“A Arte de Amar” em Erich Fromm, [Roland Barthes] e na Criação Literária

foto-21[ENCONTRO. A figura se refere à época feliz imediatamente subsequente à primeira sedução, antes que surjam as dificuldades da relação amorosa.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 135]

Ele estava em um canto da livraria. A princípio, não o notei, por estar abismada com o universo denso e profundo de Sigmund Freud (1895-1938). O Museu na Bergasse 19 em Viena era quase despido de móveis, mas cercado de fotografias de Freud com seus parentes, amigos, companheiros da Ciência que ajudou a criar, cercado de recordações de outros tempos onde ali habitou o pai da Psicanálise.

Ele se encontrava, meio por acaso, meio por destino – acreditarei em destino? – ao alcance de minha mão. Bastava esticar o braço e poderia tocá-lo, poderia folhear as páginas da edição de cinquenta anos de aniversário do The Art of Loving[2] (A Arte de Amar) de Erich Fromm (1900-1980).

Como em toda “paixão à primeira vista” – também nos apaixonamos e somos chamados pelos livros – temi o encontro com o abismo. Ouvira falar dele, sim, mas há muito tempo, e na época não me interessei, não me aprofundei naqueles “caminhos tortuosos” em direção ao Amor escritos pelo sociólogo e psicólogo judeu nascido no início do século XX (23 de março de 1900) em Frankfurt, Alemanha e radicado nos Estados Unidos da América a partir de 1934.

Filho único de um comerciante frustrado por não ter seguido a tradição de rabinos da família, e de uma mãe super protetora, Fromm é o exemplo vivo de alguém que fez da vida a prática de sua teoria sobre o Amor. Escrito em 1956 (a edição do Museu de Freud em Viena é de 2006, portanto, o livro fará sessenta anos em 2016), época em que o sociólogo havia passado por três relacionamentos tempestuosos em vários sentidos (Frieda Reichman, psiquiatra onze anos mais velha; Karen Horney, psicanalista quinze anos mais velha, e Henny Gurland, de sua idade, mas que, acometida por uma espécie de artrose extremamente dolorosa, se suicida em junho de 1952), parece ser o momento de maior maturidade amorosa de Fromm quando encontra Annis Freeman, sua companheira até o final da vida.

O momento é propício. O encontro, amoroso. As páginas do livro fluem rapidamente em minhas mãos durante alguns instantes no Museu de Freud da Bergasse 19 em Viena. Talvez o primeiro encontro – talvez a palavra não seja “encontro”, porque não há encontro sem reconhecimento – tenha acontecido no Museu de Freud em Londres na 20 Maresfield Gardens em 2009.[3] Mas o que realmente importa é a pergunta que insiste em ser proferida:

– Como um livro sobre o Amor pode mudar uma (a minha) vida?

 

A Teoria do Amor

[SEDUÇÃO. Episódio reputado inicial (mas que pode ser reconstruído a posteriori) no decorrer do qual o sujeito amoroso é

“seduzido” (capturado e encantado) pela imagem do objeto amado (nome popular: amor à primeira vista; nome científico: enamoramento).]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 301]

O livro começa com uma pergunta:

– É o amor uma arte?

E como para toda pergunta que pretende abraçar o mundo, Fromm divide a resposta em partes, e vai, delicadamente nos guiando de maneira (quase) poética – ele que não se considera poeta – pelos caminhos do Amor.

Se o Amor é uma arte, como em toda arte, é preciso o conhecimento, e esforço, e dedicação contínuos – isso nos parece com o que já tratamos em “Notas sobre o Talento na Criação Literária”[4] quando falamos das três ferramentas (Forma, Técnica e Ofício) para a construção de uma obra de arte (literária) encontradas em Iniciação à estética do escritor, poeta e dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014).

