou bizantina.

Quando os Umayyads foram derrubados em Damasco, em 750, um único príncipe, Abd ar-Rahman, fugiu para Espanha, onde estabeleceu um emirado Umayyad independente, tendo Córdoba como sua capital, e onde construiu a espetacular Mezquita, em 784. Na verdade, Córdoba se tornou produtor de artigos de luxo que atingiu seu apogeu com delicadas criações em marfim, principalmente porta-joias e embalagens de cosméticos com entralhes de arabescos ou formas de animais e inscrições árabes e em geral com incrustações de pedras preciosas e pepitas de ouro. Deste período temos a bela obra chamada BahramGur caçando com Azada, fólio de Shahnama, uma peça pintado com nanquim e aquarela sobre velino, medidno17X12,5 cm . O príncipe Bahram  é representado montado em seu dromedário com sua amada Azada na garupa, durante uma caçada de cervos. A cores vibrantes e o estgilo cru, porém muito dinamizado pela distribuição de rosas e azuis, nos levam a acompanhar o destemido guerreiro e sua amada numa jornada feliz de amor em meio a natureza desértica, de poucas flores e palmeiras, o que não tira em nada a beleza do lugar. As flores esparsas do ambiente são pigmentadas com ouro e o fundo azul se mistura em prata e cobre, dando ao objeto beleza de detalhes.

Na Espanha islâmica, muitos territórios foram cedidos ao governo cristão, onde emergiu um pequeno, mas próspero, principado: o Emirado Nasrida de Granada. Por mais de dois séculos, a dinastia Nasrida governou o último período de prosperidade da cultura islâmica na Espanha. O principal monumento desse período é a Alhambra, em Granada, mais uma cidade fortificada do que um palácio. A Alhambra é magnífica, com suas fontes, praças, banhos, jardins e 23 torres decoradas no estilo nasrida, com tesselas esmaltadas, reboco pintado e esculpido e madeira entalhada. A Alhambra abriga maravilhosas abóbadas muqarnas, nas quais pequenos vãos pontudos se enfileiram, projetando-se uns sobre os outros.

Enquanto isso, no Irã, a partir de 1219, os territórios foram invadidos por soldados mongóis comandados por Gengis Khan, causando a ruína econômica e cultural  quase completa do Irã mulçumano – alguma semelhança com nossos dias? Mesmo dominando grande parte do Oriente e ter tomado Bagdá, os Khans se converteram ao islamismo, causando um período de tolerância cultural  e uma notável evolução no estilo islâmico de arte, numa mistura de três tradições: a chinesa, a iraniana e a islâmica. Canais comerciais ligavam o Oriente ao Ocidente movimentavam o fluxo comercial do período. Porcelanas e sedas chinesas, levadas para o Ocidente em grandes quantidades, foram extremamente influentes na arte islâmica, sobretudo em campos como a cerâmica lustrosa, os azulejos e a pintura.

Não existe outro meio pelo qual a mistura de estilos chinês e mongol esteja mais evidente do que nos manuscritos islâmicos, cujo exemplo mais magnífico é o Grande Shahnama (o Livro dos Reis) Mongol. O texto concluído em 1010 pelo poeta Abu al-QasimFirdaus, é um épico baseado nas histórias e épicos heróis e reis do Irã pré-islmâmico. O livro contém 200 ilustrações, das quais 57 originais sobreviveram, é notável pelo desenho denso e pela complexidade espacial com o uso abundante de cores e icnografias chinesas, que faz qualquer ilustrador moderno, munido de toda tecnologia existente, perder o fôlego.

Em todas as quedas e sucessões, comuns no mundo antigo, como o oriente médio, os artesões e artistas geralmente eram poupados. Como a queda do poder mongol e a subida ao trono de Timor, o Coxo, em 1336, que transferiu a capital para  Samarcanda, hoje Uzbequistão, e permitiu a continuidade da arte islâmica, tornando-se uma das mais gloriosas do mundo.

Então, minha cara leitora, quando estiver lendo algo sobre a cultura islâmica, não se atenha ao que a televisão tenta te impor. A história da arte é um manancial de pesquisas que a fará compreender quão grandioso é o povo islâmico e o quanto é exuberante a sua arte.

Clodoaldo Turcato é jornalista, escritor e artista plástico, nascido em Santa Catarina, reside na Região Metropolitana de Recife desde 2000. Apaixonado por literatura e artes plásticas, tenta fazer esta fusão entre texto e imagem.

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