No processo de se apreender uma arte é preciso maestria na Teoria, mas também maestria na Prática. Podemos conciliar essa divisão feita por Fromm em seu livro com a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico defendida pelo escritor e ex-jornalista paulista Luís Roberto Amabile em “A perda da aura nasFotografias para imaginar, de Gilberto Perin (e a Escrita Criativa em Ambiente Acadêmico)”[5] – esse entrelaçamento de textos é o que a doutora em Linguística Aplicada e Estudos em Línguas pela PUC-SP Cecília Almeida Salles nos convida em Redes da criação: construção de uma obra de arte, e que alicerça e consolida o saber.

Mas vejamos a primeira parte do A Arte de Amar.

[ENTENDER. Percebendo repentinamente o episódio amoroso como um nó de razões inexplicáveis e de soluções bloqueadas,

o sujeito exclama: “Quero entender (o que está acontecendo comigo)!”]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 139]

A Teoria do Amor, segundo Fromm, é a Teoria da Existência Humana, por ser o Amor – feito veremos mais adiante – a razão e a essência da vida, o que nos põe em movimento, o que buscamos ardentemente desde o mito da “expulsão do Paraíso”.

No princípio era o Caos. Uma força toda poderosa o organizou, deu luz aos planetas, o dia e a noite, o homem e os animais. Tudo era harmonia e união com o Ser Criador. Até a primeira desobediência. A “expulsão do Paraíso” incrustou em todo homem, em toda mulher, a necessidade profunda de superar a separação primordial, a separação com o todo.

– Como superar a separação?

Poderíamos fazer a pergunta acima a um Erich Fromm receptivo – aquele que seu assistente Rainer Funk descreve como (bastante) interessado na companhia do interlocutor e isso era demonstrado por seu olhar firme, “quase muito intenso”, e “fixo”.

“O homem é vida consciente de si”, afirma Fromm. E a resposta à pergunta anterior, “Como superar a separação?”:

– Depende do grau de individuação do indivíduo.

Erich – e eu já me coloco em sua intimidade – narra a história das tentativas de superação da separação original. Narra as experiências orgásticas das tribos antigas, quando em meio ao sexo grupal, os corpos se unindo e transmitindo às próprias almas a sensação de totalidade, plenitude, de se fazerem Um. Mas essa sensação não durava por muito tempo. Então essas experiências eram cíclicas e marcadas no calendário das festas das tribos antigas.

A necessidade de pertencer a um “rebanho” não nos é estranha. Por que será que em um regime político livre, feito é a Democracia, persiste o esmagador grau de conformismo/conformidade às normas estabelecidas (e induzidas) pelo mercado do sistema Capitalista?

[IDENTIFICAÇÃO. O sujeito se identifica dolorosamente com qualquer pessoa (ou com qualquer personagem) que ocupe, na estrutura amorosa, a mesma posição que ele.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 207]

A união por conformismo/conformidade aparenta ser uma solução para o “buraco negro” da separação original. Mas ainda não é. Ainda não é suficiente para “apaziguar a ansiedade da separação”. No conformismo/conformidade da sociedade moderna Capitalista, tudo é padronizado. A rotina de trabalho. A rotina de prazer. Até a rotina de estudo – estudamos para sermos independentes ou para “dizermos” que estudamos?

(Fromm nos alerta sobre a alienação. Até que ponto pensamos por nós mesmos, ou seguimos os padrões, os desejos, as ordens de nossos pais, amigos, “amores”?)

Uma terceira maneira de superar a separação original (além da experiência orgástica, ou da união por conformismo/conformidade) é a atividade criativa.  É quando chegamos à nossa seara. É quando nos aproximamos da Criação Literária.

Erich informa que na atividade criadora há a experiência integradora de unir a si mesmo com o material específico de cada arte. Quer seja uma pintura, escultura, uma cena de cinema, teatro, página de romance escrita, ou poesia, a arte nos preenche “por instantes” e não nos sentimos mais sós. Sentimo-nos pertencentes a todas as épocas, a todas as pessoas, o Amor ao próximo, ao mundo, à natureza se concretiza naquilo que realizamos com nossas próprias mãos.

Mas nada se compara à unidade interpessoal. Se na experiência orgástica há a união de corpos simulando a união de almas, ou na união por conformismo/conformidade o ser se dilui em meio a um rebanho, na atividade criadora o artista se encontra só – e deveria realmente se encontrar só no momento da criação, que é quando tem a oportunidade de entrar em contato com seu mais profundo, e muitas vezes desconhecido, “eu”.

Fromm defende a união interpessoal como a “resposta completa” à questão da separação original. Ele passeia pela união simbiótica entre mãe e filho – que pode adquirir uma forma passiva, gerando submissão ou masoquismo, ou a forma ativa, gerando dominação ou sadismo –, em contraste com o Amor, que é “união sob a condição de preservar a integridade de alguém”.[6] “O Amor é um poder ativo no homem”, continua Fromm na mesma página, e confronta o conceito de “atividade” moderno – aquele que o ser precisa “externar” suas atividades para ser considerado “ativo” – com o conceito de atividade de Espinoza, em que os “afetos ativos” são livres, enquanto os “afetos passivos” são dirigidos. Então chegamos à Teoria dos Afetos que rapidamente mencionamos em “A perda da aura…”. Abramos (muito) breves parênteses para discorrer sobre ela.

[CONTATOS. A figura se refere a todo discurso interior suscitado por um contato furtivo com o corpo (e mais precisamente a pele) do ser desejado.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 85]

(A Teoria dos Afetos[7], ou em alemão Affektenlehre, é originária da teoria musical da época do Barroco, na qual se utilizavam recursos técnicos específicos e padronizados para despertar nos ouvintes emoções também específicas e padronizadas. Ao chegarmos ao pensamento de Espinosa[8](1632-1677), buscamos uma Teoria dos Afetos privilegiando não somente esse poder de afetar e ser afetado pelo mundo ao nosso redor, mas como uma forma (livre) de conexão entre as artes, as ciências, a filosofia e as críticas de arte e literária, aquilo que é também uma busca – como anunciamos há algumas páginas – nas Redes da criação de Cecília Almeida Salles, ou o que Fromm afirma sobre Espinosa: o Amor “é uma ação, a prática do poder humano, que pode ser praticada somente em liberdade e nunca como o resultado de uma compulsão”.[9])

É dando que se recebe, parece nos dizer Fromm/Espinosa/Salles. O caráter produtivo do ser humano – e poderíamos colocar aqui o da arte – é a mais “alta expressão de potência”. Não é aquele que “tem” muito que é rico, afirma Fromm, mas aquele que “dá” muito.

Essa é a “filosofia” do Cristo, de Buda, Gandhi… e de tantos homens grandes. A pessoa dá “ao próximo” a sua vida, o que é vivo em si – sua alegria, interesse, compreensão, conhecimento, mas também sua tristeza, melancolia, sofrimento, dor.

O Amor é um poder que produz Amor, afirma Erich, enquanto a impotência é a inabilidade de produzir Amor. Enquanto estivermos presos às regras do mercado Capitalista e Consumista, estaremos presos a essa “impotência”, a essa “incapacidade de amar”.

Mas Fromm nos apazigua a angústia da pergunta:

– Como viver em uma sociedade materialista e encontrar (e exercer) o Amor?

[ESTABELECIDOS. O sujeito amoroso vê todos os que o rodeiam “estabelecidos”, cada qual lhe parecendo provido de um

pequeno sistema prático e afetivo de ligações contratuais, do qual ele se sente excluído; experimenta então um sentimento ambíguo de inveja e de derrisão.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 169]

Ele nos responde de maneira muito doce – e eu acredito na doçura – que existem profissões em que se pode ser mais livre das amarras mercadológico-capitalistas e entre essas profissões encontra-se a do professor – que ensina e recebe ensinamentos de seus alunos –, e a do ator de teatro – que estimula e é estimulado por sua audiência.

É preciso conhecer o Outro e respeitá-lo para poder Amar. Não a periferia do Outro, mas o seu núcleo, o centro, e que no ato de fusão (de Amor) entre duas pessoas, “eu lhe conheço, eu me conheço, eu conheço todo mundo – e eu ‘conheço’ nada”.[10]

Mas para conhecer o Outro devo fazê-lo de maneira objetiva, sendo capaz de “ver sua realidade, ou melhor, superar as ilusões, o irracional retrato distorcido que tenho”[11] dele ou dela.

Erich Fromm nos lembra o (um outro) mito da separação que em Platão divide os seres-unos-masculinos-femininos em seres de sexos opostos. Fromm acredita que os homens e as mulheres são bissexuais, tanto fisiológico quanto psicologicamente. E esta polaridade é a base para toda a Criatividade – e novamente lembramos da nossa “seara da Criação Literária”.

Mas é preciso resolver os afetos que herdamos de nossos pais. Se para um indivíduo maduro, o Amor de mãe e filho é aquele que gera a certeza de que “eu sou amado pelo que sou, ou mais precisamente, eu sou amado porque eu sou”, no amor infantil – e notem a palavra “amor” sem o “A” maiúsculo – “eu amo porque eu sou amado”, “eu amo você porque eu preciso de você”, enquanto no Amor maduro “eu preciso de você porque eu amo você”.

Isso porque, continua Fromm, o Amor de mãe é incondicional, enquanto que o de pai é condicional. Existe o lado positivo e negativo de cada caso. O Amor de mãe não pode ser conquistado; o de pai, sim. O Amor de mãe é incondicional; no de pai, preciso merecer senão eu perco. Na pessoa madura, tanto o Amor de mãe quanto o de pai estão introjectados, não necessitando mais de um referencial externo, não sendo afetado pelo seu (“não” ou “sim”) reconhecimento.

[AFIRMAÇÃO. Contra tudo e todos, o sujeito afirma o amor como valor.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 15]

O Amor maduro não é uma relação com “uma” pessoa específica. É uma “atitude”, uma relação da pessoa “com o mundo todo” e não somente com “um ‘objeto’ de amor”.

Fromm trata do amor erótico – aquele em que duas pessoas que são separadas se tornam uma –; do amor de mãe – aquele em que duas pessoas que eram uma se tornam separadas –; do amor fraternal – por todos os seres humanos –; o amor por mim mesmo – que deve ser inseparável do amor por qualquer outro ser. Se um indivíduo é capaz de amar “produtivamente”, ou “ativamente”, feito vimos com Espinosa, é capaz de amar a si mesmo. Se ele/ela pode amar “somente” os outros, ele/ela não pode amar “de maneira alguma”.

O amor a Deus é descrito por Erich Fromm em comparação com as fases que um indivíduo transita desde o amor infantil até o Amor maduro: da fase matriarcal, com o amor incondicional materno, passando pela fase patriarcal, com “eu sou amado por merecimento e obediência”, até chegar à fase sartreana, do “Deus sou eu, enquanto sou humano”.[12]

Fromm afirma que desejamos definir a Deus, dividir Deus em bem e mal, certo e errado por pensarmos sob a Lógica de Aristóteles, em que a Lei da Contradição e a Lei do Meio Excluído não permitem (e não deixam espaço) para o pensamento chinês e indiano que foi abraçado por Heráclito, Hegel e Marx sob a Lógica do Paradoxo.

Lao-tse diz que: “Palavras que são estritamente verdadeiras aparentam ser paradóxicas”.[13] E o mestre Eckhart – a quem Fromm tanto admira – afirma: “O Divino Ser é uma negação das negações, e uma recusa das recusas… Toda criatura contém uma negação: uma nega que é a outra”.[14]

[PLENITUDE. O sujeito coloca, com obstinação, o voto e a possibilidade de uma satisfação plena do desejo implicado

na relação amorosa e de uma felicidade sem falhas, e como que eterna, dessa relação: imagem paradisíaca do Soberano Bem, a dar e a receber.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 275]

O conhecimento de Deus se dá não pelo pensamento certo, mas na ação certa. E somente se pode amar ao Outro – pai, mãe, irmãos, a si ou a um objeto amoroso – através de seu conhecimento. Fromm lembra novamente Espinosa e a transição da “crença correta” à “conduta de vida correta”; Marx e a tarefa de “transformar” o mundo; e Freud com a “terapia psicanalítica” como sendo “a mais profunda experiência de si mesmo”.

(Interessante abrir breves parênteses sobre o posicionamento de Erich Fromm em relação ao pensamento de Sigmund Freud. Fromm se coloca em contraste com o pai da Psicanálise em diversos pontos do A Arte de Amar, mas se posiciona “em continuação”, não em pura “quebra” e destruição do pensamento anterior, e se coloca sob o olhar “sociológico”, que era a formação inicial de Erich Fromm e que não foi pensada pelo seu antecessor Sigmund Freud.)

Erich encerra o seu capítulo sobre “A Teoria do Amor” com um desafio a nós leitores, a mim, leitora apaixonada pelo que tenho em minhas mãos. Cada indivíduo tem dentro de si todas as fases do amor a Deus – amor materno, amor paterno, amor por si mesmo, o amor por todos os seres humanos. A questão é em que ponto o indivíduo se encontra na escala do amor infantil até o Amor maduro, e mais ainda, o que fazer para atingir o seu mais alto grau. Talvez uma frase do mestre Eckhart – a “quem Erich Fromm tanto admira” – possa nos elucidar as ideias, clarear o caminho para nos prepararmos para “A Prática do Amor”:

– “Deus e eu: somos um. Conhecendo a Deus eu o tomo para mim mesmo. Amando a Deus, eu o penetro.”[15]

 

A Prática do Amor

[ESCREVER. Engodos, debates e impasses provocados pelo desejo de “exprimir” o sentimento amoroso numa “criação” (particularmente de escrita).]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 157]

Feito em toda arte, a Prática do Amor requer um maior investimento de energia e determinação de quem se propõe a enveredar por seus caminhos. Quem se propõe e se doa, e se entrega com todas os átomos do corpo (e da alma de Epicuro). Fromm se (nos) pergunta:

– “Pode alguma coisa ser aprendida sobre a prática de uma arte, exceto em praticando-a?”[16]

Um(a) escritor(a) senta diante de sua mesa. Toma papel e caneta, teclado e tela de computador, e inicia o seu dia, e pratica o seu Ofício. Munido(a) da Técnica do Amor (ou da Escrita) se vê diante da difícil situação de pôr em prática aquilo que foi introjectado durante os anos todos de estudo, durante o tempo inteiro de aprendizado.

O medo congela suas mãos. Mas “antes de tudo”, “antes de nada”, a Prática “de uma arte requer disciplina” – Erich senta-se ao lado e sussurra os seus segredos. Se demarcam horários de escrita, se insiste no investimento do Amor.

Perceber o que está ao redor é uma arte dos iniciados. O(a) escritor(a)/amante maduro(a) observa em um café a passagem dos pedestres apressados, escuta (sem querer?) a conversa na mesa vizinha, colhe informações sobre o objeto amado, para então, no vazio de seu quarto, caderno, computador, forjar um personagem de si mesmo(a) e derramar a alma por inteiro no texto a escrever, no “livro por vir”.

O(A) amante percebe a mudança do(a) amado(a). Presta atenção nos detalhes, porque é de detalhes que toda (grande) obra de arte é feita. A concentração é a segunda ferramenta necessária na Prática do Amor, na Arte da Escrita. Mas como nos concentrar em meio ao “barulho ao redor”? Em meio a uma sociedade em que o “valor de exposição” que vimos com Walter Benjamin em “A perda da aura…” nos impõe um mundo de aparências? Um mundo em que as essências dos seres humanos são cada vez mais esvaziadas?

[ESPERA. Tumulto de angústia suscitado pela espera do ser amado, ao sabor dos mais ínfimos atrasos (encontros, telefonemas, cartas, retornos).]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 163]

A terceira ferramenta na Prática do Amor, na Arte da Escrita é a paciência. Novamente uma pergunta: “Como ter paciência na sociedade industrializada em que vivemos? Em que o mais importante é a rapidez, a velocidade nos relacionamentos?”

Fromm sugere a meditação. Como uma maneira de conhecer a si mesmo. Como uma forma de acalmar a alma, concentrar o espírito, disciplinar o saber.

No entanto… Erich afirma o que já foi questionado por um poeta maduro a um poeta iniciante em cartas, em nosso ensaio “Notas sobre o Talento”, que forma, juntamente com “A perda da aura” e este “A Arte de Amar”, uma “rede da criação”, uma tríade que nos dá base e sustentação para dar “mais um passo” em direção à Criação Literária, para insistir mais um pouco na Prática de Amar: a suprema preocupação com a maestria da arte. Vale a pena recordarmos (novamente) Rainer Maria Rilke em suas Cartas a um jovem poeta:

“O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?”[17]

“Se a arte não é algo de suprema importância, o aprendiz nunca irá aprendê-la”,[18] afirma Fromm. “Morreria, se lhe fosse vedado escrever”?, desafia Rilke um(a) poeta/praticante do amor abismado(a). A disciplina tem de vir de dentro, a Prática da arte tem de ser concentrada “neste exato momento”, sem nos distrairmos com nada nem com as “más companhias” – aqueles/aquelas que agem sobre nós feito uma espécie de “zumbis”, sugando nossa energia nos Festivais Literários, tomando para si toda a Pulsão do Amor.

Para se alcançar o Amor é preciso sair de si, é preciso superar o Narcisismo, e o polo oposto do Narcisismo é a Objetividade, ou seja, a capacidade de “enxergar” – não “ver”, que é superficial – as pessoas e coisas “como elas (realmente) são”, e não como as projetamos em nossa Página em Branco do caderno, em nossa Tela Imaginária do computador, com nossos desejos ou medos. Porque é preciso, em primeiro lugar, acreditar no que se escreve, acreditar em si para poder Amar o Outro.

[ABRAÇO. O gesto do abraço amoroso parece realizar, por um instante, para o sujeito, o sonho de união total com o ser amado.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 7]

“A faculdade de pensar objetivamente é a razão; a atitude emocional por trás da razão é aquela da humildade”.[19] Se desejo aprender a arte de Amar, apreender a Criação Literária, devo então lutar a cada instante, a cada situação para manter essa objetividade, para trazer à tona essa racionalidade, que é o que nos diferencia dos outros seres animais, é o que nos aproxima do eterno conflito entre Poesia e Teoria, Crítica e Ficção, Vida e Arte.

Todo pensamento criativo, quer seja Teórico ou Científico, Poético ou Ficcional, deve alicerçar-se na Fé, deve iniciar em uma “visão racional”, que é o resultado de um “considerável prévio estudo, pensamento reflexivo, e observação” próprios, apesar da “opinião da maioria”. Sem a Fé, estaríamos ainda nas Cavernas, estaríamos ancorados no amor infantil, sem nunca alcançarmos o Amor maduro.

Se não temos Fé e insistimos em nosso “eu”, nosso “sentimento de identidade” é ameaçado e nos “tornamos dependentes de outras pessoas”, cuja “aprovação” torna-se a “base do nosso sentimento de identidade”.[20] Abramos breves parênteses para traçar uma comparação entre esse “sentimento de identidade ameaçado” quando não temos Fé no nosso “eu” na Prática do Amor, com a “Letra órfã do Pai ausente do discurso” do filósofo francês nascido em Argel, Argélia Jacques Rancière (1940).

(No prefácio de Políticas da escrita[21], Rancière nos fala da Democracia não como um “modo particular de governo”, e sim como “a forma da comunidade repousando sobre a circulação de algumas palavras sem corpo nem pai”. É preciso que a “Letra” da escritura seja “órfã”, cuja “legitimidade nenhum pai garante”, ou seja, que se esteja só, e que se acredite, tenha Fé nesse ser sozinho para se atingir a voz própria da Escrita, ao mesmo tempo essa Letra órfã sendo a “textura da lei”, inscrita no que ela e a comunidade têm em comum.)

[SOZINHO. A figura remete não ao que pode ser a solidão humana do sujeito amoroso, mas à sua solidão “filosófica”,

já que o amor-paixão não é, atualmente, objeto de nenhum sistema maior de pensamento (de discurso).]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 163]

Erich Fromm contrapõe a educação à manipulação, sendo a primeira quando se ajuda “a criança a realizar suas potencialidades”, enquanto a segunda “é baseada na ausência da fé nas crescentes potencialidades”, colocando na criança apenas o que é “desejável”, suprimindo “o que parece ser indesejável”.[22]

A base da fé racional é a produtividade. Viver para si, “amar a si mesmo como se fosse ao próximo”, é viver produtivamente, criativamente no Amor maduro, na Criação Literária.

É preciso ter Coragem para viver esta Fé. É preciso tomar as “dificuldades, retrocessos e tristezas” como um desafio a superar e que nos “faz mais fortes” – já dizia o filólogo e filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900).

Mas as pessoas (realmente) capazes de Amar são uma exceção. Amar “é por necessidade um fenômeno marginal hoje em dia na sociedade Ocidental”.[23]

Somente os não-conformistas, os não-conformados são capazes de se defenderem do Espírito Centrado na Produtividade, na Objetivação do Sujeito Amoroso, na Escrita Criativa que une a Teoria com a Poesia, a Crítica com a Ficção, a Vida e a Arte.

[EU-TE-AMO. A figura não remete à declaração de amor, à confissão, mas à proferição repetida do grito de amor.]

[BARTHES, (1977 in) 2003, p. 173]

Saímos eu, meu pai e meus três filhos do Museu de Freud na Bergasse 19 em Viena. Meus filhos e meu pai conversam sobre o que viram, ouviram no Museu. Eu permaneço calada em meio à chuva fria de Viena. Frio está meu coração, como frio se encontra um coração toda vez que se despede – para sempre? – do ser amado. “Para sempre?” – não está entre parênteses, não está suspenso na probabilidade de nunca mais ali retornar. Está no meio de uma frase entre dois travessões, para alertar de uma possibilidade, e meu coração se aquece um pouco, fica mais tranquilo.

O Amor que aprendi em A arte de Amar, de Erich Fromm, nas interferências de Roland Barthes e o seu Fragmentos de um discurso amoroso[24] – livro que também teimei (e desisti várias vezes) em começar a ler desde 2014 –, estão impregnados nas minhas células cerebrais, e mais, na minha alma apaixonada por Poesia, e Teoria, e Crítica, e Ficção. Porque as palavras desses Teóricos-Poéticos, ou (será?) Poetas-Teóricos insuflam Vida, fornecem inspiração. E nos fazem escrever mais umas (quatorze) páginas, nos fazem caminhar mais um passo, “um passo de cada vez”,[25] em busca do Amor Perfeito, em busca do Amor Próprio, que, ao se encontrar – e estava tão perto –, podemos, devemos, plenamente, puramente, Amar “o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22, 39).

* O dia em que Fromm encontrou Tenório na Bergasse 19, Viena. The day when Fromm met Tenório on Bergasse 19, Vienna.

(1) Patricia (Gonçalves) Tenório escreve poesias, romances, contos desde 2004. Tem oito livros publicados: O major – eterno é o espírito2005, biografia romanceada, Menção Honrosa no Prêmios Literários Cidade do Recife (2005); As joaninhas não mentem, 2006, fábula, Melhor Romance Estrangeiro da Accademia Internazionale Il Convivio, Itália (2008); Grãos, 2007, contos, poemas e crônicas, Prêmio Dicéa Ferraz – UBE-RJ (2008); A mulher pela metade, 2009, ficção; Diálogos, contos, e D´Agostinho, poemas, 2010; Como se Ícaro falasse, ficção, Prêmio Vânia Souto Carvalho – APL-PE (2011), lançado em novembro de 2012. Em 2013, recebeu o Prêmio Marly Mota, da União Brasileira dos Escritores – RJ, pelo conjunto de sua obra, e lançou em Paris Fără nume/Sans nom, poemas, contos e crônicas em francês e romeno, pela editora romena Ars Longa. Está no prelo, a ser lançado em abril de 2016 pela editora espanhola Mundi Book Ediciones, Vinte e um, uma coletânea em português e espanhol de vinte e um contos escritos entre novembro de 2011 e janeiro de 2014. Mantém o blog www.patriciatenorio.com.br, no qual dialoga com diversos artistas, em diversas linguagens. Defendeu em 17 de setembro de 2015 a dissertação de mestrado em Teoria da Literatura, linha de pesquisa Intersemiose, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde: um romance indicial, agostiniano e prefigural, com o anexo, o ensaio romanceado O desaprendiz de estórias (Notas para uma Teoria da Ficção), sob a orientação da Prof. Dra. Maria do Carmo de Siqueira Nino. Contatos: patriciatenorio@uol.com.br ewww.patriciatenorio.com.br

(2) FROMM, Erich. The Art of Loving. Introduction by Peter D. Kramer. P.S. Biographical Afterword: Rainer Funk. Translated (into English): Marion Hausner Pauck. New York: Harper, (1956 in) 2006 – Tradução nossa para este estudo.

(3) Desse “quase” encontro nasceu “Eu, comigo e Deus”, conto que faz parte deVinte e um, livro que será lançado em abril de 2016 pela editora espanhola Mundi Books Ediciones. Vide também http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6067 Escrito em 16/01/2014. Última atualização: 31 de maio de 2015.

(4) Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6279. Escrito em 14/06/2013. Última atualização: 25 de outubro de 2015.

(5) Vide http://www.patriciatenorio.com.br/?p=6328. Escrito em 30/10/2014. Última atualização: 29 de novembro de 2015.

(6) FROMM, Erich. Op cit., p. 19.

(7) MATTHESON, Johann. Sobre as qualidades e tonalidades e seu efeito na expressão dos affecten. In Revista Música. Tradução e breve introdução: Lúcia Becker Carpena. V. 13. N. 1. UFRGS, (1713 in) ago. 2012, p. 219-241.

(8) ESPINOSA, Bento de. Ética. Tradução: Parte I: Joaquim de Carvalho; Parte II e III: Joaquim Ferreira Gomes; Parte IV e V: António Simões. Introdução e Notas: Joaquim de Carvalho. Posfácio: Joaquim Montezuma de Carvalho. Lisboa, Portugal: Relógio D’Água, 1992.

(9) FROMM, Erich. Op cit., p. 21.

(10) FROMM, Erich. Op cit., p. 28.

(11) FROMM, Erich. Op cit., p. 29.

(12) FROMM, Erich. Op cit., p. 65.

(13) FROMM, Erich. Op cit., p. 68.

(14) FROMM, Erich. Op cit., p. 71.

(15) FROMM, Erich. Op cit., p. 75.

(16) FROMM, Erich. Op cit., p. 99.

(17) RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta e A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke. Tradução: Paulo Rónai e Cecília Meirelles. São Paulo: Globo, 2001, p. 26.

(18) FROMM, Erich. Op cit., p. 99.

(19) FROMM, Erich. Op cit., p. 111.

(20) FROMM, Erich. Op cit., p. 114.

(21) RANCIÈRE, Jacques. Políticas da escrita. Tradução: Raquel Ramalhete… [et al]. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995, p. 9.

(22) FROMM, Erich. Op cit., p. 115.

(23) FROMM, Erich. Op cit., p. 122.

(24) BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução: Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

(25) TENÓRIO, Patricia (Gonçalves). As joaninhas não mentem. Rio de Janeiro: Calibán, 2006, p. 53.

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